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Trinta e nove anos de maus tratos

Maria Ilda Vinagre tem 57 anos e uma vida pautada pelo sofrimento. Suportou 39 anos de violência conjugal até que reuniu coragem e vontade para recomeçar do zero: denunciou o ex-companheiro à Justiça, após várias queixas na Polícia Judiciária (PJ) e na GNR.

04 de março de 2008 às 00:30

O pesadelo começou quando casou. “Tivemos dois filhos e ele, quando bebia, batia-me”, recorda. E prossegue: “Era homossexual e gostava de homens. Confessou-me isso e sugeriu-me que eu arranjasse um companheiro mas para continuarmos juntos, pelas aparências.”

Revoltada com a vida que levava, encontrou conforto nos braços de um colega de trabalho numa oficina de automóveis, onde arranjou emprego. “Era modista mas tive um acidente e fiquei com uma incapacidade de 90 por cento. A reforma não alimentava os meus filhos. Tive de ir fazendo outras coisas”, sublinha.

Em 1990 foi viver com O.J., o seu novo companheiro, para um anexo da casa dos pais dele em Caneças, Loures. “Os meus novos sogros eram testemunhas de Jeová e controlavam os meus horários, as minhas roupas...”, comenta. Logo nesse ano apresentou a primeira de muitas queixas na PJ. “Ele obrigou--me a despir e deu-me uma tareia.” Chegou a ligar para um tenente-coronel dos Comandos, ao qual O.J. estava ligado. “Depois disso ficou uns meses calmo mas regressou às pancadas, insultos e obrigava-me a ir todos os meses à meia-noite do dia 16 levantar a minha reforma para ele gastar”, alega. Acusa também o ex-companheiro de pedofilia: “Tanto eu como a primeira mulher dele prestámos depoimento na GNR. Ele dizia-me na cara que gostava de meninas com 12 anos e eu não ligava até que descobri fotografias horrorosas no computador dele. A ex-mulher dele já sabia, eu não”, diz.

Porque razão uma mulher aguenta 17 anos de violência? “Achei que ele ia mudar e gostava muito dele. Hoje, gosto mais de mim”, remata.

TRIBUNAL DIZ QUE NÃO HÁ PROVAS

Entre as várias queixas de Maria Ilda encontra-se uma de violação, na qual alega ter sido forçada a manter relações sexuais, formulada no início de Fevereiro de 1998. Só foi chamada para fazer exames no Instituto de Medicina Legal a 15 de Abril. Em 2000, o Ministério Público de Sintra pronunciou-se, dizendo que não tinha provas que permitissem atestar que Maria Ilda era vítima de violência conjugal ou que havia sido violada, na medida em que O.J. apresentava versões contraditórias dos factos. Sete anos depois, e após várias queixas junto das autoridades, o mesmo MP de Sintra, face a novas queixas, mandou arquivar o processo dizendo que “não se mostra possível deslindar se a factualidade ocorreu mesmo tal como denunciada e, nesse caso, se traduziu em situações isoladas, ou pelo contrário, numa situação habitual por parte do denunciado, sendo certo que o crime de maus tratos exige uma conduta reiterada que não se coaduna com a prática ocasional...”. A alegada vítima não se conforma: “Como não estava ninguém dentro de casa para testemunhar, não acreditam, apesar de outras testemunhas, queixas anteriores e relatórios médicos. É a Justiça que temos”.

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