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O dominó, pulseiras e livros que unem alunos e idosos em projeto num lar do Porto

Iniciativa abrange alunos dos 3 aos 18 anos.

11 de março de 2026 às 08:56

O uso do dominó para ensinar cálculo mental, fazer pulseiras para melhorar a motricidade dos pulsos e escrever memórias num livro, estimulando a leitura, são algumas das propostas do projeto Intgerações, em curso num lar do Porto desde 2025.

Dinamizado pelo Agrupamento de Escolas Garcia de Orta, a atividade decorre uma vez por semana no lar Rainha D. Beatriz e integra o Projeto Educação para a Saúde, contou à Lusa a responsável, a psicóloga Cláudia Guedes.

A iniciativa abrange alunos dos 3 aos 18 anos e pretende "pegar no expectável que cada aluno aprenda por ciclo e juntar-lhe outras competências, nomeadamente o voluntariado, combate ao idadismo, desenvolver da solidariedade, empatia e do respeito pelo outro", resumiu a responsável do agrupamento.

O lado prático do projeto, explicou Cláudia Guedes, promove junto dos alunos mais pequenos o hábito de fazer cálculo mental através do hábito de jogar dominó com os idosos, que ao ensinar-lhes a jogar, criam neles o hábito de somar.

Doze idosas do lar participam na atividade, uma parte delas já num quadro demencial, mas capazes de sentir prazer e alegria no tempo que passam com os jovens, assinalou a psicóloga.

A Lusa acompanhou a leitura de um poema feito e lido pelos alunos do 3.º ano da Escola São João da Foz às idosas feito a partir das palavras-chave lar, Beatriz, Rainha e São João da Foz. Posteriormente, com a ajuda das idosas, os alunos foram desafiados a escrever um acróstico, trabalhando ambos, assim, a memória e a imaginação, contou.

Fazer pulseiras e, com isso, trabalhar a motricidade, porque muitas das crianças passam muito tempo em frente aos teclados, 'tablets', telemóveis ao mesmo tempo que se ajuda as idosas, que apresentam alguns problemas na extremidade dos dedos e o trabalhar com agulhas vai ser muito benéfico, é outra das propostas disse Cláudia Guedes.

Do projeto faz também parte a recolha de memórias dos idosos para elaborar um livro, dessa forma trabalhando a escrita e a leitura entre os mais novos, lê-se ainda no programa do projeto.

A diretora do lar, Maria Inês Santos revelou à Lusa ter aceitado de imediato a proposta para adotar o Intgerações e admite que o projeto "tem margem para crescer, pois as atividades são um bocadinho diferentes" das que diariamente têm no lar situado na zona da Foz.

Questionada sobre os ganhos, respondeu serem "muitos" para logo depois lamentar que os utentes "embora tenham muitas visitas, por via da regra as visitas são filhos, genros, noras e não crianças".

"Poucas idosas têm visitas de netos. E por isso faz bem a estas senhoras lembrar-lhes o amor e o afeto que elas teriam se estivessem em casa ou se os netos as viessem visitar", sublinhou.

Maria do Carmo Abreu, de 92 anos, testemunhou à Lusa a alegria pela partilha com os jovens, afirmando "aprender e ganhar muito" com a presença dos alunos, mas confessando, quando lhe foi pedido para escrever também o seu acróstico "já não ter cabeça para estar a escrever".

Entre os jovens, Vicente Gomes, de 09 anos, resumiu numa frase o prazer que lhe dá participar no projeto: "Porque falamos com velhinhas, que podem estar sozinhas, e porque são muito queridas e podemos ajudá-las a aprender também. Elas ensinam-nos coisas antigas, como fazer crochê".

Sara Freitas, da mesma idade, manifestou o mesmo gosto pela atividade de aprendizagem com os mais idosos e, quando questionada se preferia ir mais vezes para o lar foi clara na resposta: "quando vimos para aqui é melhor para nós. Gostavas de vir mais vezes".

Cláudia Guedes revelou, entretanto, que o entusiasmo pelo projeto já fez surgir "listas de espera de pessoas e de turmas de ciclos diferentes, bem como os pais dos alunos, que perguntam o que é preciso", desvendando que "um outro lar já perguntou sobre o projeto".

"Os meninos chegam a casa muito felizes, ficam ali a falar na atividade até à semana seguinte. Já tive o 'feedback' que as senhoras estão a falar que isto poderia ser todos os dias", concluiu.

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