Miguel Seabra, actor e encenador, fundou a Companhia Teatro Meridional em 1992. Três peças, outros tantos anos e oito prémios depois sofre um violento AVC que o deixa em coma, sem fala e com os movimentos diminuídos.
Numa recuperação exemplar, recupera a fala, readquire a capacidade de actuar e é depois distinguido com o mais popular prémio da sua carreira.
Numa companhia sui generis, desde logo pela multinacionalidade dos fundadores – um português (ele), dois espanhóis e um italiano – o sucesso não podia ter sido mais rápido. Logo a primeira peça, ‘Ki Fatxiamu noi Kui’, foi premiada no Festival Internacional de Casablanca e nesse ano Miguel Seabra distinguido com o prémio Acarte Madalena Perdigão.
Dois anos depois, em 1994, surge ‘Ñaque ou Sobre Piolhos e Actores’, que apesar de Miguel Seabra recusar distinguir entre outras peças, “uma leva à outra e todas são importantes”, acaba por lhe merecer um comentário singelo: “Foi a mais premiada.”
Foi também com ‘Ñaque’ que Miguel Seabra assinalou o regresso aos palcos após o AVC – numa representação , no Centro Cultural de Belém.
Mas, “recapitulemos...” (como diria o personagem de Raul Solnado na ‘Balada da Praia dos Cães’). Estava o Teatro Meridional e o próprio Miguel Seabra no início de uma carreira promissora quando, em Maio de 1995, o actor/encenador preparava a peça ‘Cloun Dei’, no Teatro S. Luíz e, sem perceber, sofreu um AVC que o fez perder os sentidos.
Só 10 dias e uma operação ao crânio depois recuperou do coma. Na origem do AVC esteve uma razão congénita.
A ajuda da então companheira e actriz Natália Luiza permitiu recuperar a fala e a fisioterapia ajudou nos movimentos.
Depois de se sentir capaz de actuar (com a prova do ‘Ñaque’) regressou à carreira e “opção de vida”.
E em boa hora o fez. Além do reconhecimento entre pares, o regresso permitiu-lhe o prémio de maior visibilidade até hoje: Globo de Ouro SIC/Caras pela actuação na peça ‘Endgame’ (que protagoniza com João Lagarto, primeiro, e Diogo Infante, depois). Afinal, como diz o próprio Miguel Seabra, “há grandes contrariedades que, se aproveitadas, são oportunidades de crescimento”.
Licenciado em Teatro, há três coisas das quais o lisboeta, 42 anos, Jorge Miguel Seabra de Mendes Pinto, fala com sentido de orgulho: do Jardim Infantil Pestalozzi, do Belenenses e do Meridional, “segunda companhia portuguesa mais premiada”. Feito o liceu no Rainha D. Leonor, Miguel Seabra tenta gestão no ISCTE, durante dois anos anos. Percebe não ser essa a sua vocação e faz do Teatro a sua “opção de vida”.
QUANDO O 'TU' SUPERA O 'EU'
Desafiado pelo CM a enumerar o mais importante na recuperação de um AVC, Miguel Seabra ensaia uma resposta prevista: “É como a gramática na escola, primeiro ‘eu’, força de vontade; depois ‘tu’, com quem estás e depois ‘eles’, médicos e fisioterapeutas.” Mas logo inverte importâncias. “Se hoje estou aqui e voltei ao teatro, quem mais ajuda me deu foi a Natália Luiza [também actriz], que comigo vivia na altura.” E lembra as vezes em que ela se escondia debaixo da cama para fugir ao controlo das enfermeiras e com ele insistia em “frases sem nexo” só para o obrigar a falar. “Foi a melhor terapeuta da fala”, recorda. Confrontado com o carinho que usa ao referir-se à ex-companheira, o actor/encenador sugere que seguiram diferentes caminhos “porque a vida a isso conduziu”. Do que ficou, exemplo é Natália Luiza ser “a mãedrinha” de Laura, dois anos, filha do actor e da actriz Mónica Garnel.
UM AVC NA VIDA DE UM ACTOR
TRINTA ANOS
Miguel Seabra tinha 30 anos quando em 1995 sofreu um forte AVC. Ficou 10 dias em coma, perdeu a fala e os movimentos do lado direito. Esteve internado em São José durante cerca de dois meses.
‘ÑAQUE’
A peça mais premiada do Meridional é o ‘Ñaque ou de Piolhos e Actores’. Foi também com esta peça que Miguel Seabra regressou ao palco, após o AVC e percebeu ser capaz de voltar a actuar.
VIDA AGITADA
Ciente de que para o AVC pode ter contribuído a agitada vida de actor, Miguel Seabra não hesita: “É uma opção de vida.” A companhia tem novo espaço na rua do Açúcar, n.º 64, em Lisboa.
‘KI FATXIAMU NOI KUI’
Foi a primeira peça da companhia e logo premiada no Festival Internacional de Casablanca. É por isso com sentido orgulho que Miguel fala do Meridional.
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