O navio está em processo de insolvência.
A 5 de novembro de 1961, há 55 anos, o paquete "Funchal" dobrava o promontório do Garajau e dava-se a mostrar, num domingo chuvoso, aos milhares de pessoas que o aguardavam na baía da cidade que lhe deu o nome.
O novo navio da frota mercante portuguesa, encomendado pela Empresa Insulana de Navegação (EIN) a um estaleiro dinamarquês, irrompia, assim, na enseada do Funchal, rasgando águas atlânticas, naquela que foi a sua primeira escala na carreira entre Lisboa e as então denominadas ilhas adjacentes, Madeira e Açores.
Lançado à água na Dinamarca a 10 de fevereiro de 1961, o navio só teve viagem inaugural nove meses depois, com partida do porto de Lisboa a 04 de novembro, com 206 passageiros, escalando o Funchal, Ponta Delgada e Angra do Heroísmo. No Funchal, recolheu mais 113 viajantes.
No dia da chegada ao território madeirense, o Diário de Notícias da região estampava "O 'Funchal' na sua primeira viagem chega hoje ao nosso porto" e o Jornal da Madeira anunciava "'Funchal' - nova cidade transatlântica visita hoje a Madeira".
O navio tinha casco preto, superestrutura branca e chaminé amarela rematada por uma lista preta.
"Lembro-me desse dia", recorda Rui Camacho, que se tornou passageiro frequente na ligação com São Miguel, ilha onde o pai geria a Fábrica de Tabacos Estrela e para onde se dirigia todas as férias de verão, até 1972.
"Encontrava-me na cidade, pois a hora da chegada tinha sido anunciada pelos jornais e milhares de pessoas fixavam, então, o olhar para a zona do Garajau, à espera que o 'Funchal' aparecesse", relata, em declarações à agência Lusa.
Rui Camacho narra que o navio "vinha todo embandeirado" e "quando apareceu foi um sucesso, aclamado pelas pessoas e saudado pelas embarcações que apitavam".
O Diário de Notícias da Madeira indicava, então, que os administradores da EIN, o ministro das Obras Públicas do Governo de Oliveira Salazar, Eduardo de Arantes e Oliveira, que viajava no navio, e as autoridades regionais estiveram presentes na inauguração, que terminou com "um beberete realizado no salão de jantar da 'Turística A'".
A inauguração foi simples e contida. Na edição do dia anterior o matutino indicava mesmo que, devido ao "momento nacional" criado pela eclosão da guerra colonial em Angola e pela anexação de Dadrá e Nagar Haveli pela União Indiana (territórios que desde 1779 faziam parte do Estado Português da Índia), não se realizaria a bordo "qualquer ato festivo em comemoração da viagem inaugural".
Já sobre a chegada, o Jornal da Madeira publicava uma "Nota do Dia" apontando que o navio faria "ligações marítimas regulares e semanais com a Mãe Pátria".
Para Rui Camacho, a embarcação revolucionou a linha, pois em 24 horas estava no destino, enquanto outros levavam três dias.
"Foi maravilhoso", afirma, acrescentando que era "um navio com muita qualidade, muita comodidade, e oferecia muitas atividades lúdicas e um serviço de refeições que incluía pequeno-almoço, almoço, lanche, jantar e ceia e, já na altura, dispunha de um espaço para as crianças".
Rui Camacho recorda ainda a folia e a animação quando viajavam os universitários, sobretudo os estudantes de Coimbra.
Contudo, com a concorrência do transporte aéreo, o navio "Funchal" - que em 1972 transportou os restos mortais de D. Pedro IV de Portugal para o Brasil, numa viagem que contou com o então Presidente da República, Almirante Américo Thomaz -- perdeu importância e, em 1972, foi remodelado para servir viagens turísticas internacionais.
Volvidos 55 anos, o único paquete português encontra-se imobilizado, desde fevereiro de 2015, no cais da Matinha, no Tejo, na sequência de várias deficiências técnicas que o retiveram na Suécia, em Gotemburgo, por ordem das autoridades marítimas suecas.
O último cruzeiro do "Funchal" foi realizado na passagem de ano 2014/2015, com escalas no Funchal e no Porto Santo.
Em 2015, foi proferida a sentença de declaração de insolvência da Pearl Cruises - Transportes Marítimos Unipessoal, última empresa proprietária do navio, por dívidas.
"Podem fazer um museu ou um hotel flutuante, como acontece em vários navios emblemáticos por esse mundo fora", sugere Rui Camacho, sócio do Clube de Entusiastas de Navios e que tem fobia em viajar de avião.
O administrador judicial da Pearl Cruises referiu à Lusa que "o navio ainda se encontra em processo de insolvência" e que "está à procura de comprador que satisfaça aquilo que se pretende".
"Não está acordada a venda com ninguém, o barco está no mercado internacional, tanto pode ir para o estrangeiro como pode ficar em Portugal. Tudo é possível neste momento", admitiu, afirmando que "o abate está fora de causa".
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.