A especialista em Ciências da Educação e ex-presidente do Conselho Nacional de Educação tinha 84 anos.
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Morreu Maria Emília Brederode dos Santos, aos 84 anos. Presidiu ao Conselho Nacional de Educação entre 2017 e 2022. A notícia foi avançada pelo jornal Expresso.
Nascida a 21 de março de 1942, em Lisboa, mais concretamente em Campo de Ourique, os pais faziam parte da oposição democrática ao Estado Novo. A mãe era aristocrata, filha de um republicano que foi o fundador da primeira companhia de seguros portuguesa. "Penso que, à época, os seguros apareciam como uma forma de proteção social dos mais vulneráveis. Sei também que ele tinha uma forma de gestão dessa companhia de seguros interessante, dividia os lucros com os trabalhadores. Era um humanista a sério", chegou a lembrar em declarações ao Esquerda.net. Já o pai foi advogado e um dos primeiros casos que teve foi defender um dos autores do atentado contra Salazar.
Frequentou a Escola Inglesa e o Liceu Francês Charles Lepierre, nas Amoreiras, e no secundário foi estudar para os Estados Unidos, para frequentar um liceu na Califórnia. Durante esse ano conheceu John F. Kennedy. "Como o Kennedy, que apesar de ainda não o ser formalmente, já se preparava para ser candidato à presidência da República, ia passar por ali, ele convidou-me a assistir a um dos comícios, caso os meus pais americanos dessem autorização. Lá fui. Falei diretamente com o Kennedy, que me perguntou: 'Como está o meu amigo Salazar?'. Ao que respondi: 'Está muito mal, não devia ser amigo dele'. Ele disse 'o meu amigo' de forma um pouco irónica. De facto, como pude verificar pelo resto da conversa, ele tinha imensa informação sobre o que se passava em Portugal", recordou.
De volta a Portugal cursou Direito e cruzou-se com Jorge Sampaio, Vítor Wengorovius, Jorge Santos, José Vera Jardim ou Joaquim Pires de Lima. Depois de fazer os exames de direito - queria provar ao pai que era capaz -, mudou-se para o edifício do outro lado da alameda das universidades, para Letras e começou uma oposição ao regime mais intensa.
Foi presidente do Instituto de Inovação Educacional do Ministério da Educação de 1997 a 2002 e representante do Ministério da Educação na Comissão Nacional para a Educação em matéria de Direitos Humanos (Comissão Nacional para a Celebração do 50.º Aniversário da Declaração Universal dos Direitos do Homem e da Década das Nações Unidas para a Educação dos Direitos Humanos) de 1998 a 2004. Foi diretora pedagógica do programa televisivo e da revista Rua Sésamo (1987 a 1997) e autora do livro Aprender com a TV, 1991 (Learning with TV, CTW, 1992).
A Rua Sésamo
Em 1987 foi escolhida para ser a diretora pedagógica do programa televisivo e da revista Rua Sésamo. O programa nasceu nos Estados Unidos para ensinar crianças de bairros mais pobres a ler e contar e em Portugal surgiu também com um princípio educativo forte.
Quando aceitou o convite apenas 30% das crianças portuguesas - dos 3 aos 5 anos - andavam no jardim de infância. Em 2020 explicava à SÁBADO que todas as personagens que apareceram na versão portuguesa tinham um princípio educativo. O Poupas Amarelo representava um menino de cinco anos e o Gil (interpretado por Pedro Wilson) foi escolhido porque a equipa queria ter uma criança de origem africana para que as crianças se dessa origem que viam o programa se pudessem identificar. "Queríamos dar-lhe uma profissão muito valorizada, por isso, era médico. Depois, com as raparigas, tínhamos a preocupação de fazer com que trabalhassem, que fossem ativas. As crianças gostavam muito da Guiomar, diziam que era bonita, porque tinha os cabelos compridos. A Alexandra Lencastre nem gostava do nome da personagem, mas lá a consegui convencer", acrescentou na altura.
Maria Emília Brederode Santos foi eleita Presidente do Conselho Nacional de Educação pela Assembleia da República em novembro de 2017.
Foi agraciada em 2004 com a Ordem da Instrução Pública pelo Presidente da República Jorge Sampaio.
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