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MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

Mais de metade dos portugueses defende revisão da Constituição

Esmagadora maioria rejeita alterações na proteção laboral.

31 de março de 2026 às 07:31

Mais de metade dos portugueses defende a revisão da Constituição, mas a esmagadora maioria rejeita alterações na proteção laboral, revela um estudo esta terça-feira divulgado segundo o qual dois terços dos eleitores de direita discordam dos princípios constitucionais.

As conclusões constam de um estudo de opinião sobre o que pensam os portugueses da Constituição da República Portuguesa no ano em que se celebram os 50 anos da sua aprovação, coordenado por Pedro Adão e Silva e Isabel Flores, do IPPS-ISCTE. A sondagem contou com 1007 inquiridos e foi realizada em parceria com a GfK Metris.

À Lusa, Pedro Adão e Silva diz que, entre os portugueses, há "uma disponibilidade para rever a Constituição", mas salienta que há uma grande concordância com os seus limites materiais e que quando o estudo foi feito "não se antecipava que no momento em que se tornasse público o tema estaria a ocupar o debate político".

A lei fundamental já foi revista sete vezes desde 1976 e não sofre alterações há mais de 20 anos, mas 58% dos inquiridos estão a favor de uma revisão constitucional, enquanto apenas 14% opõe-se. Nesta questão, 28% não sabe ou não responde.

A defesa de uma revisão constitucional é mais forte entre os inquiridos de direita (69%), mas tem também uma expressão relevante ao centro (55%) e à esquerda (48%).

Questionados sobre sete diferentes possíveis alterações à Constituição, os portugueses mostraram maior apoio à criminalização do enriquecimento ilícito e à redução do número de deputados para 150, ambas com 85% de concordância.

No sentido oposto, num momento em que decorre o debate sobre a flexibilização das leis laborais, permitir o despedimento sem justa causa foi a proposta mais rejeitada entre as apresentadas, com 90% de oposição, seguida da limitação do direito à greve, desaprovada por 74%.

O estudo avaliou também o conhecimento dos portugueses sobre as revisões constitucionais: 51% afirmam que a Constituição foi alvo de algumas revisões, 2% considera que foi profundamente revista, 12% acreditam que nunca foi alterada e 35% admitem não saber.

Pedro Adão e Silva salientou também que existe um "apoio maioritário" ao texto constitucional, apesar da perceção de que alguns direitos, como a saúde ou a habitação, continuam por concretizar.

Os dados recolhidos mostram que metade dos portugueses identifica-se com os princípios consagrados na Constituição, sendo apenas 10% que diz discordar. Porém, cerca de 40% revela indefinição ou desconhecimento: 24% responde não concordar nem discordar e 17% não sabe ou não responde.

Ideologicamente, a discordância é mais expressiva à direita, com apenas 38% dos inquiridos deste campo político a identificarem-se com os princípios da Constituição, face a 51% ao centro e 54% à esquerda.

Segundo Pedro Adão e Silva, o posicionamento ideológico ajuda a explicar estas respostas, mas os fatores mais determinantes são as "circunstâncias económicas e o nível de qualificações".

O estudo mostra, por exemplo, que entre os inquiridos com maiores dificuldades para viver com o rendimento do agregado familiar apenas 30% se identifica com os princípios da Constituição, valor que sobe para 63% entre os que dizem viver confortavelmente.

Também o nível de instrução faz diferença: a concordância com os princípios constitucionais é mais elevada entre quem tem ensino superior (56%) do que entre quem tem ensino secundário (43%) ou o terceiro ciclo (38%).

Quanto à confiança nas instituições, os resultados mostram níveis globalmente baixos. O Presidente da República é a instituição que recolhe mais confiança, com 39% de avaliações positivas, seguido do Tribunal Constitucional, com 34%.

No extremo oposto, surgem o Governo e a Assembleia da República. No caso do executivo, 48% dizem confiar pouco ou nada, enquanto apenas 18% afirmam confiar plenamente. Já em relação ao parlamento, 44% manifestam desconfiança total e só 20% dizem confiar.

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