Pessoas que não recorriam anteriormente a associações precisaram de o fazer.
2020 é um "ano do meio" para Paulo, nem bom nem mau, porque já passou por muito pior e conseguiu ultrapassar, mas a pandemia afetou fortemente as pessoas sem-abrigo, deixou vidas suspensas e trouxe novos casos às associações.
Na Cais, uma associação que trabalha junto de pessoas em situação de privação, exclusão e risco, social e economicamente vulneráveis, ainda se está a avaliar o impacto que a pandemia de covid-19 teve junto destas pessoas, mas já é possível saber que as consequências se sentiram sobretudo ao nível do isolamento, na saúde mental e nos seus rendimentos.
Além disso, revelou Gonçalo Santos, diretor técnico da associação, a pandemia trouxe novos rostos, pessoas que não recorriam anteriormente aos serviços da Cais, mas que precisaram de o fazer "porque viram-se, a si e à sua família, numa situação a que não estavam habituados".
"Tínhamos pessoas que nos chegavam numa situação de emergência e tínhamos também pessoas que nos chegavam já numa situação de desemprego e à procura de uma alternativa rápida para que a situação não se agudizasse", explicou.
Olhando para o número de pessoas apoiadas entre o primeiro e o segundo trimestres deste ano, Gonçalo Santos adiantou que houve um aumento de cerca de 50% em termos de procura, uma tendência que tem vindo a diminuir ao logo do segundo semestre, "à medida que novas medidas e novas políticas entraram em vigor" e "à medida que as pessoas foram reorganizando a sua vida".
No início deste ano, Paulo estava desempregado, mas à espera de ser chamado para trabalhar num supermercado, "entretanto meteu-se isto da pandemia" e teve de ficar em casa juntamente com o companheiro, também ele vendedor da revista Cais.
Valeu-lhes a ajuda da associação, com dinheiro e alimentos, mas também dos vizinhos, um dos quais que até pagou a conta da luz.
Sem essa ajuda, admite, "se calhar passava fome", mas Paulo não é pessoa de baixar os braços porque já passou por "momentos muito piores", quando deixou a aldeia onde nasceu, perto do Bombarral, e partiu para Lisboa, onde andou "aos trambolhões" e ficou sem-abrigo.
"[2020] Não é um ano bom nem mau, é um ano do meio, para mim considero isso porque consegui ultrapassar tudo e isso é um fator que diz tudo", diz, recordando os tempos em que "queria dinheiro para comer e não tinha nem um euro".
Para se sustentar a si e à filha de 18 anos, João conta com a venda da revista Cais e os 280 euros que recebe de reforma por invalidez.
"Antes de aparecer isto da pandemia eu conseguia fazer mais ou menos em revistas 200 e tal euros. Agora, desde que isto entrou, nem metade eu consigo fazer, se fizer 100 euros é muito", lamentou.
Vende a revista há três anos e assume-se como "um homem muito feliz", que nunca perde a esperança.
"E não vou perder. Já passei momentos muito difíceis, piores do que o que estou agora a passar e não quer dizer que não esteja a passá-los, mas se consegui superá-los temos de conseguir viver um dia de cada vez", disse João.
Ainda assim, olha para 2020 como o pior ano da sua vida: "Para mim foi, nunca passei um ano com uma pandemia destas com a idade que eu tenho, não tem explicação"
No caso de Rui, a Cais surge como a oportunidade para fazer uma formação e encontrar um emprego, depois de haver estado inscrito no gabinete de emprego da Junta de Freguesia de Alcântara.
"Em fevereiro de 2020, este ano já, em princípio tinha sido escolhido para ingressar numa empresa, dei os meus dados, dei tudo, número de contribuinte, IBAN, só que entretanto começa a covid em Portugal e o que acontece é que foi tudo por água abaixo", contou.
Antes disso, respondeu a "centenas e centenas de anúncios" e já tinha ido a algumas entrevistas.
"Com a notícia de que tinha sido aprovado, obviamente que fiquei contente, só que, entretanto, gorou-se a expectativa", lamentou, acrescentando que até agora não foi possível encontrar outra oferta de emprego.
Não fosse a pandemia, "com certeza estaria a trabalhar e estaria mais descansado em relação ao futuro imediato, assim não".
De acordo com Gonçalo Santos, as ofertas de emprego diminuíram drasticamente como consequência da pandemia, mas ainda assim a CAIS conseguiu empregar 30 pessoas entre março e novembro, o que "representa cerca de um quarto" do total de pessoas apoiadas pela associação.
Normalmente quem chega à Cais passa por várias fases, desde integrar atividades educativas e ocupacionais, a ações de desenvolvimento pessoal e social, para depois integrarem o programa de capacitação e empregabilidade e conseguirem um emprego.
"O que aconteceu foi que muitas das pessoas que já estavam nesse processo de repente viram-se suspensas nas suas oportunidades de estágio, em alguns casos temporariamente, noutros ainda está suspensa a sua integração em posto de trabalho. E, portanto, para pessoas que fizeram um percurso longo e estavam prestes a entrar nesta reta final supermotivadas, isto teve um grande impacto porque na altura em que mais precisavam tudo parou", apontou o diretor técnico da Cais.
Segundo Gonçalo Santos, apesar de tudo, o setor social "respondeu bastante bem" às necessidades de quem precisou da sua ajuda e adiantou que a preocupação está agora no futuro próximo.
"Receamos que durante o próximo ano, quando um conjunto de medidas se alterarem, nomadamente quando as moratórias terminarem, que voltemos a ter um 'boom' na procura como aconteceu na última crise financeira e que de repente haja um aumento exponencial na procura dos nossos serviços e de um público alvo mais diferenciado, que terá mais competências, mas irá sofrer pela falta de ofertas que calculamos que irá haver", apontou.
Por enquanto, a CAIS acompanhou cerca de 130 pessoas no seu centro em Lisboa, cerca de 50% das quais são novos casos.
Apesar do aumento de novos casos, o número de pessoas e respetivos agregados familiares ajudados pela Cais deverá rondar os 600 no final do ano, aproximadamente o mesmo de 2019.
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