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Investigadores alertam para maior risco de incêndios devido às alterações climáticas

Relatório aponta três grandes causas para Portugal ter sido nas últimas décadas um dos países europeus com mais área ardida: as condições climáticas, a organização da paisagem e a insuficiente gestão florestal.

30 de junho de 2026 às 12:12

Investigadores da Universidade de Coimbra alertam para o ritmo das alterações climáticas poder ultrapassar os esforços para adaptar a paisagem florestal e preparar a população contra os fogos, pedindo mais investimento na gestão do risco de incêndios.

Esta é uma das conclusões do relatório "Incêndios florestais em Portugal: Mais de 80 anos mostram que o país tem de mudar", divulgado esta terça-feira pela organização ambientalista internacional Greenpeace e elaborado por uma equipa de especialistas, entre os quais Domingos Xavier Viegas.

Após analisarem os incêndios desde 1943, mas focando-se mais nos acontecimentos já deste século, os investigadores concluem que o sistema de combate foi reforçado desde 2017, com mais recursos humanos, melhor coordenação, formação e equipamentos, e que o investimento em prevenção já representa mais de metade do financiamento da gestão do risco.

Os autores do estudo falam em melhorias no sistema de gestão do risco de incêndio e na redução do número de incêndios, mas alertam que "os grandes incêndios são cada vez mais frequentes. Desde 2000, os anos de 2003, 2005, 2017 e 2025 foram excecionais em termos de área ardida e de número de vítimas".

O relatório aponta três grandes causas para Portugal ter sido nas últimas décadas um dos países europeus com mais área ardida: as condições climáticas, a organização da paisagem e a insuficiente gestão florestal.

A equipa aponta a dificuldade de uma gestão eficaz quando cerca de 90% da floresta portuguesa é propriedade privada e, em especial no Norte e Centro do país, a maioria dos proprietários possui apenas pequenas parcelas.

Além disso, muitas propriedades foram deixadas ao abandono entre partilhas de heranças ou pela migração da população que trocou a agricultura pelo trabalho nas cidades. São terrenos muito pequenos e, por vezes, os "processos sucessórios fazem com que os limites e a titularidade de algumas propriedades não estejam claramente definidos. (...) A gestão das áreas florestais não é eficiente nem uniforme", refere o relatório.

O despovoamento das zonas rurais reduziu a capacidade de uma primeira intervenção, alertam os especialistas, recordando programas lançados nos últimos anos, como o "Aldeia Segura, Pessoas Seguras" e o "Condomínio de Aldeia" que conseguiram preparar melhor as comunidades e diminuir o número de ignições.

Mas "o ritmo das alterações climáticas poderá superar os esforços coletivos para modificar a paisagem florestal e preparar melhor os cidadãos para os desafios futuros, a menos que seja atribuída uma maior prioridade nacional à gestão do risco de incêndio", alertam.

As alterações climáticas estão a aumentar os períodos de calor e seca, mas também a frequência de trovoadas, potenciando incêndios provocados por raios.

O estudo mostra que entre 2000 e 2025, as causas naturais representaram 8,15% da área ardida, sendo que em 2025 pelo menos três dos dez maiores incêndios tiveram origem em descargas elétricas, incluindo o maior incêndio de sempre registado em Portugal, iniciado em Piódão.

Quanto às causas humanas, o fogo posto foi responsável por 41,9% da área ardida neste século, seguindo-se as queimadas para gestão de pastagens (11,7%), os reacendimentos (10,4%) e os acidentes, incluindo ignições associadas a linhas elétricas (7,6%).

Apesar de Portugal apresentar uma taxa de sucesso superior a 90% na primeira intervenção, os autores concluem que os incêndios que ocorrem em condições meteorológicas extremas continuam a escapar à capacidade de controlo.

Sendo impossível alterar a topografia ou travar a intensificação dos fenómenos extremos, os especialistas defendem que a gestão do combustível deve assumir um papel central na política nacional de prevenção.

"Erradicar completamente o risco de incêndios florestais é uma tarefa quase impossível", mas é possível dar "uma maior prioridade nacional à gestão do risco de incêndio", defendem no estudo encomendado pela Greenpeace.

A associação ambientalista apresenta um conjunto de exigências para um "futuro mais seguro", defendendo uma ação climática mais ambiciosa, com a eliminação dos combustíveis fósseis e a neutralidade carbónica até 2040, bem como uma gestão anual de pelo menos 1% da área florestal.

A organização pede a limitação da expansão do eucalipto, a promoção de espécies autóctones e o "reforço dos mosaicos agroflorestais" para reduzir o risco de incêndio.

Para a Greenpeace, é preciso uma reforma da gestão florestal, com a conclusão do cadastro, uma gestão conjunta dos minifúndios e uma maior transparência na prevenção.

Defende igualmente o reforço do fogo controlado, a participação das comunidades locais e a criação de uma plataforma pública para monitorizar as ações de gestão de combustível.

Para travar o abandono rural, a organização propõe incentivos aos proprietários pela gestão das terras e pela prevenção de incêndios. Defende ainda um pacto entre Portugal e Espanha para coordenar a gestão da paisagem, partilhar recursos e dados e garantir financiamento europeu para aumentar a resiliência aos incêndios.

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