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Associação antecipa "meses de sobrecarga" para instituições que acolhem idosos nos concelhos afetados pelo mau tempo

Impacto causado pela depressão Kristin na quarta-feira "vai perdurar durante meses ou anos para algumas pessoas".

02 de fevereiro de 2026 às 11:45

A Associação Nacional de Gerontologia Social (ANGES) tem recebido "imensos contactos" nos concelhos da zona Centro afetados pelo mau tempo e antecipa "meses de sobrecarga" para as instituições que acolhem pessoas idosas.

O impacto causado pela depressão Kristin na quarta-feira "vai perdurar durante meses ou anos para algumas pessoas", pondo as "condições de isolamento" da população mais velha, estima Ricardo Pocinho, presidente da ANGES, que, na zona Centro, atua nos concelhos de Leiria, Pombal e Soure.

Antevendo o "acentuar de um isolamento que já era uma pandemia nacional", o juiz social, doutorado em Psicogerontologia, prevê que os próximos meses sejam "de sobrecarga, de procura por parte das famílias ou por parte das pessoas, por iniciativa própria", por instituições para pessoas idosas, "porque as suas casas não têm condição e não vão voltar a ter".

Pocinho lembra que as pessoas idosas que residem nas suas casas vivem, na maioria dos casos, sozinhas: "Há um acentuado número de pessoas com mais idade, sobretudo nas zonas mais despovoadas e mais interiorizadas."

Além da solidão, verifica-se também uma "falta de condições de salubridade, de higiene, de vida com autonomia", descreve, apontando como explicações as baixas reformas, a incapacidade económica e a falta de cobertura das companhia de seguros.

Por tudo isso, "muitas delas ver-se-ão obrigadas a recorrerem à institucionalização", lamenta.

A ANGES -- que tem projetos para prevenir a institucionalização e aumentar a autonomia e a qualidade de vida das pessoas idosas -- tem acudido aos seus cerca de 500 utilizadores nos concelhos de Leiria, Pombal e Soure sobretudo fazendo-lhes chegar bens de primeira necessidade, transportes e medicação.

Porém, salienta Ricardo Pocinho, a atuação da associação tem sido "secundária" e "de alguma forma desnecessária", porque as autoridades locais dos concelhos afetados "têm dado uma resposta muito forte, muito musculada".

Ainda assim, assinala, a área onde a ANGES atua está no Centro litoral, "uma capacidade de acesso a serviços e a meios que é mais disponível, uma rede viária mais bem servida, (...) transportes públicos com mais frequência".

Já as pessoas que estão mais no Interior vivem a ruralidade com "uma falta de liberdade para escolher o seu envelhecimento", distingue.

"Estão muitos deles votados à própria sorte e têm que se contentar em cada um dos dias com aquilo que lhes é disponibilizado, que em alguns casos é nada", constata.

Portugal é "um país que tem muitas assimetrias, muitas desigualdades e, infelizmente, os velhos poderiam ser todos iguais, [mas] nem na velhice somos todos iguais", lamenta.

A passagem da depressão Kristin por Portugal continental, na quarta-feira, causou pelo menos cinco mortos, segundo a Proteção Civil, e vários feridos e desalojados.

A Câmara da Marinha Grande contabilizou uma outra vítima mortal no concelho. No sábado, outros dois homens morreram ao caírem de um telhado que estavam a reparar, um no concelho da Batalha e outro em Alcobaça. Na madrugada de domingo, um homem morreu no concelho de Leiria por intoxicação com monóxido de carbono com origem num gerador.

Quedas de árvores e de estruturas, fecho ou condicionamento de estradas e transportes, em especial linhas ferroviárias, fecho de escolas e cortes de energia, água e comunicações são as principais consequências materiais do temporal.

Leiria, por onde a depressão entrou no território, Coimbra e Santarém são os distritos que registam mais estragos.

O Governo prolongou a situação de calamidade até dia 08 de fevereiro.

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