Entre a Azambuja e Santarém, multiplicam-se estruturas remendadas à pressa, seguradas por estacas improvisadas e pelo esforço dos próprios agricultores.
1 / 3
As cheias deste inverno trouxeram à superfície o que os agricultores do Vale do Tejo dizem há anos: um território onde diques, valadas, estradas e portas de água cedem ao primeiro embate, porque a manutenção desapareceu.
Entre a Azambuja e Santarém, multiplicam-se estruturas remendadas à pressa, seguradas por estacas improvisadas e pelo esforço dos próprios agricultores. Um desses locais é a estrada de acesso ao Palácio da Rainha, na Azambuja, onde a via cedeu e o trânsito está cortado.
Onde antes havia um caminho de terra batida que seguia direto para o Palácio da Rainha, resta agora um desnível bruto, cortado por uma corrente de água que avança e recua ao ritmo da maré.
A água, ainda alta depois das cheias, avança lentamente sobre a margem exposta, inundando parcelas que já tinham cultura de inverno instalada e fragilizando o terreno onde deveria, nas próximas semanas, ser preparado o tomate, a cultura dominante da região da Azambuja.
"A estrada já precisava de manutenção há muito tempo", diz Edgar Sousa, técnico agrícola que percorre a zona quase todos os dias.
Preparar terreno para o tomate, uma cultura que pode representar 10 mil euros por hectare, tornou-se impossível neste cenário, uma vez que a terra não está em condições de ser trabalhada.
A solução, insiste, não passa por "remendos". O que ali aconteceu não se resolve com um camião de terra ou uma máquina a alisar o caminho.
"Isto só com uma intervenção de fundo", afirma, olhando para o corte que dividiu a estrada, consciente de que outra cheia levaria qualquer arranjo provisório.
À chegada ao local, o presidente da Associação de Agricultores do Ribatejo, Luís Neves, olha para o rombo na estrada e não se surpreende com o que encontra, apenas confirma o que, diz, vem alertando há anos.
"Há danos diretos das cheias, mas o problema é estrutural", afirma, enquanto aponta para o caminho ferido e para os campos onde a água entra sem resistência.
"Não podemos adivinhar tempestades, mas podemos fazer a nossa parte", diz. Dragagens, limpezas, manutenção dos taludes, reforço dos tapadões, tudo isso, assegura, "não tem sido feito". E é por isso que, quando chega uma cheia mais forte, as infraestruturas cedem em série. "Se forem de barco pela vala acima, vão ver. Está praticamente tudo comprometido", avisa.
O dirigente fala de desinvestimento "gritante", de anos em que a manutenção foi sendo adiada até deixar de existir. O resultado, explica, não é apenas um rombo num caminho agrícola. É um território inteiro fragilizado, do Tejo ao Mondego, onde cada episódio extremo expõe falhas acumuladas.
"Podíamos minimizar muita coisa se a manutenção fosse feita", afirma, recordando que todos os anos, após cada cheia ou incêndio, multiplicam-se visitas e declarações institucionais, enquanto a intervenção estrutural continua por acontecer.
O que está em causa, insiste, não é um tema agrícola, mas um tema de território.
"Se fosse uma autoestrada ao lado da Autoeuropa e aquilo caísse, ninguém hesitava. Aqui, como é campo, parece que vale menos", desabafa.
Com marés que chegam aos 3,80 metros, explica, "estas terras ficam incultas" e o impacto multiplica-se muito para lá dos agricultores afetados.
"Se perdermos mil hectares aqui, isso pesa na economia da região", afirma, acrescentando: "São 1.500, 2.000 hectares de produção que podem desaparecer".
Outro dos pontos críticos da visita fica alguns quilómetros adiante, junto à vala, onde uma porta de água antiga mostra sinais evidentes de cedência. Construída há muitos anos, a estrutura está hoje sob responsabilidade da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), mas quem a tenta manter são os agricultores da zona, que a vão segurando "com estacas improvisadas", tentando travar "os pequenos rombos que vão aparecendo", explica Edgar Sousa.
Esse esforço, porém, coloca-os perante um problema: ao tentar preservar infraestruturas, arriscam-se a ser multados.
"Corremos o risco de ser autuados por estar a intervir num património do Estado sem autorização", diz Edgar.
E quando tentam fazer tudo de forma formal, a burocracia bloqueia qualquer resposta rápida. A autorização pode demorar até seis meses, um prazo impossível de compatibilizar com prazos agrícolas.
"Em plena campanha, não podemos esperar seis meses para resolver um problema que compromete milhares de euros", sublinha.
O risco desta porta de água vai muito além das terras agrícolas. Atrás desta estrutura estão armazéns logísticos da Modis e da Sonae, que abastecem supermercados e centros de distribuição de grande parte da região centro e de Lisboa.
"Se este rombo avançar, a água chega facilmente aos armazéns", alerta Edgar, um cenário que pode deixar instalações alagadas, comprometer trabalhadores e atingir diretamente a cadeia de abastecimento alimentar da região.
Depois deste ponto, a visita segue pela água. Para perceber a extensão dos danos ao longo da vala, a Lusa acompanha um passeio de barco entre a Azambuja e Virtudes, um percurso que confirma aquilo que os agricultores repetem no terreno: grande parte das estruturas só continuam de pé porque estacas lhes dão algum suporte. À medida que o barco avança, sucedem-se troços de margem sustentados por estacarias improvisadas, remendos que seguram a terra apenas o suficiente para evitar que a água leve tudo na próxima maré.
São os agricultores que, na ausência de intervenção pública, tentam manter portas de água, valados e drenagens, assumindo riscos que incluem a possibilidade de serem multados por intervir em património público sem autorização.
"Sem este trabalho de tapar buracos, muitas destas zonas já tinham desaparecido. Os agricultores estão a cuidar do território na medida das suas possibilidades, mas há intervenções que estão muito acima do que conseguem fazer", comenta Luís Neves.
A solução, defende, passa pela criação de uma entidade gestora do território, semelhante às existentes noutros regadios coletivos, capaz de assegurar drenagens, margens e infraestruturas agrícolas com uma gestão coordenada.
"É preciso que os proprietários, arrendatários, juntas e autoridades cheguem a uma plataforma de entendimento."
Para o responsável, o objetivo é garantir que o vale do Tejo, e os hectares que o compõem, deixe de depender de remendos individuais e passe a ter uma estrutura de gestão capaz de responder à escala do território.
"Sem isso, continuaremos sempre a sobreviver com o possível, e não com o necessário", afirma Luís Neves, que apela a que o território não seja esquecido.
"Mil hectares não mexem no PIB [Produto Interno Bruto]. (...) Este território é desprezado. Lembram-se dele para pescar, passear ou admirar a paisagem, mas não quando é preciso fazer obra e manter o que existe", conclui.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.