Financial Times contabiliza 122 mil mortes a mais em 14 países nos meses de março e abril, face à média dos últimos cinco anos. Portugal tem o segundo menor desvio (10%) a nível europeu, só superado pela Dinamarca.
"Se queremos compreender a forma como os diferentes países responderam à pandemia e como é que ela afetou a saúde da população, a melhor maneira é contar as mortes por excesso". O aviso é de David Leon, professor de epidemiologia da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, citado pelo Financial Times, que estima que as mortes por covid-19 podem ser 60% superiores às que estão registadas nas estatísticas oficiais.
Comparando o total de mortes nos meses de março e de abril num total de 14 países, incluindo Portugal, com a média registada no mesmo período nos cinco anos anteriores, os resultados mostram 122 mil mortes em excesso, quando as fatalidades provocadas oficialmente pela covid-19 justificam apenas 77 mil nestas mesmas localizações.
No caso português, as mil mortes a mais, face à média verificada entre 2015 e 2019, equivalem a um aumento de 10%. Ainda assim, esta é a segunda percentagem mais baixa no conjunto dos países europeus estudados pelos analistas do jornal britânico, apenas acima da Dinamarca (5%). Os maiores desvios são na Itália (90%), Bélgica (60%), Espanha (51%) e Holanda (42%).
Na semana passada, a diretor-geral de Saúde, Graça Freitas, já tinha abordado estes valores na habitual conferência de imprensa diária – os dados de março, já fechados, registaram mais 542 mortes face à média dos últimos cinco anos –, frisando que os picos "deram-se sobretudo à conta da mortalidade de pessoas com 85 ou mais anos", mas assegurando que os "números estão agora a baixar, aproximando-se dos valores normais".
Parte deste aumento de mortalidade tem sido justificado com o adiamento de tratamentos ou com o medo das pessoas se deslocarem aos hospitais. Porém, os números apresentados pelo FT esta segunda-feira, 27 de abril, mostram que este fenómeno do acréscimo total de mortes é mais visível precisamente nas regiões ou localidades que têm sido mais afetadas pelo novo coronavírus, como Bérgamo (464%), Nova Iorque (200%) ou Madrid (161%).
Ao mesmo jornal, uma especialista em demografia de uma universidade na República Checa, Markéta Pechholdová, sublinha que a estimativa de mortes por covid-19 não contabilizadas poder rondar os 60% pode ser até conservadora. É que, devido ao confinamento decretado, todos os países registaram uma quebra de óbitos por outras causas, como acidentes rodoviários ou acidentes de trabalho.
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