A atitude repete-se e começa a ser preocupante: "Professor, vou-te partir os óculos!" Ao ouvir a frase, proferida por um aluno de 12 anos, do 1º Ciclo da Escola Básica Integrada de Pereira, em Montemor-o-Velho, o docente ainda conseguiu virar-se, mas não a tempo de evitar o estrago.
'Já estava a dobrar os óculos com as mãos', contou ontem ao CM o professor, que pediu para não ser identificado, lembrando que não é a única vítima do rapaz com necessidades educativas especiais. Há pelo menos cinco casos. O aluno ataca sobretudo os óculos de docentes e funcionários. Uma das últimas vítimas foi uma 'colega que me substituiu', em Outubro de 2007, diz o docente. Após uma repreensão, por agredir outras crianças, 'arrancou-lhe os óculos da cara com uma mão e atirou-os ao chão', conta uma testemunha. Como não se partiram e a professora os recolocou na cara, 'arrancou-os novamente e esmigalhou-os com as próprias mãos'. No mesmo dia, 'atirou também ao chão os óculos de dois técnicos que prestam apoio a crianças com necessidades educativas especiais. Não se partiram, mas sofreram danos e tiveram arranjo'.
O primeiro caso registado data de 2 de Outubro de 2007 e o lesado foi um professor que já não se encontra na escola. Recentemente, 'retirou os óculos da cara a outra colega, mas por sorte não se partiram'. E também já destruiu os seus próprios óculos por duas vezes.
Sempre que destrói um par e a vítima aparece com uns novos, é normal o aluno reagir, em tom de gozo. 'Ó professora, tens uns óculos muito sexy!', recorda uma das docentes.
Alguns funcionários já escondem os óculos antes de entrar numa sala onde o rapaz esteja ou quando se cruzam com ele. 'Mal o vejo, tiro-os logo. Ele é muito rápido e quando damos conta já estão na mão dele a ser dobrados', explicou um docente.
PROFESSORES TÊM DE PAGAR A DESPESA
As vítimas dos ataques do aluno criticam o facto de terem de suportar os prejuízos. Segundo uma das docentes, o seguro escolar não cobre este tipo de danos e a mãe da criança 'diz que não está para pagar óculos a ninguém'. O professor que denunciou o caso acusa a encarregada de educação de não assumir a responsabilidade pelos actos do filho e de o ter 'induzido em erro', no sentido de prestar à companhia de seguros 'declarações que não correspondiam à verdade, referindo que se tratou de um acidente'.
A seguradora recusou pagar os estragos. 'A mãe desliga-me o telefone quando a contacto e ainda diz que a estou a importunar', refere o professor. Outra docente, que sofreu um prejuízo de 400 euros, alerta para a necessidade de alguém ter de pagar os danos.
AGRUPAMENTO AFIRMA QUE NADA TEM A DIZER
Uma responsável do Agrupamento de Escolas de Montemor-o-Velho escusou-se ontem a comentar o comportamento do estudante, limitando-se apenas a afirmar: 'Nada tenho a dizer sobre isso. O assunto tem sido resolvido.' A Direcção Regional de Educação do Centro (DREC), contactada pelo CM, não se pronunciou sobre esta questão até à hora do fecho desta edição. Os professores entendem que o Ministério da Educação – ou algum dos organismos dele dependentes – têm de fazer alguma coisa para prevenir os ataques do rapaz, mas sobretudo para que os prejuízos sejam pagos aos lesados.
DETALHES
Puxão de Cabelos
Um par de óculos foi partido depois de o menor ser repreendido por ter puxado os cabelos a uma colega.
Falta de cobertura
O seguro escolar não cobre este tipo de situações. Segundo as vítimas, a legislação não contempla o pagamento de óculos.
Outras vítimas
Antes só partia os dos docentes, mas o menor já danificou os seus próprios óculos e partiu, por duas vezes, os de uma colega.
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