“Comecei a aprender a arte com oito anos, na lancha do meu pai, mas vivo no Tejo desde que nasci. A minha mãe era peixeira, o meu primeiro berço foi uma canastra e os seguintes improvisados de caixas de peixe”, conta Juvenálio Almeida, mestre de tráfego local, e que desde 1986 manobra os cacilheiros da Transtejo, entre as duas margens do rio, tal qual como o faz no momento em que tenta sintetizar um passado quase todo sobre as ondas do Tejo.
“Aos 14 anos fiz exame na Delegação Marítima da Trafaria, recebi então a cédula marítima e andei na lancha do meu pai até ao serviço militar. Comecei como moço e até chegar a mestre, em Janeiro de 93, fui marinheiro de 2.ª e de 1.ª. Trabalhei no porto de Lisboa (1969), na Lisnave (16 anos) e em 86 entrei para a Transtejo. Infelizmente só faltam cinco anos para a reforma...”, refere o mestre com alguma nostalgia, que logo afasta: ”Mas quando lá chegar logo se vê, pois não consigo viver longe do rio”.
Depois do maquinista preparar as máquinas, fazendo chegar a energia à ponte de comando, mestre Juvenálio liga o radar e o VHF, verifica se o leme e restante equipamento está operacional. “Estamos prontos a começar a faina”, avisa o mestre.
Os passageiros entram, o sinal de partida é dado, os portalós são fechados, fazem-se as manobras de desacostagem e aí vamos nós.
“Antigamente, para fazer esta manobra de desacostagem tinha de ir lá fora. Agora, com a ajuda daquele espelho retrovisor, faço a manobra toda daqui. E nos barcos que andaram aqui até 80 nem imagina a força que era preciso fazer no leme. Agora, como é tudo hidráulico, é uma leveza”, sublinha Juvenálio Almeida.
Mas as diferenças não se verificaram apenas nos cacilheiros. Apontando para Norte o mestre recorda: “Em miúdo vinha para aqui (Cacilhas) e quando olhava para além (e aponta na direcção do Barreiro), para o Mar da Palha, quase não se via água, tantos eram os batelões, fragatas, reboques, lanchas e barcos de arrasto ao camarão que havia no rio”.
O mestre faz soar duas vezes o apito do barco e depois explica: “Este sinal sonoro foi para avisar o piloto daquela embarcação que ia guinar a bombordo”.
Meia hora depois o ‘Seixalense’ estava, de novo, a desencostar de Cacilhas. Nas viajens de ida e volta ao Cais do Sodré tinham sido gastos cerca de 17 minutos. Os restantes 13 foram para manobras e entrada e saída de passageiros.
“Ó São Paulo sai que eu espero”, avisou o mestre via rádio para o responsável daquela embarcação.
A manhã continuava ensolarada e o vento era fraco. Mas por vezes...
“O nevoeiro é o nosso grande inimigo. É com ele que surgem as situações de maior perigo, embora sempre controlado, pois podemos contar com o radar – é os nossos olhos – e o VHF - a nossa boca e ouvidos. Mas quando está mau tempo é preciso ter muito cuidado no embarque e desembarque de passageiros. Aí é que podem surgir os perigos, pois o barco salta muito. Por isso, algumas vezes somos obrigados a parar. Mas só por isso, porque a navegar no rio não há qualquer problema com estes barcos.”
Já estamos, outra vez, acostados no Cais do Sodré. A lotação (500 passageiros) do ‘Seixalense’ voltou a ser totalmente preenchida. “É sempre assim nas horas de ponta (06h30/10h00 e 17h00/20h00). E mal os portalós são abertos, forma-se um “formigueiro” humano que, em passo acelerado, ruma ao seu destino.
“Apesar de existir a ponte, os cacilheiros continuam a servir muita gente”, sublinha, com grande satisfação, o mestre Juvenálio Almeida.
ACIDENTE NO RIO MATOU O PAI
Apesar da paixão que sente pelo Tejo – palco de toda a sua vida, salvo o serviço militar cumprido em Timor –, Juvenálio Almeida viveu nas suas águas um drama que jamais esquecerá: “Pouco passava das 15h00 de 23 de Fevereiro de 1964. O meu pai, eu e o meu cão tínhamos saído do Cais do Sodré numa lancha. Íamos levar uns documentos a um navio fundeado no Mar da Palha quando, frente ao Terreiro do Paço, um cacilheiro – o ‘Norte Expresso’ - abalroou a lancha e partiu-a ao meio. Eu salvei-me ao conseguir agarrar-me ao cacilheiro com a mala dos documentos a tiracolo, o meu cão conseguiu nadar para terra, mas o meu pai, que ficou preso a um ferro, foi arrastado para o fundo e o seu corpo só apareceu 18 dias depois, em Algés”.
BILHETE DE IDENTIDADE
A Transtejo tem quatro cacilheiros e dois ‘ferries’ (estes transportam passageiros e viaturas) na ligação Cacilhas-Cais do Sodré em serviço diário ininterrupto entre as 05h50 e as 23h45. A empresa detém a exploração de outras ligações no rio e tem no seu quadro 40 mestres de tráfego local.
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