Monitorizar o oxigénio necessário
O Hospital Pulido Valente, em parceria com a Fundação Vodafone Portugal, desenvolveu um projecto-piloto de telemonitorização de oxigenoterapia de longa duração, que permite monitorizar o exercício físico do doente e ajustar a administração de oxigénio de acordo com as suas reais necessidades.
Os dados serão recolhidos por dois dispositivos tecnológicos: o acelerómetro, que regista a actividade física, e o oxímetro, que mede os níveis de oxigénio do paciente.
Segundo Cristina Bárbara, directora do Serviço de Pneumologia 2 do Hospital Pulido Valente e coordenadora do projecto Telemold, esta terapia permite que a administração do oxigénio seja feita de uma forma mais adequada. "Através do Telemold adequamos os débitos necessários de oxigénio às necessidades reais de cada doente, ao mesmo tempo que interagimos com ele. O próprio doente poderá fazer os ajustes, de acordo com as indicações médicas". Como tal, há inúmeras vantagens não só para o doente com insuficiência respiratória crónica mas também para todo o Sistema Nacional de Saúde. "Esta terapia aumenta a vida dos doentes, reduz as idas às Urgências, os exames e os internamentos. Para além disso, o médico terá possibilidade de acompanhar um maior número de doentes, sem prejuízo da sua eficácia".
Com um investimento de 200 mil euros, o Telemold será disponibilizado, numa fase inicial, a 32 doentes do Hospital Pulido Valente, embora a ambição seja "generalizar, pelo menos, aos doentes mais graves", defende Cristina Bárbara.
A próxima etapa passará pela implementação do sistema de telemonitorização num Centro de Saúde da Unidade e pela elaboração de um projecto de expansão do sistema a todos os centros de saúde desta unidade.
"TEMOS ASSIMETRIAS": Fátima Rodrigues, Médica pneumologista
Correio da Manhã – Esta terapêutica representa uma melhoria na qualidade de vida do doente?
Fátima Rodrigues – Quando uma pessoa faz oxigénio tem uma qualidade de vida melhor e uma esperança de vida mais longa. Mas há vinte anos, o panorama era bem diferente. Os doentes tinham de estar fisicamente no hospital. O dispositivo com oxigénio líquido trouxe uma grande autonomia. O doente apenas tem de o recarregar.
– Ainda assim, o acesso ao oxigénio líquido não é universal?
– Não. Em Portugal temos assimetrias muito grandes. O Porto é uma área metropolitana enorme que não dispõe de oxigénio líquido. É preciso enviar um relatório à empresa que o fornece para que o doente o obtenha. É uma luta constante dos médicos e dos doentes.
GARRAFA NÃO IMPEDE VIDA NORMAL
Fernando Severino é visto como um exemplo de vida pelos técnicos de saúde que o acompanham no Hospital Pulido Valente, em Lisboa. Menos exemplar foi a atitude que manteve durante anos e que por pouco não lhe roubava a vida. "Fumava muito, cerca de quatro maços por dia. Mas só quando comecei a ter alguns sintomas preocupantes é que decidi ir ao médico de família. Depois de fazer alguns exames, fui encaminhado para um cardiologista no Pulido Valente e acabei por ser encaminhado para o serviço de Pneumologia", conta. "Já não me deixaram sair. Fiquei internado duas semanas e saí com três litros de oxigénio, quinze horas por dia". A última crise aconteceu em Abril de 2008, situação que o obrigou a novo internamento. "Estive mais para lá do que para cá. Desde aí ando com 15 litros de oxigénio por minuto, mas faço a minha vida normal. Até vou à praia e tomo banho. Fica toda a gente a olhar mas não me importo", diz.
Apesar da doença que o acompanha durante toda a vida, Fernando considera haver cinco coisas essenciais: "Deus que nos auxilia, a sorte de calhar com bons médicos, cumprir tudo o que eles mandam, não querer dar o passo maior do que a perna e o carinho da família de sangue e do hospital".
PERFIL
Fernando Severino tem 61 anos e vive em Caneças, Loures. Desde que lhe foi diagnosticada insuficiência respiratória crónica, em 1994, está dependente de 15 litros de oxigénio por minuto para viver. Mesmo assim, é feliz.
APONTAMENTOS
SINTOMAS
Os sintomas mais frequentes de uma doença respiratória crónica são a tosse, expectoração, cansaço e falta de ar.
DOENÇA PULMONAR
A Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica é uma das doenças respiratórias mais frequentes e afecta 210 milhões de pessoas no Mundo.
OXIGENOTERAPIA
A oxigenoterapia de longa duração é a administração de oxigénio para toda a vida, por períodos prolongados, a doentes com insuficiência respiratória crónica durante mais de 15 horas por dia.
NOTAS
HOSPITAL IMPLEMENTA
Oprojecto de Telemonitorização será implementado em 32 doentes do Hospital Pulido Valente
CUSTOS ELEVADOS
Estima-se que os custos em Oxigenoterapia domiciliária ultrapassem os 60 milhões de euros em Portugal
PERFIL DO DOENTE
O doente em Oxigenoterapia de longa duração tem mais de 50 anos e um passado de tabagismo
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt