Ana Maria Dias, 53 anos, angolana, aprendeu a cantar fado com a mãe, em Luanda. Perdeu-lhe depois o rasto e foi criada por um casal de portugueses, que, após o 25 de Abril, a trouxe para Portugal.
Aqui, Ana Maria entregou-se ao fado, a cantiga da saudade por excelência. Da saudade que ela sente de África. Conhecendo bem esta espécie de ânsia, que só encontra expressão na língua portuguesa, a única fadista africana residente em Portugal assume naturalmente o registo melancólico do fado.
Quando lhe perguntam como pode chorar a cantar, tendo nascido numa terra mais conhecida pelos ritmos frenéticos, Ana Maria limita-se a ajeitar as pontas do xaile junto ao peito e a rir-se semicerrando os olhos.
Mas, a quem precisa de mais explicações, repete ter sido criada por dois portugueses – ele de Viseu, ela da Pampilhosa –, também amantes do fado, que lhe estimularam a preferência e o talento.
Tinha dez anos quando se apresentou no concurso – então muito popular – chamado ‘Chá das Seis’, no Cinema Restauração, em Luanda. Cantou ‘Povo que Lavas no Rio’. É ainda o fado de que gosta mais, e Amália Rodrigues, que o imortalizou, a sua fadista de eleição. “Comecei a ouvi-la muito cedo. A minha mãe gostava muito da Amália.”
ATÉ QUE A VOZ LHE DOA
Em Portugal há 30 anos, Ana Maria sente-se já “mais portuguesa do que angolana”. Quando chegou, foi viver para Santarém. “Adaptei--me muito bem. O que me custou mais foi o frio. Ainda sinto o frio, principalmente nesta altura.”
Tendo rumado a Lisboa, a fadista toma agora, todos os dias, o caminho da Taverna d’el Rey, em Alfama, onde se faz acompanhar pela guitarra e pela viola. Já gravou dois discos, com originais e temas conhecidos de Amália, Cesária Évora e Vitorino. Em 1979 esteve quase a apresentar-se, pela mão de Paco Bandeira, no Festival da Canção. “Mas tive um problema de voz.”
Ana Maria tem um filho de 21 anos, que também canta, preferindo, todavia, a música moderna portuguesa. O futuro? “Cantarei até que a voz me doa”, garante a fadista, cuja vida, tal como as de outras pessoas que vieram de fora, é contada em ‘Gente como Nós, Vidas de Imigrantes em Portugal’, que o CM distribui amanhã, Dia Internacional das Migrações.
REENCONTRO COM A MÃE 34 ANOS DEPOIS
Foi só em 2003, na comitiva do então primeiro-ministro Durão Barroso, que Ana Maria Dias regressou a Angola, pela primeira vez após a partida. Além da emoção do regresso, esperava-a uma maior ainda: o reencontro com a mãe, de quem perdera o rasto havia 34 anos. “Não tenho palavras para contar o que senti”, admite a fadista. Mãe e filha, ambas amantes do fado, reconheceram-se e abraçaram-se. “Pensei que tinha perdido toda a minha família e, afinal, estavam lá todos, à minha espera”, lembra Ana Maria. Entristece ao afirmar que, passado um ano, a mãe morreu, como se tivesse sido incapaz de aguentar a emoção de rever a filha, que deixara com 16 anos e reencontrou aos 50. “Foi ela que me ensinou a gostar do fado”, agradece. A fadista dá cada vez mais valor à família e manifesta-se empenhada em descobrir o paradeiro de uma irmã, a única a residir em Portugal, supõe-se que na Costa de Caparica. “Chama-se Maria Imaculada Pascoal. Gostava muito de encontrar-me com ela.” Se a irmã ou alguém que a conheça estiver a ler estas linhas, Ana Maria pode ser contactada através do número de telemóvel 91 218 57 72.
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