A ideia de um mundo ausente de pessoas parece, numa primeira abordagem, descabida. Mas passa a fazer todo o sentido se for levado em conta um cálculo simples: as diversas espécies de mamíferos contam com um período de existência aproximado de 2,5 milhões de anos, sendo então, ao fim desse tempo, substituídos por outros animais. Seguindo esta ordem de ideias, e como o homem moderno vive desde há 250 mil anos, o mais provável é que dentro de outros 2,25 milhões de anos passe à história. Pelo menos é esta a teoria sustentada por geólogos e paleontólogos da Universidade de Utreque, na Holanda que, a partir da análise e processamento de informação proveniente de milhões de fósseis, encontrados em Espanha, concluiram que restam ao Homem pouco mais do que dois milhões de anos.
De acordo com os especialistas, este ciclo de vida deve-se a um desfasamento na órbita terrestre, o que significa que a Terra não se acercaria o suficiente do Sol, arrefecendo rapidamente. Por sua vez, o frio polar desta ‘Idade do Gelo’ (50 graus negativos) provocaria a rápida extinção de todos os mamíferos. A ser verdade, não vem a despropósito a questão: ‘O que aconteceria com o planeta Terra se a actual raça dominante fosse completamente extinta?’
Esta já não é a primeira vez que se coloca a hipótese do desaparecimento do Homem, considerada de tempos em tempos como resultado de uma guerra mundial, de um desastre nuclear ou até mesmo como consequência de um vírus mortífero. Sem se preocupar em estabelecer uma causa, a revista britânica ‘New Scientist’ arriscou descrever minuciosamente o eventual desaparecimento do Homem. Para concluir que, por exemplo, em cem mil anos a presença humana na Terra estaria reduzida a ruínas arqueológicas.
As consequências da ausência do Homem na Terra começariam, contudo, muito antes, ou seja, imediatamente a seguir ao desaparecimento da espécie humana, com outras 15 mil espécies de animais, que hoje se encontram em vias de extinção, a conhecerem as portas da salvação. A partir daí as mudanças ocorreriam em catadupa.
Para imaginar o que seria da Terra 24 horas depois do adeus à raça humana, o exercício é simples. Basta que cada um de nós vista a pele de Tom Cruise no papel de David em ‘Vanilla Sky’ e depois tentar viver aquilo que o actor sentiu quando confrontado com uma Nova Iorque que nunca pára, sem pessoas, nem vozes, nem buzinadelas. O cenário é, no mínimo, estranho, mas não existe apenas nas fantasias do realizador do filme, Cameron Crowe. A Terra sem mão humana seria exactamente como o cineasta imaginou – sem poluição sonora. Quarenta e oito horas a seguir, as centrais eléctricas entravam em ‘blackout’, e as luzes sumiam-se, como a daquele semáforo para o qual David olha de esguelha enquanto espera e desespera por um sinal de vida.
As alterações seguiam-se ao fim de três meses com a diminuição da poluição atmosférica. Dez anos depois, dava-se o desaparecimento do metano da atmosfera. Após vinte anos, a natureza recuperava as estradas rurais e aldeias e, em 50 anos, os mares e oceanos seriam repovoados de peixes, enquanto os rios e lagos ficariam livres de nitratos e fosfatos. Em 100 anos, a vegetação tomaria conta das estradas urbanas e das cidades, inclusive das grandes metrópoles. E um século depois, seria de esperar o colapso de tudo quanto fossem estruturas de ferro e pontes.
O próximo milénio, ou seja a partir de 3007, ficaria marcado pelo desaparecimento da maioria das construções de pedra e tijolo, mas também pelo facto de a atmosfera voltar a reencontrar os níveis de dióxido de carbono existentes na época que antecedeu à revolução industrial.
Um salto no tempo e chegamos ao ano 52007, daqui a 50 mil anos, altura em que, na melhor das hipóteses, restariam apenas ruínas arqueológicas para testemunhar a passagem do Homem na Terra.
Já os estragos devidos à mão da raça humana, esses demorariam um pouco mais a desaparecer: os resíduos químicos demorariam 200 mil anos e as escórias universais cerca de 2 milhões de anos.
A relativa rapidez com que a natureza tornava a florescer mal o Homem virasse costas é curiosa. E não há muito tempo, Chernobyl deu-nos uma prova disso. Depois de ter sido salvo de um dos maiores acidentes nucleares de todos os tempos, a 26 de Abril de 1986, a então próspera cidade da ex-União Soviética, hoje Ucrânia, transformou-se a certa altura em espaço ecológico, apesar de ser uma das áreas mais contaminadas do Mundo. Todas as pessoas foram evacuadas há 20 anos, mas deixaram para trás animais que, entretanto, multiplicaram-se. Espécies que não eram vistas há décadas, como o lince e a coruja gigante, reapareceram. E até mesmo surpreendentes pegadas de ursos, animais que não eram vistos na Ucrânia há vários séculos, foram encontradas na região.
É caso para dizer que a natureza tem uma capacidade de resistência impressionante.
O FUTURO DO PLANETA TERRA
FIM DA POLUIÇÃO E SALVAÇÃO DAS ESPÉCIES AMEAÇADAS
A extinção da Humanidade permitiria o regresso triunfante da Natureza. Para muitas espécies animais, actualmente ameaçadas pela tecnologia desenvolvida pelo Homem, seria a garantia de sobrevivência. Sem poluição, o ar, a terra e os mares recuperariam a pureza original e ocupariam o que era seu no princípio do Mundo.
DE IMEDIATO...
A maioria das espécies em vias de extinção salvava-se.
EM 24 HORAS...
Deixava de haver poluição sonora.
EM 48 HORAS...
Deixava de haver poluição luminosa.
EM 3 MESES...
Diminuiria a poluição atmosférica.
EM 10 ANOS...
Desaparecia o metano da atmosfera.
EM 20 ANOS...
Estradas rurais e aldeias ficariam cobertas de vegetação.
EM 50 ANOS...
Mares e oceanos seriam repovoados de peixes, rios e lagos ficariam livres de nitratos e fosfatos.
EM 100 ANOS...
Estradas urbanas e cidades cobertas vegetação.
EM 200 ANOS...
Colapso de pontes e estruturas de metal.
EM 500 ANOS...
Regeneração das barreiras coralinas.
EM 1000 ANOS...
Desaparecimento de edifícios, regresso da anidrase carbónica na atmosfera ao nível pré-industrial.
EM 50 000 ANOS...
Dissolução do vidro e do plástico.
EM 100 000 ANOS...
A presença humana seria reduzida a ruínas arqueológicas.
EM 200 000 ANOS...
Desaparecimento de resíduos químicos.
EM 2 MILHÕES DE ANOS...
Desaparecimento das escórias universais.
CÃES E GATOS
Se o Homem desaparecesse, muitos animais domésticos voltariam a tornar-se selvagens (caso dos cavalos, dos porcos e vários outros). Também os cães e os gatos tenderiam a voltar à vida selvagem. Algumas espécies em vias de extinção salvavam-se, outras não porque hoje sobrevivem apenas graças ao Homem.
ESPÉCIES AMEAÇADAS
O número de espécies que hoje estão sob ameaça de extinção atinge as 15 587, muito por causa dos estragos causados pelos mais de 6 mil milhões de humanos na Terra. Para ter uma ideia, 18,7 por cento da superfície terrestre está hoje danificada pela poluição luminosa.
"O HOMEM NÃO SE MODIFICOU MUITO"
Miguel Telles Antunes, de 69 anos, foi catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa. Dirige o Museu da Academia das Ciências.
Correio da Manhã – Na sua opinião, quais as probabilidades de o Homem desaparecer daqui a cerca de dois milhões de anos?
Miguel T. Antunes –A extinção do Homem é uma realidade à qual não podemos fugir. Em todos os tempos houve evolução. Mas falar de datas precisas parece-me demasiado taxativo e falacioso. Hoje em dia há um conhecimento bastante rigoroso das espécies e, por isso, é possível reconhecer facilmente fenómenos de extinção e de migração ou aparição de novas espécies. Daí a dizer que pode realmente acontecer daqui a ‘x’ tempo parece-me abusivo. Até porque a velocidade de evolução nos diferentes grupos não é idêntica.
– Quer dizer que, para si, a análise dos especialistas da Universidade de Utrecht não tem qualquer fundamento?
– A espécie humana não é mais do que uma das que existem e que tenderão a evoluir. Agora, o que nós podemos pensar é se essa evolução seria tolerada pelo próprio Homem. É natural que exista um certo medo de que apareçam outros que nos vão querer liquidar. Daí à hostilidade é um passo, ao extermínio é outro. E não vamos em conversas de que o homem se modificou muito, não é verdade. A tecnologia é que se modificou muito, evoluiu. A alma humana, não sei. Hoje não há massacres horríveis? E genocídio? E intolerância? A realidade às vezes não é tão simples quanto isso.
– É um cenário competitivo que imagina com o aparecimento de uma nova espécie?
– Claro, tal como o homem de Neandertal foi eliminado pelo homem de tipo moderno. Mas a capacidade de adaptação do Homem também é muito grande.
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