"Até choro quando as vejo morrer”. O desabafo é de Raul Contreras, criador de ovelhas com exploração na zona das Falfosas, nas proximidades de Faro. Aí o serótipo 1 da doença da Língua Azul faz vítimas entre os animais todos os dias e o criador começa a desesperar.
“Se a situação piorar não sei o que vou fazer da vida”, desabafa. “Todos os dias morrem mais ovelhas, houve uma semana em que morreram 12 e eu já não sabia o que fazer”, contou ao CM o pastor de 56 anos, que herdou a produção do pai e vive exclusivamente da pastorícia.
Neste momento contabiliza cerca de 30 animais mortos e outros tantos doentes, mas amanhã já “são mais”, adivinha o produtor.
Este é apenas um dos casos no meio de dezenas deles em todo o Sotavento algarvio. A doença está instalada e pode mesmo chegar a explorações do Barlavento. “Todo o Sul do país é uma zona de risco onde a doença se pode propagar”, alerta o veterinário Paulo Pina, da Organização de Produtores de Pecuária Alcoutim/Loulé. “Os focos iniciais verificaram-se em Espanha e a contaminação chegou às explorações do Sotavento, porque estavam mais perto. Por isso, não é de estranhar que, mais tarde ou mais cedo, possam vir a ser identificados casos no Barlavento”, diz o veterinário. No Algarve, já morreram mais de 300 animais.
A agravar a situação estão as temperaturas elevadas que continuam a fazer-se sentir. António Madeira, director do Serviço de Veterinária da Direcção Regional de Agricultura, admite que “o calor está a dificultar” o combate à propagação da doença. “Se as temperaturas baixassem até aos cinco graus, os mosquitos morriam”, explica.
Apesar de tudo, António Madeira garante que “não há razão para dramatizar”. Defendendo que “os números de animais mortos não são assim tão elevados”, este responsável garante que “se for feita a desinfestação dos rebanhos, a doença pode ser controlada”.
A vacina, que pode ajudar ao combate, está a ser desenvolvida por um laboratório espanhol e prevê-se que possa chegar a Portugal durante o próximo mês. Até lá, a única possibilidade é tentar controlar a propagação dos mosquitos infectados com a doença.
Esta acção está em curso nos concelhos de Alcoutim, Castro Marim, Faro e Loulé.
QUEBRA NAS VENDAS
Raul Contreras vive exclusivamente da pastorícia, principalmente com a venda de animais. Neste momento as vendas estão fracas. “Agora ninguém me compra ovelhas ou borregos, porque têm medo”, lamentou ao CM o produtor.
CARNE CONTROLADA
O director do Serviço de Veterinária da Direcção Regional de Agricultura, António Madeira, garante que não há perigo para a saúde pública. “Os animais são controlados pelas fiscalizações sanitárias quando entram nos matadouros”, assegura.
PIOR CASO
Até agora, a pior situação detectada localiza-se numa exploração de Almancil, no concelho de Loulé. Aí já morreram mais de 40 animais de um rebanho com um total de 200 ovelhas. Estes números são explicados, em parte, pela proximidade com a Ria Formosa.
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