Neurocientista adverte que cérebro humano não sabe lidar com excesso de informação

Moran Cerf explica que há risco de perder determinadas capacidades consoante a maior dependência do uso de tecnologia.

02 de maio de 2026 às 09:28
cérebro Foto: Getty Images
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O neurocientista Moran Cerf adverte, em entrevista à Lusa, que o cérebro humano não sabe lidar com excesso de informação e que há risco de perder determinadas capacidades consoante a maior dependência do uso de tecnologia.

Questionado como lidar atualmente com tanta informação, o neurocientista e professor de negócios afirma que o cérebro humano "não lida bem números grandes".

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"Temos um cérebro que é novo, tem apenas 100.000 anos na sua forma atual" e "ainda pensa que está na savana", onde comia tudo o que entrasse porque "não sabia se encontraria algo amanhã", contextualiza Moran Cerf, conhecido pelo seu trabalho no cruzamento entre o cérebro humano, a tecnologia e a tomada de decisão, e um dos oradores do TEDxPorto 2026.

"É por isso que o excesso de informação é tão prejudicial para o nosso cérebro", diz em entrevista à Lusa por vídeoconferência a partir de Nova Iorque, referindo, a título de exemplo, que o cérebro não sabe lidar com tantos conteúdos como Netflix, HBO e "quer consumir tudo".

"Não conseguimos ter um relacionamento de verdade porque, com um simples deslizar de dedo na tela, já temos um novo namorado ou namorada que pode ser ainda melhor", ilustra, ora isso torna as pessoas menos felizes.

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A longo prazo, "acho que não é bom para nós, é melhor ter algumas opções para escolher e com as quais esteja feliz", aconselha.

E, "agora que apresentei o problema", porque "o nosso cérebro não está acostumado com a abundância (....), como resolver isso? Acho que precisamos de mudar a nossa mentalidade" e isso "é algo individual, cada um faz isso por si mesmo", aponta o doutorado em Neurociência pelo Caltech, com formação também em Filosofia da Ciência e Física, e que tem estudado pacientes submetidos a cirurgias cerebrais com implantes neurais, explorando questões fundamentais sobre consciência, sonhos e processos de decisão.

O neurocientista norte-americano diz que não são os grandes números que devem ditar as decisões: "Parecem-nos ótimos", mas "acho que deveria ser o contrário, porque a IA [inteligência artificial] pode facilmente fabricar milhões de visualizações" com os seus 'bots'.

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Então, "se ainda confiarmos em números, como se números grandes fossem melhores que números pequenos, na verdade estaremos a levar o nosso cérebro para o lugar errado", prossegue, referindo que as pessoas devem escolher pelas suas preferências e de forma calibrada.

"Tudo o mais que possa imaginar, como encontros amorosos, tomadas de decisão e assim por diante, deve ser calibrado", enfatiza.

Sobre o impacto da IA no cérebro humano, Moran Cerf aponta: "Em primeiro lugar, toda tecnologia para a qual fazemos 'outsource' (terceirizamos) das habilidades acaba a realizá-las" no "nosso lugar", como é o caso de decorar números de telemóvel ou usar a navegação.

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"O nosso hipocampo, a parte do cérebro responsável pela navegação, diminuiu de tamanho na última década. Portanto, há uma mudança mecânica no nosso cérebro porque não precisamos mais navegar" e, assim, "perdemos essa função", aponta.

"Acho que, com o tempo, à medida que a IA assumir cada vez mais dessas funções, realmente começaremos a perder a capacidade de fazer isso sem a IA", adverte.

A tecnologia "torna-nos mais eficientes, mas tirando coisas de nós. Pode dizer que é ótimo termos a opção de terciarizar coisas de que não gostamos, mas acho que não pensamos a longo prazo o suficiente para perceber que também estamos a perder coisas".

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Entre os diferentes tipos de processo de memória há a amnésia, Alzheimer, nuns perdem a própria memória e no outro perde o acesso às memórias.

Com o uso da IA, "tem o fluxo de acesso, simplesmente não se lembra das coisas com tanta frequência", diz.

Sobre o debate na neurociência sobre apagar as memórias, Moran Cerf diz que a resposta sobre a eliminar as ruins "não é óbvia".

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Até porque "a maioria delas tem uma função" e se a natureza as manteve é porque é "útil para nós", afirma.

A tecnologia está presente "há um quarto de século", em que os primeiros 10 anos foram da "informação" em que empresas como Amazon, Google e outras colocaram toda a informação na Internet, depois a década seguinte foi "da atenção".

"De repente as empresas disseram: Não basta apenas ter informações disponíveis, é preciso controlar o que você vê", garantindo um fluxo de informação que direciona a atenção, passando a cobrar, criando uma economia em que tudo "gira em torno da atenção", enquadra.

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Agora, "a terceira geração, onde estamos agora, é a da cognição, não basta que veja o anúncio, quer ter certeza de que seu cérebro realmente absorve o conteúdo do anúncio", sublinha.

Ou seja, "economia da cognição" e é "aí que a IA se torna a melhor ferramenta para as empresas ou a pior ferramenta para as pessoas cuja cognição está a ser manipulada".

De muitas maneiras, a IA "é ótima para nós", mas "acho que existe a possibilidade de que, no futuro, seja vista como uma tecnologia terrível que nos causou muitos danos", admite.

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