Falhas geológicas podem guiar ascensão do magma, mas também impedi-la
Estudo analisa um "intenso episódio de atividade vulcânica-tectónica" em S. Jorge em março de 2022, com o registo de "milhares de sismos, mas que não culminaram numa erupção".
As grandes falhas geológicas podem orientar a ascensão do magma em direção à superfície da Terra, mas também travá-la, revela um estudo internacional divulgado esta quinta-feira e baseado na erupção frustrada na ilha de São Jorge, nos Açores.
O estudo, publicado no boletim científico 'Nature Communications' e no qual participaram investigadores portugueses, analisa um "intenso episódio de atividade vulcânica-tectónica" em S. Jorge em março de 2022, com o registo de "milhares de sismos, mas que não culminaram numa erupção".
Os cientistas reconstruíram o movimento do magma sob a ilha, utilizando dados de deformação do solo obtidos por satélites de radar e estações GPS, juntamente com localizações de alta precisão de sismos, obtidas através de uma densa rede de sismógrafos terrestres e submarinos, refere um comunicado sobre o estudo citado pela agência espanhola EFE.
Os investigadores descobriram que "o magma ascendeu quase verticalmente através de um conduto com forma quase retangular, conhecido como dique, e fê-lo rapidamente desde uma profundidade de mais de 20 quilómetros até apenas 1,6 quilómetros abaixo da superfície, onde parou".
Grande parte da subida ocorreu "silenciosamente", com muito pouca atividade sísmica, e quando o magma deixou de ascender ocorreram a maioria dos sismos sentidos pela população da ilha açoriana.
O autor principal do estudo, Stephen Hicks, do University College London (UCL), no Reino Unido, explicou que foi o facto de grande parte da trajetória do magma ter sido silenciosa que "dificultou, na altura, prever se uma erupção ocorreria ou não", refere a EFE.
Observações de satélite e modelações realizadas pelo Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC), de Espanha, que coliderou o trabalho, mostraram que a superfície do vulcão subiu seis centímetros, confirmando que o magma tinha penetrado na crosta superior. No entanto, parou antes de atingir a superfície, no que é conhecido como uma erupção falhada.
No caso em análise, o magma ascendeu através da falha do Pico do Carvão, que gerou grandes sismos no passado. Em março de 2022, a atividade magmática gerou inúmeros pequenos sismos agrupados ao longo da falha, em vez de produzir um único grande sismo.
Segundo os cientistas, as falhas podem guiar o magma para a superfície, mas também permitem que os gases e fluidos voláteis escapem lateralmente do magma ao longo da falha, reduzindo a sua pressão e contribuindo para travar a sua ascensão.
"Os resultados deste estudo mostram que as intrusões magmáticas podem ocorrer rapidamente e com sinais precursores mínimos e que grandes falhas geológicas podem influenciar se o magma entra em erupção ou permanece aprisionado no subsolo".
Apesar de notar que as grandes falhas, como as dos Açores, não existem em todas as regiões vulcânicas do planeta, Pablo J. González, coautor principal do estudo e investigador do CSIC no Instituto de Produtos Naturais e Agrobiologia em Tenerife, disse acreditar que grande parte da descoberta do estudo é aplicável a outros vulcões, incluindo os das ilhas do arquipélago espanhol das Canárias.
Além do UCL e do CSIC, participaram no estudo as universidades de Cardiff e Manchester, no Reino Unido, assim como as de Lisboa, Évora, Beira Interior e Algarve, o Centro Internacional de Investigação do Atlântico, o Instituto Politécnico de Lisboa, o Centro de Informação e Monitorização Vulcânica dos Açores, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera e o Laboratório Colaborativo para as Geociências (C4G).
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt