Peritos sugerem portal único para cidadão gerir acesso aos seus dados de saúde

Especialistas envolvidos no projeto sugerem o lançamento de uma campanha nacional para explicar aos cidadãos e profissionais de saúde, o que é a utilização secundária de dados.

27 de março de 2026 às 18:48
Unidade hospitalar Foto: Direitos Reservados
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A criação de um portal único onde cada cidadão gere o acesso aos seus dados de saúde e consegue perceber o impacto da sua utilização, por exemplo, em investigação, é uma das recomendações do projeto "Mais Dados, Melhor Saúde".

Para que ninguém fique excluído, os 20 peritos envolvidos neste projeto sugerem o lançamento de uma campanha nacional para explicar, de forma clara, aos cidadãos e profissionais de saúde, o que é a utilização secundária de dados, por parte de universidades ou centros de investigação, por exemplo, e os seus benefícios sociais.

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"Do ponto de vista do portal do cidadão, há aqui um objetivo, se calhar tripartido, de informação, de gestão de preferência - esta capacidade de decidir se quer ou não partilhar os seus dados, que é totalmente legítimo -, e de impacto da utilização dos dados", explicou à Lusa o coordenador do projeto, Rafael Miranda.

O responsável frisou a importância de o cidadão perceber de que forma a informação que está nos hospitais, por exemplo, pode ser usada para melhorar o sistema de saúde, os serviços prestados e outras inovações do ponto de vista do setor da saúde.

Rafael Miranda escolhe a palavra confiança como chave: "Foi uma das maiores preocupações dos peritos na criação das recomendações", disse o responsável, reconhecendo: "o nosso país ainda tem um caminho a percorrer tanto ao nível da literacia digital como de literacia no exercício dos direitos que todos nós temos".

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Este ponto único digital do cidadão pode, segundo os peritos, estar incorporado no SNS 24.

O projeto, coordenado pelo Instituto Superior Técnico, através do Centro de Estudos de Gestão (CEGIST), com desenvolvimento técnico da IQVIA e apoio da Roche, pretendeu ajudar no desenho e concretização do novo modelo de acesso secundário a dados de saúde em Portugal.

As 20 recomendações finais, que serão esta sexta-feira apresentadas, estão organizadas em cinco dimensões estratégicas consideradas fundamentais para o funcionamento do futuro Organismo Nacional de Acesso a Dados (ONAD).

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"A necessidade de alinhar com o regulamento do Espaço Europeu de Dados de Saúde deve ser visto como uma oportunidade única para modernizar sistemas de saúde, melhorar cuidados e potenciar inovação em toda a Europa", disse Rafael Miranda, que defende que Portugal "deve aprender com quem vai à frente".

Lembrou que o regulamento europeu do Espaço Europeu de Dados de Saúde pretende "ir contra aquela ideia de termos um mar de dados, mas um deserto de informação" e insistiu: "vai ser necessário um esforço de todos os detentores ou guardiões destes dados".

Os peritos falam ainda na necessidade de criar incentivos económicos à partilha de dados pelas organizações de saúde, através da contratualização e da avaliação de desempenho e de definir um modelo económico de acesso "sustentável, equitativo e transparente".

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"É importante garantir um financiamento [do ONAD] que garanta estabilidade, um financiamento de base para o que são as necessidades de recursos humanos associadas", defende Rafael Miranda, apontando, por outro lado, a necessidade de definir um pagamento por utilização dos dados, alinhado com o que já é feito em países como a Finlândia ou a Dinamarca, com valores tabelados e transparentes.

Assim, recomendam um financiamento público de base, complementado por encargos de acesso adequados suportados pelos utilizadores, para "promover um uso responsável dos dados" e garantir que o acesso se mantém assegurado.

O coordenador do projeto destacou ainda a importância de ter um quadro normativo que estabeleça de uma forma clara e transparente quais são as regras pela quais os organismos, os detentores de dados e os investigadores de devem reger.

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Rafael Miranda sublinha ainda que o tratamento de dados deve acontecer sempre "em ambiente seguro", explicando: "vai obrigar a que um investigador trabalhe estes dados num ambiente regulado e não os possa exportar, não os possa levar consigo".

Outra das recomendações passa pela criação de catálogos públicos de metadados, uma espécie de "montra" dos dados que existem nos hospitais e outras instituições de saúde, sejam eles dados de acesso, sobre tempos de espera ou dados epidemiológicos, que podem servir de suporte inclusive à gestão da saúde pública.

"Como é que podemos contribuir para melhorar os sistemas se nem conseguimos perceber que ferramentas temos à nossa disposição?", questionou o investigador, sublinhando as vantagens destes catálogos para a investigação: "ter um sítio centralizado em que eu percebo tudo o que tenho à minha disposição".

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Considerou ainda que esta "riqueza de dados" deve ser aproveitada por Portugal para "melhorar a sua investigação e o seu posicionamento europeu enquanto fazedor de ciência".

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