Utilização de leques ou a tentativa de encontrar um lugar alternativo nas carruagens tornam-se imagens comuns no metro.
Passageiros frequentes e ocasionais do Metro do Porto voltaram a ser atormentados pelo calor excessivo no interior das carruagens no verão, já que o ar condicionado não cumpre o seu propósito, tendo a transportadora lamentado o desconforto causado.
O cenário repete-se há vários anos: chega o calor do verão e os passageiros do Metro do Porto - especialmente os das linhas que servem Gaia, Matosinhos e Gondomar, que utilizam os veículos mais antigos (Eurotram, de 2002) - aquecem e transpiram no interior das carruagens.
A utilização de leques ou a tentativa de encontrar um lugar alternativo nas carruagens tornam-se imagens comuns no metro, tendo a Lusa constatado que, por vezes mesmo dentro da mesma carruagem, o funcionamento do ar condicionado varia: umas vezes deita ar frio, outras à temperatura ambiente e noutras mais quente.
Em Matosinhos, Clementina Santos, de 69 anos, cliente ocasional, disse à Lusa que nos últimos dias tem sentido "um calor enorme dentro do metro", alertando que "as ondas de calor cada vez serão maiores é de facto muito incómodo viajar", e em dias de calor, como os atuais, "a impressão que dá a um leigo na matéria é que [o ar condicionado] estará desligado".
"Nunca presenciei ninguém a sentir-se mal com o calor, mas é muito possível que aconteça", adverte a reformada, lembrando que "segundo todas as orientações, quer da Direção-Geral de Saúde, quer da Organização Mundial de Saúde, de facto há populações mais vulneráveis e as mais vulneráveis são as crianças, as pessoas com doenças crónicas e aqueles que têm mais idade".
Tiago Silva, jovem de Vizela (Braga) que estava a utilizar o metro para ir para a praia de Matosinhos, observou que estava "um calor ridículo, a um ponto que dentro do metro chega a feder um pouco a suor".
Rumo à mesma praia, a também jovem veraneante Maria Beatriz, de Santa Maria da Feira (Aveiro), relata que, da sua impressão, o ar condicionado "por norma não funciona".
"É uma concentração de muita gente e depois pode acabar por pessoas mais velhas e mesmo nós até nos sentirmos mal", relata.
Em resposta à Lusa, a Metro do Porto diz estar "ciente das falhas verificadas no sistema de ar condicionado de algumas das composições Eurotram (ET) e lamenta o desconforto que estas situações têm causado aos seus clientes", mas não respondeu sobre a assunção de responsabilidades no caso de haver algum problema de saúde dos seus passageiros.
"Os sistemas de climatização das composições do metro funcionam com controlo automático em função da temperatura exterior e seguem as normas internacionais que regulam o funcionamento destes equipamentos", o que "não permite que o ar condicionado seja desligado em nenhuma circunstância" e, em caso de avaria, "o veículo em causa é sujeito a uma intervenção para reparação da anomalia, normalmente, logo no próprio dia".
Segundo a transportadora, "nenhuma composição inicia a operação sem o sistema de ar condicionado operacional", garante, mas, "apesar de todos os procedimentos referidos, em relação aos quais a Metro do Porto não transige em nenhum momento, as especificidades dos ET, decorrentes sobretudo da sua antiguidade e da dimensão das suas áreas envidraçadas, impedem a completa resolução das anomalias nos seus ar condicionados", reconhecendo que em casos de maior calor "o sistema de refrigeração pode atingir o seu limite de capacidade".
Se os portugueses, mais habituados ao sul da Europa, sofrem com o calor no interior dos veículos, Benjamin Hale, turista galês de 38 anos que viajava com a família, estará menos acostumado, ainda por cima estando "habituado a ar condicionado ligeiramente melhor nos comboios de Londres".
"É um dia quente, mas acho que poderia ser melhor. Parece ser um comboio recente, portanto seria de esperar que tivesse melhor ar condicionado", refere, contando que já esteve no Porto no inverno e é "bastante confortável", mas no verão "é mais duro andar de metro".
Para o turista, isso significa acabar "por apanhar um Uber" em muitas ocasiões.
"Era o que estávamos a decidir: apanhar um Uber no regresso da praia. Vai custar-nos mais. Provavelmente regressaríamos de metro se fosse um pouco mais fresco", concluiu.
O Metro do Porto recorda que "os 72 veículos Eurotram foram adquiridos há 25 anos, numa altura em que não eram expectáveis as ondas de calor contínuas como aquelas a que, hoje, a população está sujeita", e à data da sua aquisição, "com base nas projeções então definidas pelo Instituto Português da Meteorologia e da Atmosfera (IPMA), foi definido um referencial térmico máximo na ordem dos 35 graus centígrados".
"Uma vez ultrapassada esta temperatura, o ar condicionado desliga-se devido à alta pressão", refere a transportadora, que tenta "adotar medidas de curto e médio prazo" para mitigar os impactos, como a aquisição de 22 novos veículos melhor preparados para esta circunstância.
Para já, a Metro do Porto "reforçou a manutenção preventiva do sistema de ar condicionado e continua a avaliar e testar soluções complementares para os dias de temperatura mais elevada", sendo uma dessas medidas implementada já hoje "no arranque do serviço de todos os veículos que iniciarem a marcha a partir da estação Senhor de Matosinhos (referente à Linha A)", ao "fazer injeções de ar frio para o interior das composições".
Em agosto do ano passado, fonte oficial da transportadora tinha reconhecido que "é difícil" melhorar o ar condicionado nos veículos antigos, já que uma renovação total do sistema implicaria ou a diminuição da lotação ou o custo de descontinuar os 72 comboios.
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