Estudo da OCDE conclui que transferir 11% dos docentes entre escolas garantiria mais equidade
Neste estudo, os professores portugueses surgem como os mais bem classificados.
Os professores com mais conhecimentos pedagógicos, que habitualmente têm mais facilidade em ensinar, estão distribuídos por todas as escolas portuguesas, mas seria preciso transferir 11% desses docentes para se conseguir uma distribuição equitativa para todos os alunos.
Esta é uma das conclusões do estudo da OCDE, "Teacher Knowledge Survey 2024", divulgado esta quarta-feira e que avalia pela primeira vez, de forma comparável entre oito países, o conhecimento pedagógico dos docentes.
Um grupo de investigadores entrevistou cerca de 20 mil docentes e concluiu que há uma relação entre os conhecimentos pedagógicos dos docentes e o desempenho dos alunos.
Neste estudo, os professores portugueses surgem como os mais bem classificados.
Num 'ranking' de oito países, os portugueses têm, em média, mais conhecimentos pedagógicos do que os que dão aulas na Polónia, Croácia, Estados Unidos, Chile, África do Sul, Marrocos e Arábia Saudita.
Mas estes docentes "não estão distribuídos de forma uniforme entre as escolas": Os professores com melhores resultados em cada país tendem a concentrar-se em determinados estabelecimentos de ensino, o que sugere que os alunos podem não ter acesso equitativo aos mais qualificados, alertam os especialistas.
Portugal surge entre os três países em que menos se nota esta desigualdade. Se na África do Sul, 24% dos professores teriam de mudar de escola para que os mais qualificados estivessem distribuídos de forma equilibrada, em Portugal, seria preciso transferir apenas 11%.
Os investigadores também foram ver onde estavam a dar aulas estes docentes com mais conhecimentos pedagógicos: nas aldeias ou numa cidade grande? Numa escola com uma grande percentagem de alunos carenciados ou com mais meninos privilegiados?
Mais uma vez, os casos mais gritantes voltam a encontrar-se na África do Sul, onde os professores em escolas com maior proporção de alunos desfavorecidos tendem a ter níveis mais baixos de conhecimentos pedagógicos. Mais uma vez, Portugal também aparece distanciado desta realidade.
O estudo mostra que ter mais conhecimentos pedagógicos se reflete na sala de aula, onde estes professores têm mais capacidade para explicar as matérias e dedicam mais tempo ao ensino e menos a garantir a disciplina.
Segundo os investigadores, os professores com formação inicial centrada apenas na área disciplinar tendem a ter níveis mais baixos de conhecimento pedagógico em países como Portugal, o que reforça a importância da formação pedagógica específica.
O estudo defende que é preciso reforçar o conhecimento pedagógico dos docentes, tendo em conta o seu impacto comprovado na aprendizagem dos alunos e na qualidade global dos sistemas educativos.
"A excelência no ensino, ao que parece, não é um acaso", alerta a OCDE, acrescentando que, "como qualquer profissão baseada no conhecimento", exige que se leve a sério a preparação, o desenvolvimento e a aprendizagem contínua dos professores, não como algo secundário, mas como a estratégia central para melhorar os sistemas educativos.
"Exige que reconheçamos, recompensemos e valorizemos a especialização pedagógica com o mesmo respeito que atribuímos a outras profissões altamente qualificadas", afirma.
Em Portugal, a maioria dos professores do ensino obrigatório possui formação pedagógica, garantida através de mestrados em ensino e da profissionalização docente.
Cerca de 94% dos professores em Portugal fizeram formação inicial regular, sendo este um dos valores mais elevados entre os países participantes, sublinha o estudo.
O relatório mostra ainda que os professores com formação pedagógica completa têm melhores resultados, sendo visível numa comparação entre os docentes portugueses: os que têm formação têm mais 32 pontos face aos que fizeram um percurso sem pedagogia.
Por cá, os docentes de ciências apresentam resultados ligeiramente superiores aos de outras áreas, não se verificando diferenças relevantes entre docentes de educação física e das restantes disciplinas, ao contrário do observado noutros países.
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