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Sistema de drenagem do Baixo Mondego tem funcionado mas manutenção preocupa

Assim que a água chega aos campos agrícolas, sucedem-se os avisos aos agricultores -- nomeadamente por parte da associação de beneficiários da obra hidroagrícola.

01 de fevereiro de 2026 às 16:54

O sistema hidráulico que permite retirar, para os campos agrícolas, parte da água em excesso do canal central do rio Mondego, entre Coimbra e Montemor-o-Velho, tem funcionado, mas a falta de manutenção preocupa a população, autarcas e agricultores.

Uma das componentes da obra hidroagrícola do vale do Mondego, nomeadamente a regularização do rio, construída entre 1978 e 1992, é, precisamente, a sua capacidade de evitar inundações, retirando pressão ao caudal do leito central canalizado do Mondego e impedindo que este parta as suas margens (diques), resultando numa cheia catastrófica.

O sistema inclui, para além da barragem da Aguieira e a Ponte-Açude de Coimbra, inauguradas em 1981, um conjunto de descarregadores ao longo da margem direita (do lado de Montemor-o-Velho), que, após a cheia de 2019, foram reforçados com mais duas infraestruturas.

No entanto, a própria acumulação de água do vale central agrícola do Baixo Mondego (localizado na margem direita do canal central do rio), em conjunto com características específicas da obra hidráulica, - a descarga das barragens, o volume de água no Mondego e as condições climatéricas, com mais ou menos chuva, - ditam o impacto, maior ou menor, de uma inundação nos campos, que sucederá sempre, estendendo-se por mais de 6.000 hectares (o equivalente a 8.500 relvados de futebol de 11).

Desde há dias, quando os caudais do Mondego começaram a subir, que os quatro descarregadores da margem direita, cada um capaz de tirar até 200 metros cúbicos por segundo (m3/s), começaram a funcionar: primeiro o localizado logo após o açude-ponte, junto à mata nacional do Choupal, um dique fusível -- abre quando a água atinge determinada cota -- e drena para uma vala adjacente.

Os três descarregadores restantes, estes em sistema de sifão (com funcionamento semelhante a um autoclismo, automáticos, logo sem um botão para fazer sair a água) localizam-se mais a jusante no canal central do Mondego, separados entre si por cerca de cinco quilómetros (km), no concelho de Coimbra.

O primeiro está localizado junto ao viaduto da autoestrada 1 (A1), o segundo entre as povoações de São João do Campo e São Silvestre e o terceiro em frente a São Martinho da Árvore e todos drenam a água para o vale central.

Assim que a água chega aos campos agrícolas, sucedem-se os avisos aos agricultores -- nomeadamente por parte da associação de beneficiários da obra hidroagrícola - para retirarem dos terrenos maquinaria agrícola e outros equipamentos, ciente de que a água não os vai poupar.

Mas, ao invadir os campos, a água causa outros dissabores, arrastando detritos e provocando estragos de monta em estufas, caminhos e estradas do vale, e este ano não é exceção, com os avisos a estenderem-se às populações, devido à chuva prevista e a possibilidade de cheias, também pelas descargas das barragens.

Em 2019, com o rompimento do dique da margem direita do canal central -- situação que, este ano, as diversas entidades estão apostadas em evitar -- a água avançou em direção aos núcleos urbanos da margem direita, invadindo o chamado leito periférico direito, depois de partir a margem esquerda desse canal, que recebe água das povoações localizadas a norte, junto à antiga estrada nacional 111.

As autoridades conseguiram, então, evitar que a margem direita do periférico direito também rebentasse e a lição foi aprendida, embora a solução encontrada (um novo dique fusível entre o vale central e o periférico direito, a montante da localidade de Casal Novo do Rio, às portas de Montemor-o-Velho) dependa sempre do volume de água existente nos campos do Mondego.

Porque este dique fusível só funciona se a cota de água acumulada no vale central for superior à que corre no periférico direito, o que, atualmente, não sucede. E a água que corre no periférico direito, em direção ao canal principal do Mondego, onde aflui, também só consegue entrar se o caudal no destino deixar. Resta o conhecido sifão nº 5, que permite tirar 3 m3/s em contínuo, para a vala da Ereira, (que corre paralela ao Mondego) em direção às comportas do Foja.

Mais atrás, no local onde o periférico direito passa por debaixo da ponte das Lavandeiras, fica a zona conhecida como 'embrulhada' de Montemor: ali, outro canal, o chamado leito abandonado -- rebatizado Padre Estevão Cabral e que levou à construção do parque ribeirinho de Montemor-o-Velho -- recebe, nesta altura, água em barda, resultante da acumulação no vale central, que, invariavelmente invade também o Centro Náutico ali localizado.

O leito abandonado também corre em direção às comportas do Foja (que ainda recebem água da ribeira com o mesmo nome, já no concelho da Figueira da Foz), passando por baixo do leito periférico direito, por um sistema de dois sifões que soma aos 3 m3/s da vala da Ereira um escoamento de 9 m3/s.

Chegamos, então, às comportas do Foja, que arrisca ser, há mais de uma década, o elo mais fraco do sistema hidráulico do Mondego: a infraestrutura foi pensada para recolher água junto às comportas encerradas, que seria bombeada para o leito central.

Mas, se poderia acolher seis bombas, só estão instaladas duas e uma não funciona há mais de uma década. Por outro lado, há muito tempo que as próprias comportas, também duas, têm uma fuga, permitindo que água lhes passe por baixo.

Resultado: a água do canal central do Mondego consegue entrar no Foja - quando devia suceder o contrário, com o auxílio da bombagem - potenciando inundações (também com a água que chega de Montemor-o-Velho), quer junto à povoação da Ereira, quer para jusante, em direção às freguesias de Maiorca, Ferreira-a-Nova e Vila Verde, na Figueira da Foz.

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