Falta de gestão e de redução da vegetação é o "grande problema"
Especialista em incêndios rurais, investigador e professor do Instituto Superior de Agronomia (ISA), José Miguel Cardoso Pereira procurou responder à questão "porque é que Portugal é tão vulnerável a incêndios?"
Portugal mantém sensivelmente a mesma área queimada e tem diminuído o número de incêndios, mas tem o grande problema da falta de gestão e de redução da vegetação, alertou hoje o especialista José Miguel Cardoso Pereira.
O problema dos incêndios em Portugal, disse, não é os incendiários ou os eucaliptos, nem as soluções passam por mais aviões ou por espécies que não ardam, disse num debate em Lisboa sobre "Incêndios Florestais e Saúde Humana", promovido pelo Conselho Português para a Saúde e Ambiente (CPSA).
Especialista em incêndios rurais, investigador e professor do Instituto Superior de Agronomia (ISA), José Miguel Cardoso Pereira procurou responder à questão "porque é que Portugal é tão vulnerável a incêndios?", referindo como uma das principais causas o abandono da agricultura e dos espaços rurais, que leva à perda de capacidade de gerir território, e também as alterações climáticas.
Socorrendo-se de dados estatísticos disse que, na Europa, Portugal e Grécia não têm uma tendência significativa de variação da área queimada mas que em Portugal, a longo prazo, há um decréscimo do número de incêndios.
O problema, explicou, é que há um "aumento claro" das ondas de calor, que os verões estão "cada vez mais perigosos" e não há gestão e redução do combustível [vegetação], com fogo controlado ou pastorícia. "Ao apagar o incêndio mais depressa e não fazer a gestão da vegetação estamos a acumular combustível, para o vermos arder nas piores circunstâncias, em dias de muito calor", alertou.
Foi essa maior eficácia no combate e falta de gestão de combustível que "explodiu" em 2017 (Pedrógão Grande). E houve depois um "período ilusório de calma", de continuação de acumulação de combustível.
Uma acumulação que tem consequências, por exemplo, referiu o especialista, o incêndio de Arganil no ano passado em que arderam 65 mil hectares. "Há 14 anos inteiros, na história recente, em que a área queimada não chegou a 65 mil hectares", disse José Miguel Cardoso Pereira.
A conferência foi o mote para apresentar o Guia CPSA para os incêndios, uma iniciativa do Conselho, à semelhança de outros do género que já fez para as ondas de calor ou para as inundações.
É, como explicou à Lusa o presidente do CPSA, Luís Campos, uma ferramenta para ajudar as pessoas, para aumentar a literacia quanto a medidas preventivas que podem implementar.
Porque os incêndios, justificou, têm grande impacto na saúde, das doenças cardiovasculares à diabetes, das doenças respiratórias às doenças da área maternoinfantil.
Luís Campos, médico internista, referiu o aumento das temperaturas, as alterações climáticas e a poluição, os incêndios ou o aumento da população, fatores que juntos são responsáveis por 13 milhões de mortes, sendo a poluição a principal causa. E por causa do fumo dos incêndios morrem por ano 339 mil pessoas, disse.
É essencial, avisou, promover a adaptação do sistema de saúde às alterações climáticas, o que não tem acontecido em Portugal. E acrescentou: "Temos de começar a dizer que a emergência climática é uma emergência de saúde pública", não é um "problema de jovens radicais" mas um problema que afeta as atuais e próximas gerações.
Na conferência participaram responsáveis de outros setores, como Miguel Arriaga, diretor dos Serviços de Prevenção da Doença e Promoção da Saúde na Direção-Geral da Saúde; o presidente do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, Nuno Banza; o presidente da Agência Portuguesa do Ambiente, Pimenta Machado e José Manuel Moura, presidente da Proteção Civil.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt