Vídeo é de um protesto realizado em Londres a pedir justiça pela morte de Maria Luemba.
O vídeo de uma alegada "manifestação de imigrantes angolanos em frente à residência oficial do primeiro-ministro, com ameaças à segurança interna de Portugal", é de um protesto realizado em Londres a pedir justiça pela morte de Maria Luemba.
Alegação: "protesto em frente à residência oficial de Luís Montenegro" ameaça que "as coisas vão ficar feias"
Na quinta-feira, dia 3 de julho, uma conta anónima do X/Twitter de apoio ao Chega, com o pseudónimo 'Sr. Dr. Zé Nunes' e a descrição "Assistente de Bruno Nunes no X- Radicalista do senso comum-Licenciado num domingo", publicou um vídeo de 19 segundos de um alegado "protesto em frente à residência oficial de Luís Montenegro" onde se vê e ouve um manifestante de megafone a dizer que "ou vocês resolvem isso com máxima urgência, ou então as coisas vão ficar feias".
Esse tweet, que não indicava qual a origem e o contexto das imagens, já obteve mais de 23 mil visualizações e largas dezenas de partilhas e comentários, muitos deles de teor racista e com pedidos de deportação devido à "ameaça" feita num protesto junto à residência oficial do primeiro-ministro, em Lisboa.
No dia seguinte, sexta-feira, outra conta do mesmo espetro voltou ao tema. embora sem publicar aquele vídeo. Num tweet já com mais de 154 mil visualizações e centenas de partilhas e comentários, a conta 'Questiona-te' afirma que "a comunidade imigrante de Angola fez uma manifestação em frente à residência oficial do primeiro-ministro e ameaçou a segurança interna de Portugal."
Os autores desse tweet adicionaram a alegação de que "o porta-voz angolano afirmou que as coisas ficarão 'feias' caso bloqueiem a sua entrada em Portugal", afirmação que não existe naquele vídeo (https://archive.is/wEhIC).
Factos: vídeo mostra protesto junto à embaixada portuguesa em Londres e manifestante nega 'ameaças'
Uma pesquisa reversa do fotograma do vídeo que mostra a alegada residência do primeiro-ministro revela em segundos que se trata na verdade de um dos edifícios da embaixada portuguesa em Londres, nomeadamente a residência do embaixador: https://maps.app.goo.gl/SvWpwLD9hp9zFdgb6.
A pista seguinte foram alguns elementos gráficos também visíveis no vídeo e facilmente associáveis a Angola, como o boné do manifestante e uma t-shirt que alguém segura igualmente com as cores angolanas.
Estas duas pistas permitiram realizar algumas pesquisas no Google e em redes sociais como o TikTok, e chegar a um dos vídeos de convocação daquele protesto para o dia 28 de junho, numa iniciativa solidária pela morte de Maria Luemba, uma jovem angolana encontrada morta a 12 de junho, em Sever do Vouga, Aveiro (https://archive.ph/EImaE).
Pesquisas posteriores no Youtube e no TikTok permitiram encontrar vários vídeos do protesto realizado em Londres (exemplo: https://archive.ph/Bp7RQ), incluindo o vídeo original de quase três minutos de onde foram extraídos os 19 segundos que circulam em Portugal (https://archive.ph/K3Mo3).
Nesse vídeo, é possível ouvir uma versão mais completa da intervenção daquele manifestante e o contexto daquelas palavras. Entre as afirmações, destaca-se o "sentimento de tristeza e de revolta" pela morte da jovem, sobretudo "contra a justiça portuguesa e contra o governo português, que está a fazer vista grossa a esta situação".
"Nós não podemos nos calar (...). Estamos chateados com essa situação e vamos deixar já aqui um comunicado ao governo português. Ou vocês resolvem isso com máxima urgência, ou então as coisas vão ficar feias, porque uma vida perdida é uma vida, independentemente da cor da pele, da raça, todos nós temos sangue, o sangue é só vermelho", afirmou o manifestante.
No discurso, foi também pedida a solidariedade do povo português, lembradas outras mortes de africanos em Portugal e criticada a inação do governo angolano. "Chamamos a atenção ao governo e à justiça portuguesa que ponha a mão nisso. Porque se as nossas mães estão a chorar, a mãe de alguém vai chorar também. (...). É melhor começarem a ver isso, porque está a começar a sair o espírito da revolta entre nós. (...) Nós queremos justiça. (...) Se não querem ver as coisas a piorar entre povos, resolvam isso já."
Além destes dados, acresce que a manifestação realizada em Lisboa sobre o mesmo tema decorreu no dia seguinte, dia 29 de junho, com um desfile pacífico entre o Rossio e a Praça do Comércio (https://archive.ph/DOsJF), pelo que os manifestantes nunca estiveram perto da residência oficial do primeiro-ministro, que é o Palacete de São Bento, situado nas traseiras da Assembleia da República.
A morte da jovem Maria Luemba gerou grande consternação na comunidade angolana e não só, porque a família não aceita a tese de suicídio apontada pela Polícia Judiciária. Entretanto, a Procuradoria-Geral da República decidiu abrir um inquérito sobre o caso, como explica aqui o projeto de verificação Polígrafo África: https://archive.is/mpqjf.
Contraditório: "não foi uma ameaça, foi um alerta"
A Lusa Verifica contactou o autor de alguns dos vídeos do protesto em Londres, Kuabo Mabula, cidadão angolano a viver no Reino Unido, que explica que apenas pretenderam passar mensagens de solidariedade e de justiça. "Fui o principal organizador do protesto, que teve um objetivo pacífico de solidariedade para com a família enlutada. Contamos com participantes de vários países, incluindo portugueses, e quem falou disse o que queria, mas a principal mensagem foi a de pressionar o Governo português a atuar".
Através deste contacto foi também possível identificar e chegar à fala com o manifestante que está a ser visado nas redes sociais em Portugal. Isménio Samuel, cidadão com dupla nacionalidade angolana e portuguesa desconhecia que a sua intervenção estava a ser aproveitada pela extrema-direita para o atacar com informações deturpadas.
"Não ameacei ninguém. Fiz um alerta, uma chamada de atenção à justiça portuguesa e ao governo português porque nos sentimos injustiçados com o que se passou e mostrámos o nosso descontentamento. Disse que as coisas podiam ficar feias porque quem sofre uma baixa daquelas tem um sentimento de fúria por não haver justiça. E se não virem justiça as pessoas podem revoltar-se", explica.
Segundo este cozinheiro que vive entre Portugal e Inglaterra, nada o move contra o povo português. "Como disse lá, não é contra os portugueses. Aliás, Portugal também é a minha casa. Vivi toda a minha vida aí, não tenho como falar contra o povo português nem quero fomentar ódio entre os povos. Queremos que haja união, mas não podemos continuar a morrer sem justiça. Uma família que perde um filho sente-se revoltada e quer que o culpado seja penalizado. A mensagem que tentei passar é a de que as autoridades portuguesas não podem fazer vista grossa sobre o que se passou"
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