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Dois terços dos europeus respiraram níveis perigosos de ozono durante onda de calor em junho

Este tipo de poluição está associado a várias patologias que vão desde a asma até a lesões nos tecidos pulmonares.

09 de julho de 2026 às 14:28

Cerca de dois terços dos habitantes da União Europeia respiraram níveis perigosos de ozono no ar durante a onda de calor de junho, de acordo com um relatório da organização não-governamental Global Witness divulgado esta quinta-feira.

Cerca de 300 milhões de europeus, incluindo 100 milhões de crianças e idosos, foram expostos a níveis de ozono considerados perigosos entre 21 e 28 de junho, de acordo com este relatório, elaborado com base em dados de 162 estações de medição da qualidade do ar em toda a UE.

Portugal encontra-se entre os países afetados pelos índices elevados de ozono.

A poluição por ozono, agravada pelas altas temperaturas, é uma "ameaça invisível", afirmou a responsável da Global Witness, Flossie Boyd, que partilhou este relatório com a agência de notícias France-Presse.

Este tipo de poluição está associado a várias patologias que vão desde a asma até a lesões nos tecidos pulmonares.

"As pessoas são obrigadas a viver em condições perigosas devido à nossa dependência dos combustíveis fósseis", insistiu Boyd.

Ao centrar-se na poluição por ozono, este relatório contribui com um novo elemento para avaliar o impacto na saúde da onda de calor de junho, já considerado o mês mais quente de sempre registado na Europa Ocidental.

Os efeitos na saúde decorrentes do calor intenso não se limitam, de facto, aos casos de insolação e desidratação imediatamente observáveis. Podem ser mais indiretos e traduzir-se, por vezes, em problemas de saúde e óbitos que só são registados após vários dias.

A poluição atmosférica por ozono foi associada a 63.000 mortes em 2023, de acordo com estimativas da Agência Europeia do Ambiente, que refere ainda prejuízos na ordem dos milhares de milhões de euros para os agricultores.

As atividades humanas não emitem ozono diretamente, mas este é sintetizado por reações químicas no ar ambiente quando há temperaturas elevadas e exposição intensa ao sol, características das ondas de calor.

Os países da UE reduziram, nos últimos anos, as suas emissões de dióxido de azoto, envolvido na síntese do ozono, mas a Global Witness acusa o executivo europeu de falta de ambição para fazer o mesmo com o metano, outro componente essencial.

Segundo esta ONG ambiental, 298 milhões de europeus foram expostos a um nível de ozono superior ao recomendado pela UE: uma concentração de 120 microgramas por metro cúbico (µg/m³) durante um período de oito horas.

No entanto, salienta a ONG, se considerarmos os limites estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS) --- mais rigorosos, fixados em 100 µg/m³ ---, a proporção sobe para cerca de sete em cada oito habitantes.

Setenta e dois milhões de habitantes --- cerca de um em cada seis --- respiraram ar poluído com níveis superiores a 150 µg/m³, um limiar considerado "particularmente perigoso", recorda a ONG.

A Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo detetou no sábado e no domingo níveis de concentração de ozono prejudicais para a saúde nos Olivais (Lisboa) e em Alverca (Vila Franca de Xira), em que o valor de concentração atingia os 180 µg/m³.

Em Alverca estes níveis chegaram a atingir, entre as 15:00 e as 16:00 de sábado, os 205 microgramas por metro cúbico.

A metodologia da Global Witness utilizada no relatório agora divulgado tem, no entanto, algumas limitações.

Os números apresentados não se baseiam apenas nas estações de monitorização anteriormente referidas, mas também em modelizações do Copernicus, o observatório climático da UE, que não medem diretamente os níveis de ozono e, por isso, envolvem uma margem de incerteza.

Alguns investigadores que não participaram no relatório consideraram, no entanto, que este parecia coerente com as suas próprias observações, como é o caso do climatologista britânico James Weber.

Weber analisou os dados sobre a poluição por ozono no Reino Unido durante a última onda de calor e constatou que esta excedia os limites da OMS em mais de metade dos locais de medição.

"O ozono é mais um problema, numa altura em que a saúde já está a ser afetada pela humidade e pelas temperaturas", adiantou Weber, sublinhando o papel das alterações climáticas.

A poluição por ozono é, acrescentou, mais um motivo para evitar sair de casa nos momentos mais quentes, especialmente para fazer exercício.

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