Estratégia evolutiva permite-lhes atingir uma carga viral suficiente para uma transmissão eficaz sem afetar significativamente a biologia do inseto.
Um estudo revelou o mecanismo que permite que vírus como do chikungunya e do dengue persistam nos mosquitos sem os matar, um fenómeno que facilita a sua transmissão.
A investigação da Universidade Pompeu Fabra (UPF), em Barcelona, com o apoio da Fundação "la Caixa", realçou que este fenómeno permite que o vírus continue a replicar-se sem danificar a célula hospedeira, em vez de assumir o controlo total da maquinaria celular para produzir grandes quantidades de proteínas virais, o que, nos humanos, acaba por destruir a célula.
De acordo com um comunicado divulgado pela Fundação "la Caixa" na terça-feira, o ressurgimento de infeções causadas por vírus transmitidos por mosquitos representa uma ameaça crescente à saúde pública, especialmente porque doenças como a dengue e o vírus do Nilo Ocidental, tradicionalmente confinadas às regiões tropicais e subtropicais, estão a expandir o seu alcance geográfico.
Esta expansão deve-se a múltiplos fatores, desde as alterações climáticas à globalização, mas também existe um aspeto biológico: nos mosquitos, embora o material genético do vírus se acumule nas células, a produção de proteínas virais é limitada.
"É como se o vírus diminuísse o volume da sua própria atividade", resumiu Marc Talló, coautor principal do estudo juntamente com Mireia Puig.
Quando um mosquito pica uma pessoa infetada, adquire o vírus para toda a vida, podendo transmiti-lo a cada nova picada, embora sem sinais evidentes de doença, uma resposta muito mais subtil do que nos humanos, onde a infeção pode danificar ou destruir células e causar sintomas graves.
De acordo com a investigação, nos mosquitos este ajuste subtil é conseguido porque, ao contrário do que acontece nos humanos, o vírus não otimiza completamente a utilização da maquinaria celular.
Esta estratégia evolutiva permite-lhes atingir uma carga viral suficiente para uma transmissão eficaz sem afetar significativamente a biologia do inseto.
Perante estas evidências, os investigadores enfatizaram a necessidade de compreender como os vírus regulam a sua atividade nos mosquitos, pois isso poderá abrir novos caminhos para impedir a sua transmissão.
"Se pudéssemos alterar este equilíbrio, obrigando o vírus a replicar-se descontroladamente ou bloqueando a sua capacidade de persistir, poderíamos impedir que os mosquitos atuassem como vetores de transmissão", explicou Juana Díez, coordenadora do estudo e diretora do grupo de virologia molecular da UPF.
Este estudo foi conduzido utilizando modelos celulares, embora o progresso para futuras aplicações farmacológicas exija a confirmação dos resultados através de análises em mosquitos infetados após se alimentarem de sangue infetado.
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