Francisco tem 24 anos e com trissomia 21 desafia preconceito no trabalho, desporto e vida social

Com títulos internacionais e vários pódios na natação, Francisco prepara-se para novas competições.

20 de março de 2026 às 08:43
Francisco Montes tem 24 anos Foto: José Coelho/Lusa
Vice-campeão do mundo de natação, Francisco Montes, de 24 anos e com trissomia 21, trabalha numa pizaria na Foz do Douro, no Porto Foto: José Coelho/Lusa
Vice-campeão do mundo de natação, Francisco Montes, de 24 anos e com trissomia 21, trabalha numa pizaria na Foz do Douro, no Porto Foto: José Coelho/Lusa
Vice-campeão do mundo de natação, Francisco Montes, de 24 anos e com trissomia 21, trabalha numa pizaria na Foz do Douro, no Porto Foto: José Coelho/Lusa
Francisco Montes durante o treino Foto: José Coelho/Lusa
Francisco Montes durante um treino com o seu treinador Pedro Lima nas Piscinas da Constituição no Porto Foto: José Coelho/Lusa

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Vice-campeão do mundo de natação, Francisco Montes, de 24 anos e com trissomia 21, trabalha numa pizaria na Foz do Douro, no Porto, onde surpreende pela autonomia e pelo desafio a estereótipos sobre a deficiência.

Em vésperas do Dia Mundial da Trissomia 21, que se assinala no sábado, Kiko, como é conhecido, veste a jaleca às 11h00, no Mercado da Foz, antes de entrar ao serviço no restaurante Peco. Começa por organizar a garrafeira e limpa cuidadosamente cada garrafa. "Não posso beber vinho, mas identifico-os pelo cheiro, foi o meu avô que me ensinou", diz.

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Entre tirar cafés, montar caixas e lavar pratos, cumpre tarefas com método e atenção. Também corta ingredientes e quando é necessário faz pizas. "Ele é muito proativo e aprende muito. Está sempre a evoluir", afirma a proprietária da pizaria, Idalina Ferreira.

Francisco chegou ao Peco através de um Plano Individual de Transição (PIT) do Agrupamento de Escolas Garcia de Orta. O estágio inicial deu lugar a um contrato de trabalho.

"Contratámo-lo porque percebemos que não estavam a puxar por ele o suficiente e ele tem capacidade para muito mais", explica Idalina, sublinhando também a importância de conciliar o trabalho com o desporto.

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A responsável conta que, ali, é possível conciliar o trabalho com a natação, que Francisco pratica há 13 anos.

"Ele é atleta de alta competição e nós adaptamos os horários. Quando tem de treinar ou competir, vai. Ele representa o nosso país. Trabalha até mais do que o estipulado no contrato, quando pode", acrescenta o marido da proprietária, Pedro Terroso.

Na equipa, a integração foi natural: "Tratamo-lo como qualquer outro. Se precisa de mais tempo, damos, como a qualquer pessoa", dizem, enquanto destacam o seu impacto.

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"Enche-nos o coração e o negócio", realçam.

A autonomia de Francisco estende-se para lá do trabalho. No final do turno, segue sozinho até à paragem de autocarro, identificando os percursos que utiliza. Pelo caminho, para numa florista onde já é cliente habitual.

Ilda Maria, dona do estabelecimento, diz que "é um cliente que sabe o que quer" e pergunta, em tom de brincadeira, se nesse dia leva flores para a namorada. Mas as escolhas têm outro destino: a mãe, as avós e a empregada.

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Em casa, as medalhas, fruto do seu esforço na natação, acumulam-se ao ponto de as paredes do quarto começarem a ficar pequenas para as suas conquistas.

Os pais recordam um percurso feito com exigência desde cedo. "Sempre lhe pedimos o mesmo que pediríamos a qualquer filho", diz Marta Passos, acrescentando que "tudo foi conquistado com trabalho, desde as primeiras aprendizagens até à autonomia que tem hoje".

O pai, Rui Montes, sublinha a importância da rede de apoio: "O mérito é dele, mas há um conjunto de pessoas --- escola, treinadores, trabalho --- que fizeram parte deste caminho".

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Já na escola, o percurso foi acompanhado por um plano individual adaptado e a professora de educação especial do Agrupamento de Escolas Garcia de Orta, Carmo Malheiro, descreve-o como "um caso de sucesso" enquanto destaca a articulação entre família e comunidade.

"O Francisco conseguiu desenvolver competências de autonomia e integrar-se em contexto de trabalho, o que é raro", afirma.

A docente explica ainda que estes percursos exigem respostas individualizadas e com ligação ao exterior, referindo que "o objetivo é prepará-los para a vida ativa, de acordo com as capacidades de cada um".

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Mas é na água que Kiko encontra outro espaço para se afirmar. Os quatro treinos por semana são exigentes e começam sempre no ginásio. Fá-los há mais de uma década com o treinador Pedro Lima, que acompanha a sua evolução desde os 11 anos.

"O Francisco não é um talento fora do comum. O que o distingue é o trabalho, a dedicação e o compromisso", afirma o treinador, concluindo que "os resultados que tem são fruto disso".

Com títulos internacionais e vários pódios, Francisco prepara-se para novas competições. Ainda assim, o treinador alerta para a falta de enquadramento competitivo e de apoios para pessoas nesta condição.

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"Não há acesso a programas paralímpicos para atletas com trissomia 21, o que limita oportunidades e financiamento", refere.

Num percurso feito entre o mercado, a piscina e a vida familiar, Francisco mantém a rotina exigente de treinos semanais, conciliada com o trabalho.

Para o futuro, traça objetivos claros: "Em 2028 quero deixar a natação, trabalhar a tempo inteiro e casar-me", conta.

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