Estudo revela que há uma clara diferença de género no tipo de violência de que rapazes e raparigas são alvo.
A ciberviolência de cariz sexual afeta desproporcionalmente as raparigas e mulheres, com ameaças e envio não consentido de imagens intimas, um fenómeno com impacto na autoestima, saúde mental e desempenho escolar, revela um estudo internacional.
De acordo com o estudo, realizado pela Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres (PpDM), há uma clara diferença de género no tipo de violência de que rapazes e raparigas são alvo.
"As situações mais recorrentes de violência 'online' dirigida a rapazes são os insultos e os discursos de ódio. Já as raparigas são desproporcionalmente alvo de formas de ciberviolência com cariz sexual", diz o estudo.
Acrescenta que essa violência se traduz em "ameaças, chantagens, envio não solicitado de mensagens ou imagens sexuais (em particular fotos de genitais de homens adultos, numa ótica de predação sexual) e pedidos ou divulgação não consentida de conteúdos íntimos".
Os resultados demonstram "de forma clara e preocupante que esta realidade afeta desproporcionalmente as raparigas desde muito cedo, com impactos profundos na sua autoestima, saúde mental, desempenho escolar, bem-estar e segurança".
Por outro lado, "a autoria dos atos de violência recai maioritariamente sobre os rapazes e homens" -- sobretudo ex-namorados ou colegas -- havendo também registo de agressões por parte de raparigas, mas em contexto de conflito interpessoal.
"A frequência de situações de ciberviolência é elevada e os seus impactos são profundos, afetando as e os jovens não apenas psicológica e emocionalmente - através de sintomas como ansiedade, baixa autoestima, depressão, isolamento, automutilação, desconfiança ou mesmo ideação suicida - mas também a nível físico", refere o estudo.
Aponta igualmente para a relação entre a violência no mundo digital e a violência no mundo real, "sendo muitas vezes uma a continuação da outra", em que o "acesso facilitado à internet e a utilização intensiva das redes sociais surgem como condições que favorecem a ocorrência e a perpetuação destas dinâmicas abusivas".
O estudo refere que, "embora a maioria das e dos jovens se sinta informada sobre o fenómeno, persiste a banalização dos seus efeitos e uma subestimação das suas consequências".
Rapazes e raparigas tendem a lidar de forma isolada com o fenómeno, mas "os rapazes tendem a desvalorizar mais frequentemente as situações de ciberviolência".
Relativamente às causas, o estudo revela que as mais mencionadas são "o anonimato proporcionado pelas redes sociais, sentimentos de insegurança, desejo de autoafirmação, inveja, vingança e, em alguns casos, prazer em causar sofrimento a outrem".
O relatório demonstra "a fragilidade dos mecanismos de apoio" e defende como princípio fundamental que "os direitos das raparigas e mulheres protegidos 'offline' devem também ser protegidos 'online'".
O estudo traz uma série de propostas para uma "intervenção urgente", desde a criação de serviços especializados de apoio a sobreviventes de ciberviolência, mecanismos de recolha e monitorização de dados desagregados por sexo e idade, considerar a pornografia como uma forma gravosa de violência contra raparigas ou a formação de forças de segurança, magistrados e técnicos de justiça.
Defende também que as denúncias sejam tratadas com celeridade, rigor e enfoque nas vítimas e sugere a criação de linhas de apoio especializado, com atendimento sensível ao sexo e à idade.
Sublinha a importância de uma transposição ambiciosa da diretiva europeia que tipifica, pela primeira vez, crimes de violência digital na União Europeia.
O estudo, intitulado "A ciberviolência com base no sexo em Portugal: Perspetivas de crianças e jovens, escolas e forças de segurança", será apresentado na sexta-feira, em Lisboa, e foi desenvolvido no âmbito do projeto europeu bE_SAFE, de consciencialização para o fenómeno.
O projeto envolveu Croácia, Espanha e Portugal, sendo que em Portugal abrangeu as regiões da Grande Lisboa, Alentejo e zona Centro.
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