Diretor de serviço de Cardiologia da ULS Santo António, André Luz, referiu na quinta-feira que mais de 10 doentes morreram nos últimos três anos devido a uma "lista de espera demasiado elevada".
A Ordem dos Médicos exigiu esta sexta-feira às autoridades de Saúde, com "absoluta urgência", o apuramento "rigoroso e transparente" dos factos relacionados com a alegada morte de 10 doentes em lista de espera para cirurgia cardíaca.
"A Ordem dos Médicos enviou um ofício à Direção Executiva do Serviço Nacional de Saúde (DE-SNS) a exigir o apuramento rigoroso e transparente de todos os factos, designadamente a identificação do número de mortes ocorridas em lista de espera, a caracterização clínica dos casos, os tempos médios e máximos de espera e as condições organizativas que possam ter contribuído para estes desfechos", lê-se num comunicado da ordem.
Em entrevista à RTP, o diretor de serviço de Cardiologia da ULS Santo António, André Luz, referiu na quinta-feira que mais de 10 doentes morreram nos últimos três anos devido a uma "lista de espera demasiado elevada" só na Unidade Local de Saúde Santo António.
Esta sexta-feira, a Ordem dos Médicos (OM) disse que, a confirmarem-se, estes factos representam "uma falha grave na resposta assistencial e colocam em causa princípios essenciais de equidade, qualidade e segurança dos cuidados prestados às pessoas com doença cardíaca".
A organização exigiu por isso um esclarecimento, "com caráter de absoluta urgência", tanto da DE-SNS, "cuja atuação nesta matéria se tem revelado manifestamente insuficiente", como do Ministério da Saúde, "a quem compete assegurar a tutela efetiva, a coordenação estratégica e a responsabilização política das decisões tomadas".
Já esta sexta-feira o bastonário dos médicos tinha dito à agência Lusa que a Ordem espera que a tutela apure a notícia e tome medidas imediatas.
"Temos que perceber exatamente quantas pessoas é que morreram em lista de espera porque não tiveram a sua cirurgia atempadamente e temos que encontrar soluções", afirmou Carlos Cortes.
As declarações de André Luz surgiram no dia em que o Diário de Notícias (DN) noticiou que quatro hospitais do Norte com serviços de cardiologia subscreveram uma carta sobre o panorama na cirurgia cardíaca na região, missiva que será dirigida à ministra da Saúde, na qual alertam para a lista de espera de doentes com problemas cardíacos a necessitar de cirurgia ou de implantação de válvula aórtica.
De acordo com o jornal, subscreveram esta carta os serviços de cardiologia da ULS Santo António, no Porto, a do Tâmega e Sousa, que abrange 11 municípios, a ULS de Trás-os-Montes e Alto Douro, com sede em Vila Real, e a que gere o Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos.
À ULS Santo António é atribuída a ambição de criar um centro de referência desta área, enquanto o serviço de cardiologia da ULS Tâmega e Sousa já esclareceu que não tem essa pretensão e o diretor do serviço de cardiologia da ULS de Trás-os-Montes e Alto Douro (ULSTMAD) admitiu que é ambição desta unidade realizar intervenções cardíacas percutâneas, mas garantiu não estar em causa o esvaziamento dos centros de cirurgia cardíaca existentes.
Atualmente, doentes que necessitem de intervenções nesta área são referenciados para os centros de referência da ULS São João, no Porto, ULS de Vila Nova de Gaia/Espinho, bem como da ULS Braga, onde abriu há dois meses uma estrutura deste género que está a trabalhar a 20% da sua capacidade.
No comunicado desta sexta-feira, a OM lembrou que a escassez de médicos especialistas em cirurgia cardíaca é uma realidade conhecida e alertou para "os constrangimentos orçamentais que infelizmente o Orçamento de Estado de 2026 está a impor".
"A Ordem dos Médicos sublinha que a gestão de listas de espera para procedimentos de elevada complexidade não pode ser tratada como mera variável administrativa. Exige planeamento estratégico e monitorização contínua".
Na quinta-feira à noite, fonte da ULS Santo António disse à Lusa que o conselho de administração desta unidade do Porto não se iria pronunciar.
A agência Lusa solicitou esclarecimentos ao Ministério da Saúde e à DE-SNS e aguarda resposta.
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