Assim que a água chega aos campos agrícolas, sucedem-se os avisos aos agricultores -- nomeadamente por parte da associação de beneficiários da obra hidroagrícola.
O sistema hidráulico que permite retirar, para os campos agrícolas, parte da água em excesso do canal central do rio Mondego, entre Coimbra e Montemor-o-Velho, tem funcionado, mas a falta de manutenção preocupa a população, autarcas e agricultores.
Uma das componentes da obra hidroagrícola do vale do Mondego, nomeadamente a regularização do rio, construída entre 1978 e 1992, é, precisamente, a sua capacidade de evitar inundações, retirando pressão ao caudal do leito central canalizado do Mondego e impedindo que este parta as suas margens (diques), resultando numa cheia catastrófica.
O sistema inclui, para além da barragem da Aguieira e a Ponte-Açude de Coimbra, inauguradas em 1981, um conjunto de descarregadores ao longo da margem direita (do lado de Montemor-o-Velho), que, após a cheia de 2019, foram reforçados com mais duas infraestruturas.
No entanto, a própria acumulação de água do vale central agrícola do Baixo Mondego (localizado na margem direita do canal central do rio), em conjunto com características específicas da obra hidráulica, - a descarga das barragens, o volume de água no Mondego e as condições climatéricas, com mais ou menos chuva, - ditam o impacto, maior ou menor, de uma inundação nos campos, que sucederá sempre, estendendo-se por mais de 6.000 hectares (o equivalente a 8.500 relvados de futebol de 11).
Desde há dias, quando os caudais do Mondego começaram a subir, que os quatro descarregadores da margem direita, cada um capaz de tirar até 200 metros cúbicos por segundo (m3/s), começaram a funcionar: primeiro o localizado logo após o açude-ponte, junto à mata nacional do Choupal, um dique fusível -- abre quando a água atinge determinada cota -- e drena para uma vala adjacente.
Os três descarregadores restantes, estes em sistema de sifão (com funcionamento semelhante a um autoclismo, automáticos, logo sem um botão para fazer sair a água) localizam-se mais a jusante no canal central do Mondego, separados entre si por cerca de cinco quilómetros (km), no concelho de Coimbra.
O primeiro está localizado junto ao viaduto da autoestrada 1 (A1), o segundo entre as povoações de São João do Campo e São Silvestre e o terceiro em frente a São Martinho da Árvore e todos drenam a água para o vale central.
Assim que a água chega aos campos agrícolas, sucedem-se os avisos aos agricultores -- nomeadamente por parte da associação de beneficiários da obra hidroagrícola - para retirarem dos terrenos maquinaria agrícola e outros equipamentos, ciente de que a água não os vai poupar.
Mas, ao invadir os campos, a água causa outros dissabores, arrastando detritos e provocando estragos de monta em estufas, caminhos e estradas do vale, e este ano não é exceção, com os avisos a estenderem-se às populações, devido à chuva prevista e a possibilidade de cheias, também pelas descargas das barragens.
Em 2019, com o rompimento do dique da margem direita do canal central -- situação que, este ano, as diversas entidades estão apostadas em evitar -- a água avançou em direção aos núcleos urbanos da margem direita, invadindo o chamado leito periférico direito, depois de partir a margem esquerda desse canal, que recebe água das povoações localizadas a norte, junto à antiga estrada nacional 111.
As autoridades conseguiram, então, evitar que a margem direita do periférico direito também rebentasse e a lição foi aprendida, embora a solução encontrada (um novo dique fusível entre o vale central e o periférico direito, a montante da localidade de Casal Novo do Rio, às portas de Montemor-o-Velho) dependa sempre do volume de água existente nos campos do Mondego.
Porque este dique fusível só funciona se a cota de água acumulada no vale central for superior à que corre no periférico direito, o que, atualmente, não sucede. E a água que corre no periférico direito, em direção ao canal principal do Mondego, onde aflui, também só consegue entrar se o caudal no destino deixar. Resta o conhecido sifão nº 5, que permite tirar 3 m3/s em contínuo, para a vala da Ereira, (que corre paralela ao Mondego) em direção às comportas do Foja.
Mais atrás, no local onde o periférico direito passa por debaixo da ponte das Lavandeiras, fica a zona conhecida como 'embrulhada' de Montemor: ali, outro canal, o chamado leito abandonado -- rebatizado Padre Estevão Cabral e que levou à construção do parque ribeirinho de Montemor-o-Velho -- recebe, nesta altura, água em barda, resultante da acumulação no vale central, que, invariavelmente invade também o Centro Náutico ali localizado.
O leito abandonado também corre em direção às comportas do Foja (que ainda recebem água da ribeira com o mesmo nome, já no concelho da Figueira da Foz), passando por baixo do leito periférico direito, por um sistema de dois sifões que soma aos 3 m3/s da vala da Ereira um escoamento de 9 m3/s.
Chegamos, então, às comportas do Foja, que arrisca ser, há mais de uma década, o elo mais fraco do sistema hidráulico do Mondego: a infraestrutura foi pensada para recolher água junto às comportas encerradas, que seria bombeada para o leito central.
Mas, se poderia acolher seis bombas, só estão instaladas duas e uma não funciona há mais de uma década. Por outro lado, há muito tempo que as próprias comportas, também duas, têm uma fuga, permitindo que água lhes passe por baixo.
Resultado: a água do canal central do Mondego consegue entrar no Foja - quando devia suceder o contrário, com o auxílio da bombagem - potenciando inundações (também com a água que chega de Montemor-o-Velho), quer junto à povoação da Ereira, quer para jusante, em direção às freguesias de Maiorca, Ferreira-a-Nova e Vila Verde, na Figueira da Foz.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.