Apesar de ser um percurso mais longo.
A grande maioria dos peregrinos opta pela estrada nacional, mas há quem escolha um percurso mais longo, pelos campos, onde se encontra paz, segurança, sossego e uma outra forma de viver o caminho, longe do fumo e dos carros.
"É muito mais tranquilo, mais calmo, mais bonito e mais económico", disse à Lusa Fernando Azevedo Silva, de 41 anos, que trocou há quatro anos a estrada nacional, "os carros, o fumo e o calor", por um percurso pelos campos até Fátima, parte dele comum ao Caminho de Santiago.
Este ano, faz a sua 11.ª peregrinação: o vila-condense diz que encara o próprio processo do caminho "de uma maneira diferente".
"É um diálogo interior, em que nos libertamos do que nos rodeia no dia-a-dia e buscamos novas energias. Na estrada, as pessoas até podem ter a sua devoção, mas o percurso é massacrante e acabam por não pensar devidamente. Querem é chegar rápido", contou.
Rodrigo Cerqueira, presidente da Associação de Amigos dos Caminhos de Fátima (AACF), já conduziu pelo caminho alternativo, sinalizado com setas azuis entre Lisboa e Santiago de Compostela, 845 peregrinos. A associação tem oito anos de atividade e ajuda de forma voluntária na preparação do percurso, na sinalização, indica locais onde ficar e disponibiliza o caminho em formato digital, podendo ser utilizado em GPS.
Para Rodrigo Cerqueira, a peregrinação tem de começar a ser preparada "dois meses antes", identificando as melhores mochilas para o caminho, a roupa e o calçado adequados e até a quantidade de água que cada um tem de levar.
O interesse pela peregrinação que é feita maioritariamente pelos campos tem aumentado. O telemóvel de Rodrigo começa a tocar às 07h00, com pessoas "constantemente a ligar, com questões sobre onde dormir ou como planear etapas".
"É impressionante", comenta, considerando que não faz "sentido sofrer pela estrada".
A associação, que não é apoiada pelo Santuário de Fátima, diz que é necessário "mudar a mentalidade das novas gerações", sublinhando que uma recomendação, "no sentido pedagógico, seria muito importante".
Pedro Regufe, da Póvoa de Varzim, começou a peregrinar pelo IC2, mas trocou também a estrada pelo campo e, apesar de demorar mais dois dias a chegar a Fátima, o sossego compensa.
Na nacional n.º 1, "há confusão, poluição, barulho, medo e ao terceiro e quarto dia já não se peregrina. É saturante", comenta.
"Fixam-se na chegada e esquecem-se do caminho, da interiorização e da partilha. Pelo campo, temos uma catequese todos os dias, que são os próprios habitantes que nos dão, que choram connosco e contam as suas histórias. Pela estrada, isso não é possível", realça Cristina Moreira, da Maia.
A pensar na necessidade de se encontrarem "soluções para a segurança dos peregrinos", 14 municípios de Gaia até Ourém decidiram juntar-se e criaram a Associação Caminhos de Fátima para desenvolver um itinerário alternativo até ao Santuário, explanou o presidente da Câmara de Pombal, Diogo Mateus, acrescentando que este não entrará em conflito com o já existente.
O projeto tem uma "perspetiva religiosa, mas também de caráter cultural", marcando um percurso que tenta retirar "o máximo de quilómetros possíveis do IC2", ao mesmo tempo que não torna o caminho mais longo.
A iniciativa, com um orçamento global estimado em seis milhões de euros, deverá ser apoiada por fundos comunitários e a meta é ter o percurso "bem identificado e disponível" aquando da chegada do papa a Fátima em 2017, informou.
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