Pecuária em Leiria perdeu 200 leitões à espera da luz que não veio

Leitões morrem sobretudo por causa do frio. A temperatura, sobretudo nos primeiros 15 dias, é crítica para a saúde dos recém-nascidos.

26 de fevereiro de 2026 às 09:01
Porca alimenta leitões recém nascidos na pecuária que já perdeu mais de 200 leitões devido à falta de energia elétrica da rede provocada pela passagem da tempestade Kristin Foto: Paulo Cunha/Lusa
Porca alimenta leitões recém nascidos na pecuária que já perdeu mais de 200 leitões devido à falta de energia elétrica da rede provocada pela passagem da tempestade Kristin Foto: Paulo Cunha/Lusa
Porca alimenta leitões recém nascidos na pecuária que já perdeu mais de 200 leitões devido à falta de energia elétrica da rede provocada pela passagem da tempestade Kristin Foto: Paulo Cunha/Lusa

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Uma pecuária na Bidoeira de Cima, em Leiria, perdeu cerca de 200 leitões, por ter estado quase um mês sem acesso à rede de energia elétrica, essencial para aquecer e iluminar a exploração durante a noite.

"Cheguei hoje de manhã e só uma porca tinha cinco leitões esmagados debaixo dela. Só hoje, já foram 12 ou 13. É frustrante", lamentou Joaquim Sousa, que todos os dias foi somando porcos recém-nascidos que morreram por falta de energia durante a noite, desde que a depressão Kristin deixou sem luz aquela exploração, enfiada num vale e rodeada de eucaliptais.

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Ao longo de quase um mês, os irmãos Joaquim e Manuel ligavam um gerador que compraram logo após a passagem da tempestade para minimizar os impactos da falta de acesso à rede elétrica, mas à noite, o equipamento era retirado, com medo de um assalto numa zona que está afastada de qualquer aldeia.

Hoje à tarde, a luz voltou àquela pecuária, mas para trás, fica um mês duro.

"Os leitões morrem sobretudo por causa do frio, que as noites têm sido frias e eles não tinham o aquecimento que precisavam", explicou, referindo que a temperatura, sobretudo nos primeiros 15 dias, é crítica para a saúde dos recém-nascidos.

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Pela exploração, foi apontando para os impactos naqueles pequenos animais, dando conta de leitões mais fracos, que quase não se mexem e com diarreia -- sinal de alarme para quem os cria.

"Além disso, nas maternidades, têm um ninhozinho, com uma lâmpada, para onde eles vão automaticamente e só saem de lá para mamar. À noite, sem luz no ninho, eles chegam-se ao pé das mães que, quando se viram para um lado ou para o outro, esmagam-nos", aclarou.

Para Joaquim, no meio da desgraça, sente que ainda teve alguma sorte ao ter conseguido arranjar um gerador por 1.300 euros nos primeiros dias. "Se não, teria sido ainda mais complicado", conta o proprietário, que até tem medo de começar a somar as faturas da gasolina, que acredita já ter passado os mil euros.

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"Há fábricas de blocos, de telha, de areia, de barro, mas nisso ninguém morre se estiver mais uns dias sem luz. Aqui, não. Estamos a trabalhar com seres vivos, que morrem por causa da falta de luz e de aquecimento", salienta Joaquim Sousa, que em conjunto com o seu irmão, deu seguimento a uma exploração que começou há 50 anos com o seu pai e que alimenta restaurantes da Boa Vista, em Leiria, e da Bairrada.

Um mês depois da passagem da tempestade, Manuel até já não conseguia ouvir o barulho do gerador, que trabalhava de forma ininterrupta durante o dia: "Já não o aguento nem o posso ouvir", desabafou.

"A E-Redes está sempre a prometer que vem, que vem, mas nunca aparece e são seres vivos que estão aqui e estão a morrer", lamentou Manuel, que falava à agência Lusa antes de a luz voltar àquele lugar.

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Durante este mês que passou, Joaquim ainda andou a percorrer a freguesia toda da Bidoeira de Cima, situada junto à fronteira do concelho de Leiria com o de Pombal, à procura que as equipas da E-Redes lhe dessem uma solução. "Fiz quilómetros e quilómetros e nada", acrescentou.

A reposição da rede de energia elétrica tornava-se ainda mais urgente por a exploração estar num momento em que há grupos maiores de porcas prenhas, para dar resposta ao aumento de procura de leitão para a altura da Páscoa, notou Joaquim Sousa.

"Andamos quatro meses atrás de uma porca para, em pouco tempo, perder tudo. Perder os animais pequeninos, a alimentação que se lhe deu, as vacinas", afirmou.

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"Eu gosto muito de Portugal, nunca emigrei, sempre a trabalhar cá, mas às vezes sinto-me triste porque estamos há um mês à espera que me liguem aqui no cabo. É só um cabo", disse Joaquim, ainda antes de ver a luz regressar à exploração.

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