Que muitos deles se acham donos da verdade ou que outros tantos desprezam conselhos não é grande novidade. Afinal, a História está repleta de exemplos de governantes vítimas do inebriamento causado pelo poder. Mas para David Owen, neurologista britânico, os sintomas acima descritos são característicos de um problema que, apesar de ainda não reconhecido pela Medicina, afecta muitos políticos, sobretudo os que permanecem mais tempo no poder.
Depois de seis anos a estudar o cérebro dos políticos, David Owen decidiu dar nome a uma doença que afecta os decisores. Nasceu assim a Síndrome de Hubris e David Owen sabe do que fala, não tivesse ele também percorrido os corredores da política. Fundador do Partido Social-Democrata (actuais Liberal-Democratas) e ex-secretário do Exterior de Sua Majestade, lançou recentemente um livro, ainda só disponível no Reino Unido, em que emprega a expressão grega hubris (excesso de confiança e orgulho desmedido) para explicar, por exemplo, por que Tony Blair uniu esforços com George W. Bush no Iraque, contrariando quem desaconselhava o recurso às armas.
"A intoxicação provocada pelo poder tolda o julgamento dos decisores", defende. Tony Blair, Margaret Thatcher (nos últimos anos de governação), George W. Bush e Hitler terão sofrido da Síndrome de Hubris na sua forma mais pura, refere David Owen no livro ‘In Sickness and in Power’ [‘Na Doença e no Poder’]. Avança ainda nomes de governantes bem conhecidos, como Theodore Roosevelt, Mussolini ou Mao Tsé-Tung, que diz terem apresentado sintomas hubrísticos, sofrendo ainda de doença bipolar.
"As pressões e a responsabilidade que acompanham o poder acabam por afectar a mente", explicou o especialista em entrevista a um jornal britânico. No novo livro, em que retomou um ensaio publicado no ‘Journal of the Royal Society of Medicine’ acerca do conceito de Hubris, David Owen chama ainda a atenção para as consequências do declínio mental e físico dos governantes dos nossos tempos.
PERFIL
Médico e em tempos político - fundou o Partido Social-Democrata britânico -, David Owen, de 70 anos, casado e pai de três filhos, sempre revelou interesse pelos efeitos da actuação dos governantes na sua saúde. Aproveitou os conhecimentos médicos e a informação recolhida ao longo da carreira parlamentar para estudar o cérebro dos políticos.
DUAS DÉCADAS NO MUNDO POLÍTICO
É uma figura impossível de ignorar no panorama político português. Presidente do Governo Regional da Madeira desde 1978, ou seja, há três décadas, Alberto João Jardim ocupa um lugar na lista de políticos que estão há mais tempo no poder em Portugal. Outros há que como ele fazem há muito da política a profissão, como Manuel Alegre, deputado desde 1975, ou ainda Mário Soares, fundador do Partido Socialista em 1973. A idade não o impediu de em 2005 – e com 80 anos – ser um dos candidatos à Presidência da República nas últimas eleições. Nas autarquias portuguesas há também um resistente: Jaime Soares, presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Poiares, encontra-se em funções há 34 anos, o que o torna num dos mais antigos autarcas no País.
AFECTADOS PELO PODER
Durante anos ocuparam o poder em diferentes partes do Mundo. Segundo a tese de David Owen, não é apenas isso que une os nomes que se seguem: todos eles sofreram ainda da Síndrome de Hubris.
ADOLF HITLER
É um nome que dispensa apresentações pelos piores motivos. Na opinião de David Owen, este é um bom exemplo de um governante completamente dominado pela Síndrome de Hubris.
THEODORE ROOSEVELT
Segundo o médico britânico, o 26.º presidente dos Estados Unidos sofria apenas de alguns sintomas de Hubris, que coexistiam com a bipolaridade que o fazia alternar entre estado maníaco e o depressivo.
BENITO MUSSOLINI
O nome ficou para a História de Itália e do Mundo. Mussolini liderou os destinos italianos durante mais de duas décadas, com um regime ditatorial marcado pelo terror e pela aliança com Hitler.
MARGARET THATCHER
Os sintomas de Hubris manifestaram-se em Margaret Thatcher, primeira-ministra britânica entre 1979 e 1990, na rejeição total da Comunidade Europeia e do que lhe estava subjacente, diz Owen.
MAO TSÉ-TUNG
Governou a China desde 1949 com um pulso de ferro. Estima--se que terá mandado executar durante o seu governo 800 mil dos que se opunham ao regime.
TONY BLAIR
Tony Blair foi um grande defensor da invasão do Iraque. A incapacidade para ouvir os que se lhe opunham merece-lhe um lugar entre os afectados pela Hubris.
GEORGE W. BUSH
Apesar dos resultados da intervenção no Iraque mantém a opinião de que os EUA tiveram razão em invadir o país de Saddam. Nunca deu o braço a torcer.
ALGUNS GOVERNANTES POLÉMICOS DE ONTEM E DE HOJE
12 anos foi o tempo durante o qual Adolf Hitler liderou os destinos da Alemanha, mudando radicalmente a imagem desse país em todo o Mundo.
1959 foi o ano em que Fidel Castro conquistou o poder em Cuba. Manteve--o 49 anos, até ter abdicado, há poucos meses, aos 81 anos.
28 anos agarrado ao poder fazem de Robert Mugabe, presidente do Zimbabwe, um dos líderes mais implacáveis com quem dele discorda.
24 anos à frente do Iraque terminaram para o ditador Saddam Hussein coma morte por enforcamento a 30 de Dezembro de 2006.
4000 soldados norte-americanos já morreram no Iraque, numa guerra apadrinhada pelo presidente dos Estados Unidos, George W. Bush.
1970 foi o ano em que Khadafi se tornou chefe do Estado líbio. O governante mantém-se à frente dos destinos daquele país há 38 anos.
300 mil pessoas morreram durante o governo de Idi Amin, presidente do Uganda nos anos 70 e um dos ditadores mais sanguinários de África.
NOTAS
A ESPERA DA CURA
Por enquanto, diz Owen, ainda não há cura para a Síndrome de Hubris. Por isso há que manter "uma vigilância constante" sobre os dirigentes.
EXCESSO DE CONIANÇA
Hubris é uma expressão usada pelos gregos que define desinteresse pelos outros, excesso de confiança e orgulho desmedido.
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