Estudo abrange mais de mil jovens entre os 12 e os 21 anos.
Quase dois terços dos jovens açorianos que participaram num estudo sobre violência no namoro legitimaram pelo menos um comportamento de violência e mais de metade dos que já tinham namorado admitiram terem sido vítimas de violência, foi esta sexta-feira revelado.
"Do total de participantes no estudo na Região Autónoma dos Açores, 65,5% (652) não consideraram violência no namoro pelo menos um dos 15 comportamentos analisados no inquérito", lê-se nos resultados do estudo, apresentados esta sexta-feira pela União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), em Angra do Heroísmo, na ilha Terceira.
O estudo "Violência no namoro em Portugal: vitimação e conceções juvenis -- 2026", realizado no âmbito do projeto Art'hemis+, abrangeu 1.009 jovens, entre os 12 e os 21 anos, que frequentavam turmas do 7.º ao 12.º ano, em oito das nove ilhas dos Açores.
Segundo Margarida Pacheco, uma das investigadoras deste estudo, os dados da Região Autónoma dos Açores não diferem de forma significativa dos verificados a nível nacional, mas há mais violência física no arquipélago.
"As formas de violência que têm indicador de legitimação maiores são as mesmas nos Açores. A única ressalva que deixo para refletirmos é que, comparado ao nacional e à Região Autónoma da Madeira, a violência física é maior nos Açores, tanto a nível de legitimação, como a nível de vitimação. E já é uma percentagem significativa", afirmou.
Entre os comportamentos analisados, o que foi mais legitimado pelos jovens açorianos foi o controlo (52,8%), sendo que 32,7% dos inquiridos não consideraram violência no namoro ter acesso a redes sociais e mensagens do outro sem autorização.
Um terço dos jovens (33,3%) legitimou comportamentos de perseguição, 28% violência psicológica, 14,6% violência através das redes sociais e 14,4% violência sexual.
A violência física foi o comportamento menos legitimado (7,1%), mas a nível nacional o número ficou-se pelos 5,9%.
Dos jovens que participaram no inquérito, 721 indicaram já terem tido uma relação de namoro. Destes, 59% (424) "reportaram ter experienciado, pelo menos, um dos indicadores de vitimação questionados".
Segundo Margarida Pacheco, "as violências mais legitimadas também são as violências mais autorreportadas".
"Se nós legitimamos, achamos que aquele comportamento não é violência, podemos exercer ou podemos sofrer esse comportamento e acharmos que é uma relação saudável", explicou.
Quase metade dos inquiridos (46,7%) admitiu já ter vivido situações de controlo no namoro, sendo que 35,2% revelaram terem sido proibidos de estar ou falar com alguém.
A violência psicológica surge em segundo lugar com 37,8%, seguindo-se a perseguição (28,7%), a violência sexual (15,7%) e a violência através de redes sociais (14,7%).
Também neste caso a violência física é o indicador menos reportado (11,8%), mas novamente acima do verificado a nível nacional (9,9%).
Na diferença entre géneros, o estudo demonstra que os rapazes legitimam mais os comportamentos de violência no namoro do que as raparigas, que por sua vez reportam mais situações de vitimação, em todos os indicadores, com exceção da perseguição.
No caso da violência sexual, por exemplo, enquanto 23,5% dos rapazes legitimam este comportamento, apenas 6,9% das raparigas o fazem.
No entanto, 20,5% as raparigas admitiram terem sido vítimas deste tipo de violência, contra 9,7% dos rapazes.
Segundo Margarida Pacheco, o combate a estes números passa pela prevenção, com ações que devem começar nos jardins de infância.
"Não precisamos trabalhar logo as relações íntimas, não é isso que nós estamos a tentar passar, mas, de facto, trabalhar em contexto escolar, porque apanhamos mais jovens e mais crianças e também sabemos que o contexto familiar é o contexto mais violento para crianças e jovens na nossa sociedade", salientou.
A investigadora alertou ainda para a necessidade de as famílias controlarem os conteúdos a que os menores de idade têm acesso na internet.
"Pode estar um jovem, uma criança, a jogar no computador e estar a falar com pessoas adultas sem sabermos, podem estar a ver vídeos que não sabemos. Por isso, é muito importante comunicar com as crianças e com os jovens que a violência, seja psicóloga, física, qualquer forma, é completamente errada", vincou.
A presidente da UMAR/Açores, Maria José Raposo, lembrou que a associação chega todos os anos a cerca de 3.500 jovens, com ações de sensibilização nas escolas, mas admitiu que é preciso reforçar as equipas para conseguir fazer um "trabalho constante e diário".
"Sabemos que é pela educação e prevenção primária em contexto escolar e com uma pedagogia holística, sistemática e continuada que ocorrerá a verdadeira mudança de comportamentos e atitudes. É um trabalho que requer equipas especializadas e cada vez mais isso tem de acontecer", frisou.
Segundo a presidente da UMAR/Açores, apesar de a violência física ter vindo a "diminuir consideravelmente", todas as outras formas de violência no namoro "estão a aumentar".
Maria José Raposo alertou que muitos destes casos acabam por conduzir a situações de violência doméstica no futuro.
"A maior parte das vítimas que nós estamos a atender são extremamente jovens. Neste momento, temos senhoras com 19 anos (...) e esta violência doméstica vem da violência do namoro, nitidamente", referiu.
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