"Há uma tristeza, mas isto é a natureza, não há nada a fazer", lamentou um morador, enquanto espreitava para a sua casa localizada na Estrada Nacional 347.
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É com tristeza que os moradores da localidade de Marachão, em Figueiró do Campo, no concelho de Soure, assistem à subida da água no vale do rio Ega, mostrando aceitação perante a força da natureza.
"Há uma tristeza, mas isto é a natureza, não há nada a fazer", lamentou José Janeiro, enquanto espreitava para a sua casa localizada na Estrada Nacional 347, na localidade de Marachão, de onde já saiu há 12 noites.
"No rés-do-chão tínhamos salvaguardado tudo, no primeiro andar não tirámos nada. Não imaginávamos que isto fosse [subir] tanto", atirou.
Há três dias que não vinha a esta zona da localidade, mas estimou que a água já possa ter ultrapassado um metro dentro da sua habitação.
"Dá vontade de chorar, dá vontade de ... sei lá, mas temos que aguentar o máximo. Se eu vou ficar triste, os meus também ficam. Temos de nos ajudar uns aos outros" desabafou, emocionado, de olhos postos nos campos agrícolas inundados.
A água também já invadiu o café, a mercearia e as lojas de artigos de pesca e de roupa da localidade, de onde foram retirados todos "os bens movíveis para evitar os prejuízos", mostrou Joaquim Neves, enquanto percorria os espaços vazios.
"Já deve ter água na ordem dos 40 centímetros", atirou, recordando as cheias de 2001 e 2019 que também afetaram os estabelecimentos.
Ao lado, na sua loja de mobiliário de três andares que a depressão Kristin "destruiu", Joaquim já começou a fazer contas aos prejuízos, ponderando fechar portas, depois de já ter feito alguns trabalhos de reparação.
"Já pus as paredes em blocos porque vou fechar. Não faço intenções de continuar. Não tenho capital para repor tudo o que aqui estava", lamentou.
Às contas que continuam a chegar, somam-se os ordenados dos funcionários que, emocionado, disse ter de continuar a pagar, a que acresce a incerteza na obtenção de apoios.
"Estive a preencher o formulário para ver se me conseguia candidatar a alguma coisa, mas, neste momento, é tanta burocracia e não sei se a candidatura vai ou não ser aceite", afirmou, admitindo "desalento".
Junto à capela da localidade, os fuzileiros estiveram hoje à tarde a auxiliar, com botes, a mudança de uma caixa de eletricidade para reposição de energia, o que atraiu alguns moradores, como foi o caso de António Ramos, de olhos postos na casa, já inundada, dos pais, onde cresceu.
"Venho sempre controlar, visualmente, é certo, mas a casa já não tem nada", indicou, salientando que foi tudo retirado antes da depressão Kristin, perante os avisos das autoridades.
António Ramos descreveu a situação como "uma desgraça", defendendo uma intervenção para que o rio Ega tenha possibilidade de entrar com mais facilidade no rio Mondego.
"Isto tem um efeito dominó. Nós aqui costumamos dizer que só há cheias no Marachão quando a água, em vez de descer, sobe", sublinhou, argumentando que a questão tem de ser "politicamente tratada".
Segundo o presidente da Junta de Freguesia de Figueiró do Campo, Rui Baptista, a situação no Marachão, no distrito de Coimbra, "é a mais dramática", com quatro casas evacuadas e a capela inundada.
Na freguesia estão posicionados 10 efetivos, entre os quais quatro fuzileiros, apoiados por dois botes.
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