Em Portugal, cerca de 200 mil pessoas, de ambos os sexos, sofrem de doença bipolar. Tradicionalmente conhecida por doença maníaco-depressiva, trata-se de uma doença mental de "perturbação do foro neurológico em que há uma alegria excessiva ou uma depressão profunda", explica José Jara, psiquiatra e director do Serviço de Psiquiatria do Hospital Júlio de Matos, em Lisboa.<br/><br/>
O próprio termo bipolar expressa os dois diferentes tipos de humor, isto é, o da ‘mania’, caracterizado por uma profunda excitação, e o da depressão, onde o doente se sente muito abatido. Esta última fase referida é identificada como sendo "a mais perigosa, uma vez que é aquela em que se verifica uma maior taxa de suicídio". No entanto, para além destas duas fases há outras pelas quais o doente pode passar. As causas do aparecimento da doença não são específicas, uma vez que variam consoante o tipo de personalidade e a própria pessoa.
No entanto, os problemas do dia-a-dia podem – e muito – contribuir para o aparecimento de casos de bipolaridade.
A idade não é um factor preponderante para uma melhor compreensão da doença, uma vez que "não há uma faixa etária específica para o aparecimento da mesma", refere o especialista, salientando que "existe uma maior ocorrência de casos na fase da adolescência".
A doença bipolar – que segundo o psiquiatra José Jara é "uma doença que interfere muito com a dinâmica familiar do paciente, com a sua vida profissional e com as relações interpessoais" – não tem cura. Porém, o tratamento tem uma importância muito significativa na estagnação da bipolaridade pois "evita o aparecimento de crises, estabilizando-as".
O director do Serviço de Psiquiatria do Hospital Júlio de Mato frisa ainda que na maioria dos casos se verifica "um abandono do uso da medicação, pois os pacientes pensam que já estão curados mas, obviamente, as crises voltam sempre a aparecer".
DOENTES ALVO DE ESTIGMAS E DE PRECONCEITOS SOCIAIS
O doente bipolar tem de lutar diariamente contra os estigmas e preconceitos sociais, muitas vezes consequência da agressividade que se manifesta durante a depressão. Quando entra nessa fase mais crítica, ou seja, na fase depressiva, o doente tem tendência a se isolar dos amigos, colegas e até mesmo dos familiares. Esse afastamento deve-se, na maioria das vezes, ao facto de o doente sentir fobia em relação ao mundo exterior. Ao se isolar, pensa que irá resolver os grandes conflitos interiores com que se depara. Porém, para além de não conseguir resolver estes conflitos, o doente vai perdendo amigos, acabando por ficar cada vez mais só. Este facto deve-se, segundo o psiquiatra José Jara, ao facto "de as pessoas se assustarem com as crises depressivas dos bipolares, que chegam a ter comportamentos agressivos para com as mesmas."
MEDICAMENTOS NO MERCADO
Os medicamentos estabilizadores de humor são essenciais na terapêutica preventiva das fases depressivas e eufóricas, permitindo a muitos doentes o controlo da perturbação bipolar através de uma prevenção das crises. O lítio, comercializado no País através do medicamento Priadel, o valproato, presente nos medicamentos Diplexil R e Depakine, e a carbamazepina, através do Tegretol, são ajudas no tratamento do doente.
REFORMA NA SAÚDE MENTAL
Foi aprovado em Outubro do ano passado, em Conselho de Ministros, o Plano Nacional da Saúde Mental, a vigorar até 2016, cuja prioridade consiste na descentralização dos serviços prestados aos doentes, para uma maior integração nas famílias. Também se prevê a criação ou recuperação de unidades de psiquiatria que não têm estado a funcionar devido a deficiência de recursos humanos ou, até mesmo, por falta de condições.
"MOTIVADOS PARA A CURA" (Delfim Oliveira, Associação Doentes Depressivos e Bipolares)
Correio da Manhã – Em que consiste a Associação de apoio aos Doentes Depressivos e Bipolares?
Delfim Oliveira – A ADEB – que já existe desde 1991 – constitui-se como uma ferramenta elementar na recuperação de um doente bipolar ou depressivo, pois tentamos sempre entender o doente, quer seja bipolar ou depressivo, e ajudá-lo na recuperação de crises.
– Como é que o doente bipolar procura a Associação?
– Esse contacto existe através do aconselhamento que o psiquiatra dá ao doente, pois há uma grande cooperação entre os profissionais de Saúde e a ADEB.
– Essa procura é um incentivo na recuperação do doente?
– Sem dúvida que sim, porque os associados sentem-se muito mais acompanhados e motivados para se tratar, o que constitui um factor bastante significativo na recuperação do doente.
"BEBI A MINHA PRÓPRIA URINA" (O meu caso: António Santana)
António Santana sempre quis ser engenheiro, mas o aparecimento da doença bipolar, aos 16 anos, estragou-lhe o sonho de infância. Consequência da falta de informação da época em relação à doença, Santana, como é conhecido no Hospital Júlio de Matos, foi internado diversas vezes em várias unidades de Saúde. Desde o Hospital Miguel Bombarda, em Lisboa, até à Casa de Saúde do Telhal, em Sintra, muitas foram as torturas a que teve de se submeter. "Cheguei a levar electrochoques, jactos de água e a beber a minha própria urina", revelou ao Correio da Manhã, em tom envergonhado, dizendo que é uma fase da vida que quer "esquecer".
António Santana afirma já ter sofrido e ainda sofrer do estigma social existente em relação à doença, mas afirma "não ligar". Há cerca de dois anos que Santana não tem uma crise bipolar. Actualmente vive com uma companheira "que é para toda a vida" e dedica-se à escrita de poemas e ao teatro. n
PERFIL
António Santana tem 48 anos e já é uma cara conhecida do Hospital Júlio de Matos, em Lisboa, local onde trabalha e onde teve a primeira consulta de Psiquiatria. Sofre de doença bipolar desde os 16 anos.
BI DA DOENÇA BIPOLAR
A Doença Bipolar, tradicionalmente designada por Doença Maníaco-Depressiva, é uma doença psiquiátrica caracterizada por variações acentuadas do humor, com crises repetidas de depressão e ‘mania’.
Os sintomas diferem-se nas fases de depressão e ‘mania’. Na primeira, o principal sintoma é um estado de humor de tristeza e desespero. Na fase de ‘mania’, existe um estado de humor elevado e expansivo, eufórico ou irritável.
Os factores genéticos e biológicos (na química do cérebro) têm um papel essencial entre as causas da doença. O tipo de personalidade e o stress têm um papel importante no desencadeamento das crises.
Pode começar em qualquer altura, durante ou depois da adolescência.
NÚMERO DE DOENTES
Cerca de 100 mil pessoas, de ambos os sexos, sofrem da doença em Portugal.
Não há nenhum tratamento que cure a doença por completo. No entanto, há possibilidades de controlar a doença, através de medicamentos estabilizadores de humor. As crises depressivas tratam-se com medicamentos antidepressivos e as crises de mania tratam-se com antipsicóticos.
PREVISÃO DAS CRISES
A previsão das crises é variável e depende de pessoa para pessoa. Algumas têm uma ou duas crises durante toda a vida, enquanto que outras chegam a ter crises quatro vezes no mesmo ano.
NÚMEROS
100
mil pessoas em Portugal sofrem de esquizofrenia, segundo dados de estudos recentes
1,3
milhões de pessoas são atendidas no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa
2.000
milhões de pessoas no Mundo padecem de alguma doença ou perturbação mental
40
mil mortes mundiais são atribuídas às patologias psiquiátricas, como a doença bipolar
154
milhões de indivíduos, espalhados por todo o Mundo, sofrem de sintomas depressivos
DOENÇA MANÍACO-DEPRESSIVA
As zonas do cérebro mais afectadas pela doença bipolar são o córtex pré-frontal e o hipocampo.
Estriato: Ajuda o cérebro a processar recompensas
Córtex pré-frontal: Regula as emoções, a capacidade de planeamento e a motivação
Amígdala: Ajuda a reconhecer expressões faciais. As transmissões entre os neurónios aumentam em resposta aos estímulos emocionais.
Hipocampo: É um dos centros da memória. Parte dele ajuda no reconhecimento de perigos ou recompensas.
Tronco Cerebral: Onde o neurotransmissor serotonina (hormona envolvida na comunicação entre os neurónios, fundamental para a percepção do meio que rodeia o ser humano) é produzido para ser espalhado pelas diferentes partes do cérebro. Os bipolares têm menos serotonina, o que pode contribuir para uma atrofia dos neurónios e levar à depressão.
OS TRÊS ESTÁGIOS DA DOENÇA
O doente sofre de graves fases depressivas, seguindo-se crises de ‘mania’ profundas. Pode ter também crises mistas, isto é, sintomas de depressão e de ‘mania’ ao mesmo tempo.
O paciente tem crises depressivas graves e fases leves de elevação do humor (hipomania). As crises de elevação do humor podem não ser identificadas ou referidas porque o doente sente-se "acima do normal" com muita energia e alegria, sem perturbações óbvias.
O paciente tem pelo menos quatro crises por ano, em qualquer combinação de fases de mania, hipomania, mistas e depressivas. Na maioria das vezes, não chega a ter percepção de que passa pelas mesmas.
FASES DA DOENÇA
DEPRESSÃO
Tristeza é o principal sentimento vivido nesta fase. Verifica-se uma diminuição do desejo sexual e um abuso muito excessivo de álcool e das drogas, registando--se uma grande taxa de tentativas de suicídio.
FASE MANÍACA
Nesta fase o doente sente-se muito criativo, alegre, sociável e autoconfiante. Existe um aumento do apetite sexual e um abuso de álcool e substâncias. O doente chega a perder a noção da realidade.
HIPOMANIA
É caracterizada por fases leves de elevação de humor do doente, isto é, sintomas maníacos menos acentuados. As pessoas com hipomania não se julgam doentes e sentem--se bem.
MISTAS
Conjugação das fases de depressão e de ‘mania’, ou seja, o doente pode sentir-se triste e eufórico simultaneamente, sem nenhuma razão. Estas crises podem acontecer no mesmo dia.
NOTAS
HÁBITOS NORMAIS
Os bipolares conseguem ter uma vida igual à de uma pessoa que não sofra de qualquer doença mental.
DOENTES TORTURADOS
Há vinte anos a bipolaridade tinha uma má conotação e os doentes sofriam vários tipos de tortura.
DOENÇA ATINGE FAMOSOS
Jim Carrey, um conhecido actor de Hollywood, sofre de doença bipolar. Leva uma vida normal mas com precauções.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.