Com arcas e fogões, clube transformou-se na "casa de todos" em aldeia da Batalha afetada pela depressão Kristin
Clube tem portas abertas para quem quiser deixar os seus bens alimentares em arcas frigoríficas e frigoríficos.
Em Casal do Relvas, Batalha, a Sociedade Recreativa Relvense transformou-se na "casa de todos", disponibilizando arcas frigorificas e fogões para a comunidade que ficou sem eletricidade na sequência da depressão Kristin.
Um gerador cedido pelo município da Batalha, no distrito de Leiria, permitiu manter o clube de portas abertas e ali, quem quer, pode deixar os seus bens alimentares em arcas frigoríficas e frigoríficos.
"Permite que esta seja a casa delas, consigam guardar a comida, fazer refeições", afirmou, esta quinta-feira, à agência Lusa Rafael Albino, presidente da sociedade da aldeia Casal do Relvas.
Parte da localidade permanece sem eletricidade, enquanto outra já está a ser alimentada por um gerador instalado no posto de transformação (PT).
Manuel José é o vice-presidente da sociedade e foi ele quem, esta tarde, abriu as portas. Pouco depois começaram a aparecer pessoas que queriam tomar café ou carregar o telemóvel.
Durante a manhã, as portas estiveram abertas para quem precisou de ir buscar alimentos para o almoço. "Tentamos fazer o melhor possível para os outros", salientou.
Manuel José ficou sem a garagem, que "voou" com a tempestade Kristin. Francisco Caiado teve mais estragos no pinhal, que ficou no chão, mas continua sem energia elétrica em casa.
"A minha salvação é o meu genro que é encarregado numa empresa de construção civil e o patrão deixa-o trazer o gerador à noite para a gente conseguir aguentar e tomar banho. Depois, de manhã, volta a levá-lo. É sempre assim, a desenrascar", referiu.
Depois de cinco dias fechado, o restaurante de Carlos Costa reabriu na segunda-feira a "meio-gás", com ajuda de um gerador emprestado que "não dava para tudo", pelo que começou por confecionar refeições ligeiras.
"Tentamos desenrascar dentro do possível, temos de ser resilientes, não podemos baixar os braços e temos de ir à luta", sustentou, adiantando à Lusa que agora já há energia, através do gerador que alimenta o PT, pelo que já consegue trabalhar, ainda limitado, mas com "mais normalidade".
Com muitas pessoas ainda sem conseguirem cozinhar em casa, Carlos Costa disse que estão ainda a servir em 'take-away'.
"Em outros locais houve mais estragos, é verdade, mas foi o suficiente para nos deixar desgastados", notou ainda.
A poucos quilómetros de distância, o Centro Recreativo dos Pinheiros também serviu de espaço de apoio à comunidade.
"Pudemos confecionar alimentação para as pessoas que não tinham condições para fazer essas refeições em casa, aquelas que têm tudo em sistema elétrico. Aqui atrás, onde temos um bar onde fazemos festas, instalamos uma lavandaria, fomos buscar máquinas de lavar e de secar dos particulares e a população da aldeia e alguns de fora vieram aqui lavar e secar roupa", explicou um dos responsáveis, Luís Pereira.
Na quarta-feira foi reposta a energia, também através de um gerador que alimenta o PT, que serve cerca de 90% desta aldeia, faltando algumas casas em locais onde foi maior a destruição da rede.
"Mas são poucas, neste momento, as casas que não têm energia aqui, mas há outras aldeias à volta onde ainda não há energia porque a destruição foi muito grande, as linhas de baixa tensão foram completamente devastadas e não há capacidade de resposta de quem anda a reparar isto", referiu Luís Pereira.
Este responsável descreveu um "cenário devastador" deixado pela depressão Kristin nestas aldeias do concelho da Batalha.
Por aqui, o silêncio vai sendo quebrado pelo barulho dos geradores, veem-se ainda muitos habitantes a reparar as coberturas destelhadas, tal como muitas árvores caídas.
Nestas comunidades, as pessoas juntaram-se também, na semana passada, para formar piquetes para evitar o furto de combustível de geradores instalados para alimentar a rede de abastecimento de água. Entretanto, o município contratou um empresa privada de segurança.
"Tivemos que mobilizar a população para fazer turnos durante o dia e durante a noite para podermos assegurar que o gasóleo não era roubado, que os geradores funcionavam durante 24 horas, para que estas populações, abastecidas por furos, pudessem ter água", lembrou Luís Pereira.
Onze pessoas morreram em Portugal desde a semana passada na sequência da passagem das depressões Kristin e Leonardo, que provocaram também muitas centenas de feridos e desalojados.
As regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo são as mais afetadas.
O Governo decretou situação de calamidade até domingo para 68 concelhos e anunciou um pacote de medidas de apoio até 2,5 mil milhões de euros.
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