Cavalos garranos podem representar até 80% da dieta do lobo ibérico

Espécie funciona como uma "presa tampão, favorecendo a redução da predação sobre espécies de gado economicamente valiosas como vacas, cabras e ovelhas".

19 de maio de 2026 às 07:18
Lobo-ibérico Foto: Direitos Reservados
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Investigadores concluíram que os cavalos garranos podem representar até 80% da dieta do lobo ibérico em algumas zonas do noroeste de Portugal e Espanha, o que coloca pressão sob a espécie autóctone ameaçada, foi esta terça-feira divulgado.

A espécie funciona como uma "presa tampão, favorecendo a redução da predação sobre espécies de gado economicamente valiosas como vacas, cabras e ovelhas", observam os autores do estudo, de acordo com o comunicado da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP).

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Contudo, os garranos estão sob "pressão crescente".

O estudo foi feito no âmbito do doutoramento de Joana Freitas, aluna da Faculdade de Ciências, e foi desenvolvido no Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (BIOPOLIS-CIBIO) da Universidade do Porto, em coautoria com Francisco Álvares, investigador do BIOPOLIS-CIBIO, Laura Lagos, da Universidade da Corunha, e Ana Sofia Vaz, da Natural Business Intelligence (NBI).

Segundo as estatísticas mais recentes da Associação de Criadores de Equinos da Raça Garrana, "existem apenas cerca de 2.000 garranos puros em Portugal, distribuídos entre animais em regime extensivo na serra e estabulados", observa a FCUP.

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"Precisamos urgentemente de os proteger. Têm um elevado valor cultural e prestam importantes serviços aos ecossistemas", defende Joana Freitas, estudante da FCUP e investigadora do BIOPOLIS-CIBIO.

A cientista pede que seja encontrado "um equilíbrio e uma gestão sustentável da coexistência entre o lobo ibérico, os cavalos em regime extensivo e as comunidades rurais".

"Caso contrário, os conflitos, que também existem entre o lobo e os proprietários dos garranos, irão continuar", avisou.

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A investigadora assinala que o garrano se alimenta de plantas altamente inflamáveis, como o tojo, a urze, ou a giesta, "contribuindo para a redução do risco de incêndios".

"Ao contrário das cabras, por exemplo, o cavalo está permanentemente na serra e não precisa de acompanhamento. A presença dos garranos pode ter um impacto económico importante, porque, segundo estudos recentes na Galiza [Espanha], consegue-se poupar entre oito mil e 10 mil euros anualmente, por animal, na limpeza de terrenos", refere.

Os investigadores sugerem a aplicação de medidas de "compensação indireta", já aplicadas por exemplo em países como a Finlândia.

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"O objetivo é atribuir apoio monetário, de acordo com o risco calculado de predação pelo lobo, sendo que os proprietários dos cavalos têm de coexistir com o predador para poderem ser compensados", concretiza.

"Desta forma, protegemos as duas espécies", sublinha.

Os autores do estudo defendem também o reforço de populações de presas selvagens nativas, como o veado e o corço, para promover o "retorno da dieta do lobo às suas presas naturais e reduzir a pressão sobre espécies domésticas".

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