Correio da Manhã
Jornalista“Se olhasse agora para trás não teria feito nada de diferente", garante Vítor Escária
Sempre com os negócios da Venezuela como tema central, o procurador do Ministério Público volta a apelar à memória de Vítor Escária.
“Perante o estado débil da sua memória neste momento, havia algum pagamento ao senhor Temir Porras", questiona o procurador.
Escária, responde que não.
Numa nova escuta, Escária revela ter recebido uma mensagem de que lhe “faziam” mas tinha de ser exclusivo.
Depois explica que existia um escritório de advogados na Venezuela a acompanhar o processo de pagamentos. “Sei que este escritório cobrava 1% a 2% do valor da dívida”.
"Se soubesse da amizade entre Carlos Santos Silva e José Sócrates antes de 2011 teria feito algo de diferente", pergunta o procurador Rómulo Mateus.
“Se olhasse agora para trás não teria feito nada de diferente (...) nunca associei que existisse um tratamento diferenciado em relação a outras empresas”, garante.
Advogada oficiosa interpela Vitor Escária sobre os interesses genuínos do antigo primeiro-ministro.
"[Em 2005] estávamos em crise económica e foi assumido escolher os destinos em que os níveis de exportações fossem os mais elevados. O mandato era sempre o mesmo. Tínhamos de trazer contratos para as empresas portuguesas", esclarece Escária.
"Ele tinha interesse em que o negócios das casas acontecesse", diz Escária, esclarecendo que desconhece se José Sócrates teria recebido alguma compensação financeira.
A advogada de Joaquim Barrica questiona a testemunha se havia já trabalho feito pela empresa na Venezuela ou o dinheiro pedido era de favores.
“Sim, o dinheiro pedido era por trabalho já executado no terreno", diz Escária.
Ouvidas escutas em que Sócrates insiste que Escária ajude a fechar o negócio das casas na Venezuela
Durante a sessão continuam a ser ouvidas escutas em que fica claro que o antigo primeiro-ministro continua a insistir para que Escária ajude que se feche o negócio das casas na Venezuela.
“A Lena estava a tentar que a Venezuela assinasse mais um contrato para 12500 casas, mas acho que nunca foi assinado. O meu trabalho aqui era chatear os venezuelanos", responde Escária.
Escária, diz ainda que “tem memória clara de coisas de que o Carlos Santos Silva pediu. "Sabia que o engenheiro queria ir à Venezuela já depois de Nicolás Maduro ser presidente”.
“Começou a ser evidente a dificuldade de pagamentos do lado da Venezuela. Admito que José Sócrates possa ter ido à Venezuela para tentar desbloquear o negócio, não sei precisar quando”, responde.
"Tenho de ir lá outra vez, já tenho voo marcado, referiu José Sócrates" na chamada escutada na sessão.
Procurador, insiste na expressão “as nossas casas” e tenta mais esclarecimentos.
“O senhor engenheiro achava que se ele não fosse lá não se resolvia o assunto. Não me cabe a mim avaliar se era um desprestígio para um antigo primeiro-ministro fazer uma espera a elementos do governo de Caracas”, detalhou o antigo assessor económico.
"Intercedi várias vezes para o Grupo Lena, mas nunca recebi rigorosamente nada", garante Escária
Procurador insiste: “Não ter memória das conversas que teve, revela que está de facto a negar.”
“Eu nunca neguei ter intercedido, mas não consigo localizar no tempo”, explica o antigo assessor.
Nesta altura e já com as mãos na cabeça, Escária tenta explicar-se sobre os pedidos de ajuda do antigo primeiro-ministro, mas não consegue justificar aquilo que movia José Sócrates neste negócio em concreto.
“Em 2026, tenho alguma dificuldade em saber ao certo detalhes desta conversa tida em 2014 (...) Intercedi várias vezes para o grupo Lena, mas nunca recebi rigorosamente nada, o mesmo com o grupo Teixeira Duarte", garante Escária.
Escária admite que em 2012 intercedeu para tentar ajudar num pagamento em Angola ao Grupo Lena
O procurador Rómulo Mateus interroga se, nessa altura, após 2011, continuou a ter contactos com Temir Porras, chefe de gabinete do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Venezuela.
“Em 2012, intercedi quando fui chamado para tentar ajudar num pagamento específico em Angola ao Grupo Lena, quando percebi que havia ali amizade [entre Sócrates e Santos Silva], tentei ajudar”, responde Escária.
Os procuradores perguntam se recorda em janeiro de 2014 do pedido de ajuda do antigo primeiro-ministro.
Vítor Escária não nega pedidos de ajuda, mas admite não se recordar. Logo a seguir, é confrontado com uma escuta entre Escária e Sócrates, em janeiro de 2014.
Na chamada fala numa mensagem que Temir lhe enviou no ano novo. “Serás sempre bem-vindo à Venezuela”.
"Esta conversa mostra um interesse do antigo primeiro-ministro sobre o tema 'vivienda'", pergunta o procurador.
É ainda confrontado sobre o motivo do interesse neste negócio do Grupo Lena já quando o arguido não tinha qualquer responsabilidade e relevância política.
“Há aqui claramente um pedido de intervenção sua”, diz o procurador.
"Não nego, mas não tenho memória. Nunca pus de parte ter intercedido, mas não tenho de facto memória”, diz Escária.
Juíza pergunta quando é que soube que eram tão amigos. “Percebeu quando me falava dos negócios das casas na Venezuela", questiona.
"Eu percebi quando o Carlos Santos Silva me perguntava coisas. Eu sabia que se conheciam, só a partir de 2011 e 2012 eram de facto mesmo amigos porque o Carlos e Sócrates me pediam as mesmas coisas (...) nunca associei a ligação", responde.
"O perfil dele era aquele, interessado em tudo o que podia favorecer Portugal", acrescentou.
"Depois de 2011 ele próprio passou a ser um ativo importante para o Grupo Lena. Houve uma altura em que eles estavam aflitos para receber 80 milhões de euros".
“A saída em 2011 do engenheiro José Sócrates não foi fácil. Vi que havia ali preocupação para proteger certa projeção/ligação. Queria manter um contacto de alto nível, talvez para preparar um regresso à política. Entendi sempre isso da postura dele", continua Escária.
O contrato do Grupo Lena terminou quando José Sócrates foi detido.
Escária admite que Sócrates “tentou usar desse prestígio para tentar que o negócio das casas tivesse continuidade, mas ele não conseguia falar com ninguém lá”.
Vítor Escária diz que só soube da amizade entre José Sócrates e Carlos Santos Silva em 2011
Depois de ter garantido que apenas o grupo Lena se mostrou interessado na construção de milhares de habitações sociais na Venezuela, Escária foi esta quinta-feira a confrontado pelos procuradores para descrever os detalhes do negócio encabeçado pelo grupo Lena na Venezuela.
Resume a relação com o chefe de gabinete do ministro dos negócios estrangeiros, na altura encabeçado por Nicolás Maduro.
“Era o meu interlocutor privilegiado. Na minha contraparte”, diz.
Procurador insiste na assinatura do contrato em 2010 e sobre qual era a sua atenção neste tema.
Diz que “era um excelente contrato para o grupo Lena e para Portugal”. “Recordo que quando eu entrei em funções havia uma grave situação de crise económica, também ao nível das exportações e foi sempre uma questão acompanhada de perto pelo meu gabinete. O Sr. primeiro-ministro tinha uma preocupação genérica com todos os grandes processos, nomeadamente na preparação das visitas, fomos à Argélia, China ou Líbia para tentar aumentar as exportações portuguesas, mas naturalmente ele dava atenção a contratos mais importantes.
Rómulo Mateus: “Estava a par da amizade entre José Sócrates e Carlos Santos Silva?”
Vítor Escária: “Só quando saí em 2011 soube que eram amigos”.
“À data, a Venezuela tinha duas taxas de câmbio, o Bolivar forte, controlado pela República da Venezuela e permitia controlar qualquer aumento dos custos. Nessa altura, haveria alíneas do contrato que ainda não estavam fechados e discutia-se a taxa de câmbio, já que os venezuelanos não queriam pagar com a taxa de câmbio de bolívares fortes”, revelou Escária.
"Portugal viu na Venezuela grandes oportunidades de negócio. Além das casas, em 2010 que outros investimentos interessavam Portugal", questiona o procurador.
“Quem tinha petróleo, tinha dinheiro para pagar, diz Escaria.
“Tinha a indicação do primeiro-ministro para tentar fechar o contrato”, afirma.
Juíza presidente, Susana Seca, questiona se haveria uma preocupação adicional em fechar este contrato do grupo Lena. Escária responde que existia sempre uma grande preocupação em fechar os grandes contratos.
Questiona ainda sobre o contrato dos computadores Magalhães, se existia algum grau de comparação.
Escária responde que “eram contratos acarinhados”.
Juíza pergunta se José Sócrates esteve reunido com Hugo Chávez. “Recordo várias passagens cá, mas não me recordo de estadia, apenas essa passagem no aeroporto Figo Maduro”, esclarece Escária.
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