Produção de framboesas em Leiria reconstruída após tempestade Leslie em 2018 tornou a ser destruída

Depressão Kristin voltou a destruir cultura de framboesa biológica. Proprietário admite desisitir.

25 de fevereiro de 2026 às 10:33
Framboesas, amoras e mirtilos Foto: Public Domain Pictures/ Pexels
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Uma produção de framboesas em Leiria, reconstruída após a tempestade Leslie, em 2018, foi de novo destruída com a depressão Kristin, há quase um mês, com o proprietário a reconhecer dificuldades em escolher entre desistir ou recomeçar.

"Se pudesse responder só com o coração, diria 'voltar a fazer tudo outra vez e seguir em frente', mas como tenho de pensar com a cabeça, e isso inclui pensar com a carteira, a decisão complica-se bastante", afirma à agência Lusa José Gonçalves, da Nutrix, empresa instalada na freguesia de Souto da Carpalhosa que produzia exclusivamente framboesa biológica destinada à grande distribuição nacional.

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A empresa, criada em 2017, tem três funcionários em permanência que, no pico da colheita, podem chegar aos 25.

Com 26 estufas distribuídas por um hectare, o ano passado produziu 15 toneladas de framboesa e tinha antecipado para 2026 "o melhor ano de sempre", entre 16 e 17 toneladas do fruto.

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Quando, em outubro de 2018, a tempestade Leslie atingiu a região, a Nutrix estava "a trabalhar há sensivelmente um ano e meio", explica à agência Lusa José Gonçalves, de 56 anos.

"Destruiu-nos a exploração por completo", recorda o empresário, salientando que, na ocasião, "houve um apoio significativo por parte do Ministério da Agricultura".

Seguiu-se a reconstrução e, em 2019, a Nutrix estava já "com um hectare de área coberta e em plena produção novamente".

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"Mas longe de nós pensar que, em 2026, estivéssemos com um segundo evento desta natureza e novamente na situação de termos 100% de destruição da exploração", lamenta o empresário, referindo que agora "o prejuízo total poderá ser entre os 150 mil e os 200 mil euros".

Sem seguro, José Gonçalves descreve o caminho que fez para encontrar uma companhia que cobrisse "este tipo de eventos".

"Não houve nenhuma companhia de seguros que nos fizesse um seguro com cobertura deste risco", conta, para lembrar que encontrou uma companhia que "fazia um seguro para inundações, incêndios, raios, explosões, quedas de aeronaves, para tudo menos para situações de tempestade".

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À pergunta como olha para o futuro depois de nova destruição, responde com "muita dificuldade".

"O despacho do sr. ministro da Agricultura que cria o apoio para as explorações agrícolas que foram afetadas pela Kristin define um montante de 40 milhões de euros. Li este fim de semana uma notícia de que os prejuízos reportados já estariam perto dos 400 milhões", declara.

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Segundo o empresário, o despacho "diz também que, não sendo suficiente o 'plafond' disponível, haverá um rateio", significando que "o apoio mínimo, que é de 50%, será reduzido para chegar a mais gente".

José Gonçalves adianta que a Nutrix, uma microempresa, não pode "tomar decisões de reconstrução sem ter uma certeza relativamente ao apoio" que vai ter.

"O prazo para a submissão das candidaturas é 30 de abril, portanto, só em 30 de abril é que o ministério vai saber qual é a totalidade do apoio necessário", refere, para salientar que, "só depois disso, é que poderá fazer o rateio".

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Com estes prazos, "não haverá nenhuma certeza, preto no branco, antes do verão relativamente ao apoio que será concedido a cada empresa agrícola", nota.

"Ora, isto para nós, que fazemos framboesa, significa que, como não podemos correr o risco de avançar com a reconstrução não tendo a certeza se temos um apoio ou não lá mais à frente, não vamos poder reconstruir antes do verão, portanto, a nossa campanha deste ano está perdida", assume.

Olhando "para este cenário com muito pouca tranquilidade" ao "ponto de ponderar muito seriamente na possibilidade de não reconstruir mesmo", José Gonçalves reitera que, "sem a certeza inequívoca do apoio" que a Nutrix possa ter não pode avançar.

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Ao ministro da Agricultura, que na semana passada esteve, com o comissário europeu da área na empresa, pediu que "não penalizasse os agricultores que não têm seguro, porque, efetivamente, há agricultores que não podem ter seguro porque não havia ninguém para lhe fazer o seguro".

"E é feita uma distinção no despacho que cria o apoio em que os agricultores que têm seguro são apoiados em 80% e os que não têm são apoiados só em 50%", alerta.

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Salientando que este aspeto, para a empresa, é uma discriminação que "funciona como uma penalização", José Gonçalves concretiza: "Não foi uma falta ou uma negligência nossa".

Defendendo também a necessidade de os empresários terem "alguma previsibilidade mais rapidamente", José Gonçalves acrescenta que ao comissário europeu da Agricultura disse que "não fazer sentido este modelo de seguros em que as seguradoras já identificaram que há alguns riscos grandes das questões do clima para a agricultura", mas "não têm produtos específicos para a agricultura".

"A União Europeia deverá ter a capacidade para criar um sistema mais robusto, para garantir que os europeus têm, efetivamente, comida para o pequeno-almoço, almoço e jantar todos os dias", sustenta o empresário.

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Dezoito pessoas morreram em Portugal na sequência da passagem das depressões Kristin, Leonardo e Marta, que provocaram também muitas centenas de feridos e desalojados.

A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, a queda de árvores e de estruturas, o fecho de estradas, escolas e serviços de transporte, e o corte de energia, água e comunicações, inundações e cheias são as principais consequências materiais do temporal.

As regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo foram as mais afetadas.

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A situação de calamidade que abrangia os 68 concelhos mais afetados terminou no dia 15 de fevereiro.

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