Radioterapia ataca tumor sem lesar

O objectivo é atacar o tumor através da radiação sem prejudicar os órgãos envolventes. O tratamento, feito no IPO do Porto, que tem o maior serviço de Radioterapia da Península Ibérica, tem taxas de sucesso elevadas. Só no cancro da mama, essa taxa é de 98%. Para haver maior precisão na área que recebe a radiação, a terapia convencional é feita em 3D.

08 de abril de 2012 às 01:00
radioterapia, tumor, ipo, porto, cancro, doentes, rosa moreira, 3D Foto: Maria João Marques
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O tratamento RapidArc ou VMAT (Arcoterapia Volumétrica Modelada) é recente e foi desenvolvido nos Estados Unidos da América. Está a ser aplicado naquela unidade do Porto há já um ano, depois da inauguração do novo serviço de Radioterapia.

Agora o tratamento convencional é 3D conformacional. Através de um programa de computador, vê-se a imagem do doente a três dimensões para analisar os órgãos e a área tumoral, permitindo assim proteger alguns órgãos e saber que área é que vai ser tratada para a precisão ser milimétrica. O tratamento chama-se VMAT. "Significa que é em volume e arco, por causa da rotação de 360 graus da cabeça (gantry) do acelerador, através da qual emite radiação. E faz modelar a distribuição da dose a irradiar. Simultaneamente podemos ter vários níveis de dose", explicou Fátima Borges, do gabinete de Dosimetria do serviço de Radioterapia do IPO do Porto. "Porque há o tumor principal que tem uma dose mais elevada e há os gânglios que têm de ter uma dose mais baixa. Fazemos este planeamento em todos os doentes. É um processo moroso", acrescentou Helena Gomes Pereira, directora do serviço.

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A taxa de cura é mais elevada e a toxicidade é menor do que no tratamento convencional. "A taxa de sucesso no cancro da mama ronda os 98%. A recidiva [reaparecimento do tumor] é inferior a 3%, em comparação com a cirurgia conservadora. Cada vez mais a doença oncológica, se bem tratada, passa a crónica. As pessoas têm de ter a noção de que não é a pressa com que é feito o tratamento mas sim a qualidade", lembrou a directora.

"RECEBEMOS DOENTES DE LISBOA": Helena G. Pereira, Directora do Serv. Radioterapia

Correio da Manhã – Quais as etapas do tratamento?

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Helena G. Pereira – O doente faz TAC ou ressonância para se poder ver onde está o tumor. Com base nos exames, o médico marca o volume que quer irradiar e os órgãos limitantes de dose (que não são para irradiar).

– E está pronto?

– Quando começa o tratamento, o médico verifica-o, às vezes todos os dias. O grande salto deste novo serviço é o controlo de qualidade e a qualidade dos tratamentos. Estamos a fazer história em termos de radioterapia.

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– Recebem doentes de todo o País?

– Temos doentes da Grande Lisboa a dizer que temporariamente mudaram de residência para serem tratados cá. Já dei alta a uma mulher da Madeira que devia ser tratada em Lisboa.

SERVIÇO FEITO AO PORMENOR

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O novo serviço de Radioterapia do IPO do Porto foi pensado ao pormenor. Tem 16 gabinetes de consulta, sala de pensos, sala de recobro, três gabinetes de enfermagem (onde se faz a consulta de ensino para o doente aprender que cuidados a ter antes e depois do tratamento), sala de refeições para doentes com necessidades especiais, salas de espera para Pediatria e doentes com mobilidade reduzida, como acamados. Há 10 bunkers e sete aceleradores lineares (que fazem a radiação). "Um serviço bom tem de ter, no mínimo, dois aparelhos gémeos para o caso de um avariar. Cada dia que não faz tratamento, está a pôr em risco a vida do próprio doente. Quase não há paragem. Trabalha-se aos feriados e sábados de manhã", diz a directora.

"DEMORA ENTRE 10 A 15 MINUTOS"

Rosa Moreira, 44 anos, de Santo Tirso, recorda com precisão o dia em que soube que tinha cancro da mama. "Foi a 29 de Agosto do ano passado. Tinha nódulos e fazia mamografia de ano a ano para vigiar. Detectaram o tumor numa mamografia", disse.

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Quando descobriu o diagnóstico, Rosa ficou preocupada mas não se deixou alarmar. "Tenho uma prima que teve cancro da mama e fez quimio e radioterapia. A radio custou-lhe muito menos. Agora ela está bem", diz. Foi operada em Santo Tirso a 14 de Novembro, dia em que ficou de baixa médica. "Comecei a ser seguida no IPO a 18 de Dezembro do ano passado para fazer radioterapia. Tinha tirado o tumor no peito, mas não o peito", lembrou.

O processo, diz, foi rápido. "Vim para a consulta. No início fiz uma TAC e mamografias. Esperei 15 dias até ser chamada para o tratamento. Explicaram--me que era novo, não tem dor, serve para queimar e para ajudar o tumor a não crescer", conta Rosa. O tratamento de radioterapia que fez tinha 30 sessões. "Fazia todos os dias. Demora entre 10 a 15 minutos. O tratamento em si não custa nada. Ir todos os dias ao IPO é que é cansativo. Para mim o tratamento foi rápido. Além do azar, tive sorte", salientou. Depois da radioterapia, ficou duas semanas em casa a recuperar da pele "queimada", que tratou com cremes. Já voltou ao trabalho. "Continuo a ser seguida no hospital e a fazer mamografias, mas esse controlo é normal", disse.

PERFIL

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ROSA MOREIRA, 44 anos, residente em Santo Tirso é operária numa empresa do ramo automóvel. Descobriu que tinha cancro da mama em Agosto de 2011. Tem uma filha de 19 anos.

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