"Muita gente tirava algum rendimento complementar desta atividade", adiantou Francisco Torrão.
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A apanha de cogumelos silvestres é no outono um rendimento extra que muitas famílias transmontanas vão perder este ano devido à seca que está a impedir o despontar destes fungos, como indicou esta sexta-feira uma associação local da especialidade
"Este ano não há chuva, não há cogumelos", observou Francisco Torrão, presidente da Xixorra- Associação Micológica da Terra Fria, que já está a adiar os passeios micológicos, usuais nesta época de outono, por falta de espécimes para observar e colher.
Um dos passeios estava marcado para Miranda do Douro no dia 10 de novembro e teve de ser adiado para o dia 20, contou o responsável, adiantando que há "outro, na segunda-feira, com eslovenos e italianos, mas é só para conhecer os habitats porque ainda não temos cogumelos".
Nos últimos dois dias, tem chovido na região, mas, nesta fase, Francisco Torrão duvida se chegará para haver cogumelos em abundância.
"Se a seguir à chuva as temperaturas descerem acentuadamente e vierem as geadas, então não haverá mesmo cogumelos silvestres", como constatou o presidente da Xixorra.
Neste outono, nos soutos, onde desponta uma das espécies mais caras, ainda não apareceram cogumelos, nem nos carvalhos, nem no resto da floresta.
Os cogumelos silvestres fazem parte da gastronomia regional, que poderá vir a ressentir-se com a escassez, assim como muitas famílias transmontanas que conseguem na apanha um rendimento extra com a venda, sobretudo, a intermediários espanhóis.
"Muita gente tirava algum rendimento complementar desta atividade. Neste caso não tiram", salientou.
Se continuar a chover e as temperaturas permanecerem amenas, "dentro de dez, 15 dias" já poderá haverá cogumelos, ainda que com um acentuado atrasado em relação aos anos anteriores.
O cenário foi descrito no X Fórum Internacional da Castanha em torno do tema "Soutos, Cogumelos e Mel", inserido na Feira Internacional do Norte "Norcaça, Norcastanha e Norpesca.
A ocasião serviu para a apresentação de mais um livro sobre o potencial micológico da região transmontana da autoria da investigadora galega Marisa Castro, que assina o trabalho "Os Cogumelos na Terra de Miranda - aproveitamento sustentável".
A autora decidiu escrever sobre o potencial das Terras de Miranda por entender ser "uma zona muito interessante, com uma grande diversidade de cogumelos".
O livro "não é um guia sobre cogumelos", como sublinhou, mas um instrumento pedagógico, também com algumas ideias para as "pessoas aproveitarem este potencial", nomeadamente ao nível do turismo micológico.
A quebra na qualidade da produção de castanha devido à seca, na região que é a maior produtora nacional, esteve mais uma vez em destaque neste fórum, onde as consequências deste "ano severo" foram ainda evidenciadas ao nível da produção de mel.
Os problemas na floração, durante a primavera e depois a seca, provocaram quebras de 40% na produção de mel a nível nacional, como indicou Manuel Gonçalves, presidente da Federação Nacional dos Apicultores de Portugal (FNAP).
As quebras são mais acentuadas na região Norte de Portugal, onde "rondam os 70%", segundo ainda aquele responsável.
"Tínhamos a esperança que a floração do castanheiro iria minimizar as perdas, mas o castanheiro floriu dois dias, com calor intenso acima dos 40 graus [que] não permitiu que as abelhas fizessem a polinização", afirmou.
Tanto é um ano severo que, como disse, "o Governo anda empenhadíssimo em arranjar quem forneça alimento [açúcar] para as abelhas, além das duas linhas de crédito que já foram lançadas, uma por causa da seca, para compra de alimento complementar e outra por causa da perda de produção para recuperar o potencial produtivo perdido nos incêndios".
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