O óleo de cozinha, que se compra em qualquer supermercado, pode ser usado em automóveis movidos a gasóleo como substituto mais económico desse combustível. À primeira vista pode parecer uma grande inovação, face ao aumento galopante do petróleo, mas a verdade é que se trata de um simples regresso às origens.
“Há 111 anos, o senhor Rudolph Diesel desenvolveu um motor de combustão, cujo combustível era óleo vegetal”, disse ao CM António Fernandes, responsável pela empresa BioCar que prepara viaturas movidas a gasóleo para usarem também óleo vegetal.
Viveu durante mais de duas décadas na Alemanha, onde lidou de perto com a poderosa indústria automóvel alemã, mas António Fernandes descobriu as potencialidades do óleo vegetal já em Portugal. Após vários meses de pesquisa intensa na internet e de muitos contactos com empresas germânicas, achou que estava preparado para arriscar “colocar óleo de fritar batatas no motor do carro”.
“No Verão de 2005 fui a um hipermercado com o meu Nissan Bluebird e enchi metade do depósito com óleo comprado ali mesmo”, conta António Fernandes, a quem chamavam ‘maluco’ por meter óleo no tanque de combustível, dando conta da surpresa “ao ouvir o motor mais silencioso, com mais força e menos vibração”.
Tecnicamente, todas as viaturas a gasóleo podem ser transformadas para que funcionem igualmente a óleo vegetal. A lista pode ser consultada no site oficial da empresa. “O conceito é bastante simples: o óleo é mais viscoso do que o gasóleo e, para ser utilizado pelas bombas injectoras, precisa de ser aquecido para diminuir essa característica”, refere, acrescentando que “alguns carros mais modernos não arrancam a óleo e, por isso, necessitam da solução de dois depósitos, um mais pequeno para gasóleo e outro de óleo vegetal”. Os custos de transformação podem ir dos 500 euros, para viaturas que só necessitem do kit monotanque, aos 900, para o kit de dois depósitos. Pesados também podem ser transformados, com um custo à volta dos quatro mil euros.
ETANOL DESTRÓI SELVA AMAZÓNICA
O Brasil, líder na produção de biocombustíveis, é alvo de críticas devido à destruição da selva amazónica. Tad Patzek, especialista na Universidade de Berkeley, Califórnia, é um dos maiores críticos à forma como o Brasil produz etanol a partir da cana do açúcar. “Dizer que é um modelo a ser seguido é um exagero”, disse, referindo-se às declarações do responsável pelo programa ambiental das Nações Unidas que elogiou o trabalho desenvolvido no Brasil. A ONG Amigos da Terra revelou que os agricultores estão a devastar a Amazónia para produzir cana do açúcar, depois de lhes terem sido retiradas terras de cultivo pelas grandes empresas produtoras de biocombustível.
UE ADMITE QUE HÁ PROBLEMAS
O comissário europeu do Ambiente, Starvos Dimas, alertou recentemente para a necessidade de a União Europeia reconsiderar o uso dos biocombustíveis. Conforme o próprio reconheceu, a União Europeia (UE) não previu as consequências negativas. “Concluímos que os problemas ambientais provocados pelos biocombustíveis e os problemas sociais são maiores do que pensámos antes”, afirmou Starvos Dimas, para quem é necessário “avançar com cuidado”. A mudança de atitude veio na sequência de vários estudos que estabelecem uma relação directa entre o aumento do preço de alimentos e a destruição de áreas de floresta devido à produção de biocombustíveis. “Temos de ter critérios de sustentabilidade, incluindo questões sociais e ambientais”, acrescentou.
EXEMPLO ALEMÃO
Agricultores alemães já recorrem ao óleo vegetal como forma de combustível há mais de 20 anos. Por ano fazem duas plantações de colza, vegetal cujas sementes produzem óleo.
POPUAR 15 MIL EUROS
Nos camiões adaptados ao consumo de óleo vegetal, a estimativa de poupança de combustível chega a atingir os 15 mil euros anuais por viatura.
INSPECÇÃO PERIÓDICA
Uma viatura transformada para receber óleo vegetal não tem problemas aquando da inspecção periódica obrigatória, garante António Fernandes.
ALTERNATIVAS
As preocupações ambientais fizeram aumentar a procura de combustíveis amigos do ambiente, como a electricidade, o gás, a energia solar ou mesmo o hidrogénio.
RENDIMENTO
O recurso a óleo directo como combustível não acarreta qualquer perda de rendimento da viatura. A isto acrescenta-se o preço por litro, que pode representar poupança de 75 cêntimos.
SILÊNCIO
Com uma combustão mais lenta, o barulho no arranque do motor e durante o andamento é mais reduzido, verificando-se também uma redução na emissão de dióxido de carbono para a atmosfera.
FALTA DE PRODUÇÃO
A produção de óleo vegetal em Portugal é praticamente nula, sendo na sua maioria importado. Isto faz com que o preço do óleo vegetal seja mais caro do que em países auto-suficientes.
ABASTECIMENTO
Em Portugal não existe uma rede de postos de abastecimento deste combustível, ao contrário de outros países da União Europeia. A solução passa por adquirir o produto em supermercados ou restaurantes.
FILTRO DE GASÓLEO
Além do permutador, o filtro de gasóleo também recebe um mecanismo eléctrico para aquecer o óleo vegetal. Este é accionado apenas para o arranque da viatura, após um longo período de paragem.
PERMUTADOR
Tem a função de aquecer o óleo vegetal. Ao receber água do motor, que circula a uma temperatura suficientemente elevada, permite que o óleo vegetal adquira uma viscosidade semelhante à do gasóleo, podendo assim ser injectado pela bomba.
ÓLEO VEGETAL
Qualquer óleo que se encontre à venda nos supermercados pode ser utilizado numa viatura a gasóleo. Comparando com o preço actual do gasóleo, regista-se uma poupança que pode chegar a atingir os 50 por cento. O óleo, depois de usado, também pode ser utilizado nos automóveis, necessitando de passar por um processo de filtragem.
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