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Crianças ficam mais autónomas

Um pequeno passo pode ser uma grande vitória. Para as crianças com paralisia cerebral, a postura é difícil de manter e um simples movimento pode ser uma grande dificuldade. No nosso país, a cada ano há mais 250 casos.

19 de julho de 2009 às 00:30

Oito em cada dez casos de paralisia cerebral sofrem de espasticidade, um sintoma da doença, caracterizado pela rigidez muscular que dificulta ou impossibilita o movimento, em especial dos braços e das pernas. Tarefas do dia-a--dia, como vestir, comer ou escovar os dentes, são uma luta constante para estas crianças. A espasticidade pode variar desde uma leve contracção até a uma deformidade severa. A medicação alivia os espasmos, mas não é suficiente. Já a implementação cirúrgica pode trazer muitos benefícios.

O Hospital Egas Moniz (HEM) realizou uma cirurgia pioneira que pode diminuir 92 por cento da espasticidade. Na operação, é colocada uma pequena bomba de infusão de medicamento por baixo da pele do abdómen. A tecnologia não é nova, no entanto é a primeira vez que é utilizada em crianças com menos de 16 anos.

Manuel Dominguez, director do Serviço de Neurocirurgia do Hospital Egas Moniz, recomenda a implantação cirúrgica o mais cedo possível para evitar o aumento progressivo da rigidez muscular. Actualmente, estão à espera desta intervenção cirúrgica mais de cem crianças. Durante este ano o HEM prevê realizar mais quatro cirurgias. A partir de 2012, o objectivo é realizar dez intervenções cirúrgicas por ano.

A iniciativa resultou de um protocolo com o Centro de Reabilitação de Paralisia Cerebral. Alice Beja, directora do Centro de Reabilitação, trabalha com crianças que sofrem de paralisia cerebral. "Preparamos as crianças, em termos cognitivos e motores, para as necessidades do seu dia-a-dia."

O Centro de Reabilitação de Paralisia Cerebral é composto por uma vasta equipa de técnicos que ajudam estas crianças a desenvolver as competências adequadas ao seu nível de desenvolvimento. O Centro de Reabilitação dispõe de serviços como fisioterapia, terapia da fala e terapia ocupacional.

Enquanto que na fisioterapia é trabalhada a postura e a mobilidade motora, na terapia ocupacional são desenvolvidas aptidões que permitam à criança desempenhar tarefas de rotina. Os especialistas realçam a importância dos exercícios de reabilitação na prevenção de deformidades futuras e na melhoria da qualidade da postura e dos movimentos das crianças que facilitam as actividades diárias. Aliada à implantação cirúrgica deve existir um trabalho contínuo de reabilitação junto das crianças.

APONTAMENTOS

PARALISIA CEREBRAL

Perturbação do controlo da postura e movimento provocada por uma lesão que ocorreno cérebro em período de desenvolvimento.

CAUSAS 

Hemorragias, deficiência na circulação cerebral ou faltade oxigénio no cérebro, traumatismo, infecções, nascimento prematuro.

SEM CURA

Não há possibilidade de regeneração das células queforam destruídas no cérebro.

O MEU CASO: DAVID DIAS

TERAPIAS SÃO UMA ROTINA

David Dias desloca-se numa cadeira de rodas e comunica através de expressões faciais ou movimentos do corpo. Outras vezes, expressa-se pelo olhar, pelo sorriso ou através de desenhos. Só os pais conseguem perceber alguns sons que vocaliza. Tinha quatro meses quando lhe foi diagnosticada a paralisia cerebral. "Era uma criança muito irritadiça e notámos que ele não estava a ter um desenvolvimento normal. Fomos com ele à pediatra e descobrimos qual era o problema", recorda a mãe, Graça Dias, de 41 anos. A partir daí, a vida de Graça mudou. Desistiu do emprego e passou a dedicar os dias ao filho. "Foi difícil, mas arregacei as mangas e comecei a trabalhar com o David para que a doença não se agravasse", conta.

Aos seis anos, David entrou na escola primária, mas ao fim de três meses saiu porque a escola não estava preparada para receber crianças com necessidades especiais. Actualmente, tem aulas de terapia ocupacional no Centro de Reabilitação de Paralisia Cerebral de Lisboa, que o está a preparar para regressar à escola em Setembro. David trabalha num computador especial, desenvolvido para estas crianças, que estará disponível na nova escola. No Centro faz também fisioterapia. A mãe acompanha-o em todas as sessões.

DISCURSO DIRECTO

"CIRURGIA FACILITA MOBILIDADE" (Manuel Casimiro, Neurocirurgião)

Correio da Manhã – A espasticidade dificulta a reabilitação das crianças com paralisia?

Miguel Casimiro – A espasticidade caracteriza-se por uma contracção muscular que limita o desempenho destas crianças nos exercícios de fisioterapia, fundamentais para a sua reabilitação.

– Quais os benefícios da cirurgia para tratar a espasticidade?

– Na cirurgia é implementado um dispositivo electrónico que administra doses de medicação a um ritmo constante: diminui a rigidez muscular, facilita a mobilidade e evita, a longo prazo, deformidades.

– O dispositivo electrónico exige cuidados especiais ?

– Exige apenas uma consulta clínica uma vez por mês, para reajustar as doses do medicamento.

NOTAS

IMPLANTAÇÃO CIRÚRGICA

São vários os preparativosno bloco operatório da Unidade de Neurocirurgia antesde se proceder à implantação.

HOSPITAL EGAS MONIZ

Único hospital em Portugal que se disponibilizou para fazer o implante cirúrgico a crianças com paralisia cerebral.

FISIOTERAPIA

No trabalho de reabilitação, a fisioterapia é fundamental para melhorar a qualidade da postura e dos movimentos.

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