Doença tropical extremamente dolorosa pode ser transmitida na maior parte da Europa e chegar a Portugal

Chikungunya provoca dores articulares intensas e prolongadas, podendo ser incapacitante e fatal em crianças e idosos. Subida global da temperatura aumenta riscos de propagação do vírus.

18 de fevereiro de 2026 às 13:27
Mosquitos-tigre asiáticos Foto: Uwe Anspach/AP
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Uma doença tropical extremamente dolorosa, a chikungunya, pode agora ser transmitida por mosquitos em grande parte da Europa, segundo um estudo científico. A investigação conclui que o aumento das temperaturas provocado pela crise climática e a expansão do mosquito-tigre asiático criaram condições favoráveis à propagação do vírus em 29 países europeus.

Detetado pela primeira vez em 1952, na Tanzânia, o vírus da chikungunya esteve durante décadas confinado a regiões tropicais, onde continua a causar milhões de infeções por ano. A doença provoca dores articulares intensas e prolongadas, podendo ser incapacitante e, em casos mais graves, fatal em crianças pequenas e idosos.

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Nos últimos anos, porém, foram registados casos em mais de dez países europeus. Em 2025, surtos com centenas de infetados atingiram França e Itália, sinalizando uma mudança significativa no padrão de transmissão.

O estudo, publicado na revista científica Journal of the Royal Society Interface, é o primeiro a avaliar de forma abrangente o impacto da temperatura no período de incubação do vírus no mosquito-tigre asiático (Aedes albopictus), uma espécie invasora que se tem espalhado pela Europa nas últimas décadas, de acordo com o jornal The Guardian.

Os investigadores concluíram que a temperatura mínima necessária para que o vírus se torne transmissível é entre 13ºC e 14ºC, cerca de 2,5ºC abaixo das estimativas anteriores, que apontavam para 16ºC-18ºC. Esta diferença foi descrita como “bastante chocante” pelos cientistas, uma vez que aumenta substancialmente o período e as áreas de risco.

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Com base nestes novos dados, as infeções podem ocorrer durante mais de seis meses por ano em países como Espanha, Portugal, Itália e Grécia, e durante três a cinco meses em países como Bélgica, França, Alemanha e Suíça. No sudeste de Inglaterra, a transmissão poderá ser possível durante dois meses por ano.

A Europa está a aquecer a um ritmo aproximadamente duas vezes superior à média global, o que acelera a expansão da área de risco.

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FOTO: AP
Mosquito-tigre asiático
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Quando um mosquito pica uma pessoa infetada, o vírus instala-se no intestino e, após um período de incubação, passa para a saliva do inseto, podendo ser transmitido à próxima pessoa que for picada. Se o período de incubação for mais longo do que o tempo de vida do mosquito, a transmissão não acontece. No entanto, temperaturas mais elevadas encurtam esse período, aumentando a probabilidade de propagação.

Tradicionalmente, os invernos frios europeus funcionavam como uma barreira natural, interrompendo o ciclo de transmissão de um ano para o outro. Contudo, os cientistas já observam atividade do mosquito-tigre durante todo o ano no sul da Europa, o que poderá potenciar surtos maiores à medida que o continente continua a aquecer.

Entre janeiro e junho de 2025 foram confirmados 73 casos em viajantes infetados no estrangeiro, quase o triplo do registado no mesmo período do ano anterior.

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A chikungunya pode ter efeitos duradouros. Até 40% das pessoas infetadas continuam a sofrer de artrite ou dores severas cinco anos após a infeção. Embora existam vacinas, estas são dispendiosas, sendo a prevenção das picadas a forma mais eficaz de proteção.

Especialistas defendem que a Europa ainda tem oportunidade de limitar a propagação do mosquito-tigre. Entre as principais medidas recomendadas estão:

- Eliminação de águas paradas onde os mosquitos se reproduzem;

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- Uso de roupa comprida e clara;

- Aplicação de repelente;

- Reforço dos sistemas de vigilância epidemiológica.

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A identificação precisa das regiões e dos meses de maior risco permite às autoridades locais agir de forma mais eficaz e direcionada.

Perante o avanço das alterações climáticas, os investigadores alertam que a expansão da chikungunya para latitudes mais a norte é apenas uma questão de tempo. A presença crescente de doenças tropicais na Europa deixa de ser um cenário hipotético para se tornar uma realidade cada vez mais concreta.

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