Os corpos de quatro dos cinco portugueses vítimas da queda de um viaduto em Andorra chegaram ontem a Portugal, no dia em que Toni Ribeiro – que morreu no hospital após ter sido resgatado com vida dos escombros, onde esteve mais de dez horas – foi a enterrar no cemitério de Lordelo.
Ao contrário do que inicialmente estava previsto, as autópsias ficaram concluídas de manhã. Os corpos de Carlos Alves e Carlos Marques partiram do Hospital de Meritxell antes das 10h00. Mais de duas horas depois, era a vez de os caixões de António Gonçalves e Olímpio Santos seguirem viagem rumo à terra onde nasceram.
As famílias das vítimas regressaram mais cedo a Portugal, a conselho dos psicólogos. 'Fomos aconselhados a regressar antes, ia ser muito doloroso seguir toda a viagem atrás do caixão. Já sofremos bastante nos últimos dias', explicou ao CM Armandina Escoeiro, cunhada de Olímpio.
António Gonçalves e Olímpio tinham residência fixa em Andorra há quase 30 anos. Contudo, na hora de decidir onde seriam enterrados, não houve dúvidas para as famílias. O desejo dos trabalhadores era serem enterrados na terra natal.
'Vamos enterrá-lo na terra onde ele nasceu e cresceu. Onde sempre disse que queria morrer. Era esse o desejo dele e nós vamos cumpri--lo', explicou Armandina, cunhada de Olímpio, que esta manhã vai a enterrar em Sá, Valpaços.
Também para Clara, mulher de António Gonçalves, não houve dúvidas. 'Ele há muito que pensava voltar para Portugal, infelizmente não o conseguiu fazer com vida', lamentou.
Quatro dias depois do acidente, Andorra ainda não recuperou da tragédia. Depois de toda a neve que cobria a plataforma ter ontem derretido, a imagem chocante de uma montanha de ferro e betão ficou a descoberto. Hoje, no dia escolhido pelo Governo de Andorra para assinalar o luto às vítimas, outros cinco portugueses que ficaram feridos no acidente continuam internados: três no hospital de Meritxell e outros dois em Barcelona. Um outro teve alta.
ESTIMADAS 12 MORTES ATÉ FINAL DA OBRA
Desde que a construção do viaduto se iniciou em La Massana, já morreram naquele local sete portugueses, um em 2007 e seis este ano. Contudo, ao que o CM apurou, no inicio do projecto foi feita uma avaliação e, até 2011, ano em que a obra estaria finalmente concluída, era admitida a morte de 12 trabalhadores. 'As empresas fazem sempre um estudo prévio e, face às condições de trabalho e ao perigo que aquela construção representa, havia uma estimativa de pelo menos 12 trabalhadores morrerem. Numa obra desta magnitude é muito raro não haver mortes', explicou ao CM um responsável. No entanto, a forma trágica como ocorreu este acidente chocou toda a comunidade. Alguns consideram mesmo regressar a Portugal e não continuar o trabalho.
PORMENORES
Ferido teve alta
Fernando Pereira, 40 anos, ferido que sofreu um traumatismo craniano, foi operado de urgência no hospital em Barcelona. Ontem foi transferido para uma unidade em Portugal.
Causas por apurar
Ainda não há conclusões sobre o que levou à queda do viaduto em construção, mas tudo indica que a má distribuição de betão na plataforma terá desequilibrado a estrutura, arrastando-a para o precipício.
Obra parada
Os trabalhos no túnel dos Vallires estão suspensos por tempo indeterminado. Muitos portugueses que trabalhavam na obra estão em Portugal para assistir às cerimónias fúnebres e ponderam não voltar a trabalhar naquela construção
Em estado grave
Dois dos seis trabalhadores portugueses feridos no acidente estão internados em estado grave na unidade de queimados do Hospital de Barcelona. Três outros continuam na unidade hospitalar de Meritxell, em Andorra.
Funerais hoje
Vão hoje a enterrar os quatro trabalhadores que perderam a vida na construção do viaduto em Andorra. Os funerais realizam-se de manhã em Valpaços, e Baião. À tarde em Terras de Bouro e Paços de Ferreira.
UMA 'DOR IMENSA' NO ÚLTIMO ADEUS
'Vão lá para fora ganhar a vida e encontram a morte. É muito triste...' A frase ficou incompleta porque a emoção embargou a voz de Isabel Sousa, uma das quase mil pessoas que não quiseram, ontem, faltar ao funeral de Toni Cristiano, um dos cinco emigrantes em Andorra que no sábado morreram na queda de um viaduto.
António Soares, de 72 anos, disse ao CM nunca ter visto em Lordelo, Guimarães, um funeral que juntasse tanta gente. 'Era um rapaz na flor da idade e muito considerado aqui na terra', acrescentou.
O texto da Ressurreição de Lázaro, lido no Evangelho, serviu de mote à curta homilia do padre José Manuel Pinto. 'Tal como Lázaro, também este nosso irmão ressuscitará junto de Cristo', disse o sacerdote, perante uma assistência mergulhada numa 'dor imensa'.
No cemitério, a urna foi aberta para um último olhar dos familiares mais próximos. Um momento intenso, banhado em lágrimas e em gritos de profunda revolta.
Depois de aspergir a purificadora água benta, o padre José Pinto, que conhecia o Toni desde o baptismo, também não escondeu a dor, mas sem palavras.
NOTAS
GOVERNO: ANÁLISE DA OBRA
O chefe do Governo de Andorra anunciou ontem que o Conselho de Ministros já começou a analisar a documentação relativa à situação laboral e de segurança da obra no túnel Dos Valires
PARLAMENTO: VOTO DE PESAR
O Parlamento português cumpriu ontem um minuto de silêncio pelo acidente. O voto de pesar foi aprovado por unanimidade pelos seis partidos, em homenagem aos operários da obra
MISSA: EM MEMÓRIA DAS VÍTIMAS
O bispo de Andorra, Joan Enric Vives, vai celebrar, na próxima quarta-feira, uma missa em memória das cinco vítimas do acidente, a ter lugar na Igreja de Sant Esteve de Andorra la Vella
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