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Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

Marcelo recorda "papel pioneiro" da jornalista Antónia de Sousa

Presidente da República recordou Antónia de Sousa "como jornalista e defensora da liberdade de imprensa e do pluralismo de opinião."

16 de maio de 2025 às 19:45

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, recordou esta sexta-feira "o papel pioneiro" da jornalista Antónia de Sousa, que morreu na quinta-feira, em Cascais, aos 84 anos.

Marcelo Rebelo de Sousa, numa nota de pesar publicada no 'site' da Presidência da República, recordou Antónia de Sousa "como jornalista e defensora da liberdade de imprensa e do pluralismo de opinião."

A jornalista Antónia de Sousa, pioneira da profissão, coautora, com Maria Antónia Palla, do programa "Nome Mulher" da RTP, sobre a condição feminina e o estatuto da mulher, após o 25 de Abril, nasceu em 22 de julho de 1940, em Santa Marinha, Vila Nova de Gaia.

"Nome Mulher", série transmitida entre 1974 e 1976 (atualmente disponível 'online' nas plataformas da estação pública), retratou a condição da mulher em Portugal, com episódios que foram da situação no interior do país até à figura de Maria Lamas, tendo gerado controvérsia com o trabalho intitulado "O Aborto Não é um Crime", que culminou num processo.

Com a também jornalista Maria Antónia Fiadeiro e Maria Antónia Palla fez parte do chamado grupo "as três Antónias", como foram apelidadas pela antiga primeira-ministra Maria de Lourdes Pintasilgo.

O facto foi recordado por Antónia de Sousa no livro autobiográfico "O Relógio de Cuco", em que lembrou como, em 1977, o jornalista Cáceres Monteiro as convidou para fazerem parte das listas candidatas ao Sindicato dos Jornalistas: "Era a primeira vez que três mulheres se candidatavam à direção do Sindicato. Aceitámos o convite com uma condição: cada uma de nós ocuparia um lugar de topo. Condição aceite."

A carreira de jornalista de Antónia de Sousa passou sobretudo pela imprensa escrita, entre o Diário de Notícias e os vespertinos Diário Popular e Diário de Lisboa, onde, na segunda metade da década de 1960, chegou a uma redação completamente masculina, que veio a considerar uma escola e uma família, como recordou, em 2000, numa entrevista à Antena 1.

Sobre um dos géneros jornalísticos que mais praticou, a entrevista, disse então à rádio pública: "Acho que a entrevista é um ato de sedução. De sedução sem rede, porque se a gente quer que o outro se dê também tem de se dar. [...] Acho que num mundo onde há tanta coisa feia, mostrar a maravilha que é o outro, o que o outro fez, o seu potencial, é uma dádiva. Para nós, para os outros e para a pessoa que está a ser entrevistada".

"Nunca fui dos feminismos", afirmou nessa conversa com Esmeralda Serrano. "Tinha uma postura que muita gente considerava feminista, mas não era nesse sentido. Era sobretudo porque considerei que a mulher é uma pessoa e é como pessoa que tem de ser tratada, é como pessoa que tem de atuar no mundo, com as suas capacidades, exercendo-as".

No Diário de Notícias, foi jornalista de grande reportagem, destacando-se pelos artigos sobre património cultural histórico e pelas entrevistas, designadamente a Marcelo Rebelo de Sousa, atual Presidente da República, ao filósofo Edgar Morin e ao escritor António Quadros.

A jornalista foi autora do livro "Diálogos com Agostinho da Silva. O Império Acabou. E Agora?", resultado de um conjunto de conversas que gravou nos anos de 1986 e 1987 com o pensador, publicado pela Editorial Notícias.

Antónia de Sousa escreveu também "As Mulheres na Vida de Honoré de Balzac", publicado pela Portugália. Em 1971, Antónia de Sousa tinha publicado o livro "O Mercado do Trabalho e a Mulher", publicado pela Editorial Arcádia.

O velório da jornalista decorre esta tarde na Basílica da Estrela, em Lisboa, onde, no sábado, às 10:30, haverá um serviço religioso. O funeral seguirá depois para o Cemitério dos Olivais, onde terá lugar a cerimónia de cremação.

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