Hospital Beatriz Ângelo e Linha SNS24 entregam vales com valores que variam entre os 25 aos 100 euros para gastar na cadeia Pingo Doce.
O Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, e a Linha SNS24 estão a oferecer vales de compras para cadeias de supermercados a título de incentivos a prestadores de saúde, medida que "indignou" o BE e ordens profissionais.
No que diz respeito à Linha SNS24, num 'email' ao qual a Lusa teve esta terça-feira acesso lê-se estar em causa "um prémio temporário, associado ao período da pandemia, mas que muito se justifica neste período de grande esforço e dedicação por parte de todos".
A tabela associada ao 'email' aponta para prémios aos enfermeiros que fizerem mais de 40 horas semanais, sendo que os vales, com valores que variam entre os 25 aos 100 euros, são para gastar na cadeia Pingo Doce.
"O valor dos vales varia de acordo com as premissas alcançadas por cada prestador no mês", refere o 'email' dirigido aos prestadores de saúde.
Já quanto ao Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, na Área Metropolitana de Lisboa, o Bloco de Esquerda (BE) questionou esta terça-feira o Governo sobre os incentivos que "a PPP [Parceria Público-Privada], entregue à Luz Saúde, terá aplicado".
De acordo com a pergunta entregue esta terça-feira pelo BE na Assembleia da República, "estes incentivos, que vão dos 100 aos 250 euros em vales de compras", destinam-se a "quem consiga angariar outros profissionais para Unidades de Cuidados Intensivos, Enfermarias e Bloco Operatório".
Os bloquistas descrevem que, no caso da Linha SNS24 os prémios estão a ser oferecidos pela operadora Altice, que é quem detém a gestão da linha.
Em declarações à agência Lusa, o presidente da secção Norte da Ordem dos Enfermeiros considerou estas ofertas "indignas e descabidas" por "faltarem ao respeito" dos profissionais de saúde.
"Ficamos estupefactos com estas duas situações. Nunca tínhamos visto tal. Não se pode tratar os enfermeiros como se estivessem a angariar pessoas para reuniões da 'tupperware'. A classe merece ser respeitada. Se querem reconhecer e fixar enfermeiros então que criem carreiras mais apetecíveis e melhores condições", disse João Paulo Carvalho.
Para o dirigente, este é "um atentado à dignidade", algo que "não garante qualidade ao Serviço Nacional de Saúde, nem recompensa o trabalho árduo de uma classe profissional".
"Isto é pensar tão fora da caixa que já nem existe caixa. É descabido. Mais do que reconhecer e premiar é faltar ao respeito dos profissionais e colocar em causa a sua dignidade profissional e pessoal", acrescentou João Paulo Carvalho.
O BE pediu a atuação do Ministério da Saúde quer por causa das ofertas da Linha SNS24, quer do Beatriz Ângelo.
Para o BE, "esta situação é indigna e insultuosa".
De acordo com o BE, "os profissionais de saúde desempenham um trabalho fundamental na sociedade (principalmente em tempo de pandemia) e devem ser remunerados condignamente por esse mesmo trabalho através de uma carreira e de uma tabela salarial justas".
"O SNS e a saúde não são um esquema em pirâmide para angariação de novos membros e o trabalho dos profissionais de saúde merece bem mais do que um vale de compras e uma palmadinha nas costas", lê-se no comunicado enviado à agência Lusa.
Os bloquistas avançam que enviaram um pedido de esclarecimento ao Ministério da Saúde, no qual defendem que a tutela "deverá intervir face aos vários casos de precarização laboral", exigindo saber "se o Governo irá combater a precariedade associada à covid-19, começando por transformar em permanentes todos os contratos de quatro meses para o SNS".
Questionado pela Lusa, o ministério da Saúde informou ter encaminhado as perguntas para os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde.
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