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Lufthansa diz que crise energética não altera avaliação da TAP no processo de privatização

Além da Lufthansa, também já demonstraram interesse na privatização a Air France-KLM e a IAG, dona da Iberia.

01 de abril de 2026 às 08:10

A Lufthansa afirmou que a atual crise energética, provocada pelo conflito no Médio Oriente, não deverá alterar de forma significativa a avaliação da TAP no processo de privatização.

Num encontro com jornalistas portugueses na sede da empresa, em Frankfurt, o responsável de estratégia do grupo, Tamur Goudarzi Pour, explicou que embora os efeitos imediatos do atual choque - incluindo custos mais elevados de combustível e restrições de tráfego - façam parte dos modelos de avaliação, a Lufthansa não ajusta os valores da sua oferta com base em flutuações semanais ou de curto prazo.

"Não podemos estar a alterar o preço a cada três semanas quando há uma crise", afirmou.

"Temos de olhar para o que é estrutural no setor e internalizar isso na nossa avaliação, sem alterar o preço a cada novo choque", apontou.

Tamur Goudarzi Pour esclareceu que o grupo utiliza cenários - projeções que consideram diferentes evoluções de custos, procura e disponibilidade de combustível - para testar a resiliência dos seus planos e da companhia alvo. Estes cenários fazem parte de um processo mais amplo de 'due diligence', o termo técnico usado para descrever a análise detalhada das contas, operações, riscos e oportunidades de uma empresa antes de uma aquisição.

Nesse contexto, explicou que este processo não se resume a olhar para o resultado de um trimestre, mas envolve uma avaliação ampla de fatores operacionais, financeiros e estratégicos que determinam se um investimento é sustentável ao longo de vários anos.

O responsável reconheceu que a indústria da aviação enfrenta "uma crise estrutural" com várias incertezas que já começaram a moldar rotas, capacidade e procura, mas reforçou que isso não colocará a Lufthansa numa atitude reativa. "Temos sempre de internalizar o que é estrutural, não aquilo que é transitório ou volátil", afirmou.

Tamur Goudarzi Pour disse ainda que a Lufthansa já ajustou a sua própria programação de voos, retirando ligações a algumas cidades do Médio Oriente até ao final de outubro devido ao impacto direto da atual situação geopolítica e energética, e realocando capacidade para destinos com procura mais estável.

Questionado sobre se isso poderia afetar a formulação financeira da proposta para a TAP, o gestor sublinhou que a oferta que será apresentada esta semana já reflete as avaliações mais recentes e que as negociações e 'due diligence' posteriores podem aprofundar esse entendimento.

"O preço de uma oferta não vinculativa é sempre um ponto de partida. Depois há conversas e o processo evolui, e é isso que está previsto neste processo de privatização", acrescentou.

Ao falar sobre a necessidade de olhar para além do curto prazo, sublinhou ainda que fatores como a conectividade global, a complementaridade de redes e a posição estratégica de 'hubs' -- plataforma de distribuição de passageiros - como Lisboa e Porto são elementos que reforçam a avaliação de longo prazo.

Segundo o responsável, apesar das incertezas, os mecanismos de gestão de risco usados pela Lufthansa - incluindo políticas de cobertura de combustível - proporcionam uma base mais robusta para avaliar companhias aéreas em tempos de volatilidade.

Em resposta a perguntas sobre litígios e riscos legais, detalhou que todos esses fatores são analisados também na 'due diligence', fase que antecede qualquer proposta formal.

Entre os casos abordados está a ação da companhia aérea brasileira Azul que reclama o pagamento de 189 milhões de euros, referentes a um empréstimo convertido que não foi reembolsado pela TAP. Além disso, há vários processos laborais de tripulantes que estão a aguardar decisões judiciais.

O caderno de encargos prevê a alienação de até 44,9% do capital da TAP, com 5% reservado aos trabalhadores, ficando qualquer participação não subscrita sujeita ao direito de preferência do futuro comprador.

Além da Lufthansa, também já demonstraram interesse na privatização a Air France-KLM e a IAG, dona da Iberia.

As propostas não vinculativas para a privatização da TAP deverão ser submetidas à Parpública até 2 de abril e deverão incluir uma componente financeira, como o preço oferecido pelas ações e mecanismos de valorização futura ('earn outs').

Os interessados terão ainda de apresentar planos industriais e estratégicos, sinergias e garantias de preservação do estatuto da TAP como operador aéreo da União Europeia.

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