Os seres humanos modernos chegaram de África à Europa, há 40 mil anos, e continuaram a evoluir através do contacto com os homens de Neandertal, segundo um estudo assinado por vários cientistas europeus e norte-americanos – entre eles os portugueses João Zilhão, ex-director do Instituto Português de Arqueologia (IPA), e Ricardo Rodrigo, do Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática do IPA –, publicado anteontem na revista ‘Proceeding of the National Academy of Sciences’, dos EUA.
Os arqueólogos estudaram um crânio quase completo com cerca de 36 mil anos, descoberto em 2003, na caverna Petera Cu Oase, no Oeste da Roménia, e compararam-no com outras amostras do mesmo período Plistocénico (35 000 a 40 500 anos) descobertas nas grutas de Mladec (Morávia), Cioclovina e Muierii (Roménia). Chegaram à conclusão de que os despojos apresentam uma mistura de traços anatómicos dos homens modernos e dos Neandertais. As diferenças entre os vários achados sugerem “uma complexa dinâmica demográfica, à medida que os seres humanos modernos se dispersavam na Europa”.
Contactada pelo CM, a antropóloga física Eugénia Cunha, da Universidade de Coimbra, manifesta reticências em relação a esta descoberta: “Confesso que não li o estudo, no entanto, conheço a investigação. A genética que tem vindo a ser revelada através do ADN mostra claramente que a separação entre o homem moderno e o de Neandertal aconteceu há 40 mil anos”, diz. E acrescenta: “Podem ter existido cruzamentos e uniões pontuais, mas que não foram significativos. Caso contrário, nós teríamos ‘genes Neandertais’ – e o genoma humano prova exactamente o contrário.”
A hipótese desta miscigenação entre as espécies foi levantada em 1998 quando, no Vale do Lapedo, em Leiria, foi descoberto o esqueleto de uma criança com quase 25 mil anos, que revelou traços comuns às duas espécies.
O arqueólogo Francisco Almeida, responsável pela investigação do Vale do Lapedo, é peremptório: “Houve uma relação entre os últimos Neandertais a extinguirem-se na Europa e os primeiros homens modernos. Se não, como explicar que os Neandertais desapareceram há 28 mil anos, mas o esqueleto do Lapedo tem menos de 25 mil anos?”
Francisco Almeida tem esperança de que a ciência esclareça: “Vão aparecer mais fósseis com a mesma morfologia e aí os cépticos deixarão de ter dúvidas”, remata.
INVESTIGAÇÃO DUROU TRÊS ANOS
Um crânio quase completo com cerca de 36 mil anos foi encontrado em 2003, na caverna Petera Cu Oase (também conhecida como ‘Gruta dos Ossos’), no Oeste da Roménia. Um grupo de cientistas europeus e norte-americanos analisou durante três anos este achado, comparando-o com outros da mesma época. Os investigadores concluíram que o crânio revelava características morfológicas dos Neandertais e outras comuns ao homem moderno.
DOIS PORTUGUESES ENTRE OS CIENTISTAS
A equipa de investigação do crânio descoberto no Sul da Roménia foi liderada por Hélène Rougier e Erik Trinkaus, ambos da Universidade de Washington, em Saint-Louis, nos Estados Unidos da América. A acompanhá-los durante os trabalhos estiveram dois arqueólogos portugueses: João Zilhão, ex-director do Instituto Português de Arqueologia (IPA) e actualmente investigador da Universidade de Bristol, Inglaterra, e Ricardo Rodrigo, do Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática do IPA. João Zilhão disse que a resolução dos problemas em causa vai ter de aguardar pelo estudo de outras amostras fósseis dos primeiros seres humanos que povoaram a Europa.
60 MIL ANOS
Na década de 90 foi descoberto no Lago Mungo, Austrália, um fóssil com cerca de 60 mil anos que, por análises de ADN e outras investigações arqueológicas, revelou características humanas.
28 MIL ANOS
Estima-se que os Neandertais tenham começado a extinguir-se na Europa há 28 mil anos, apesar de descobertas recentes apontarem para um desaparecimento posterior.
24 MIL ANOS
O esqueleto encontrado, em 1998, no Vale do Lapedo, Abrigo do Lagar, em Leiria, é de uma criança com aproximadamente quatro anos que, segundo os especialistas na matéria, teria cerca de 24 500 anos.
CAMINHO DA EVOLUÇÃO HUMANA
- Segundo a comunidade científica internacional, os antecessores do homem moderno são oriundos de África e instalaram-se na Europa há 40 mil anos
HÁ DOIS MILHÕES DE ANOS
- Homo habillis (África)
HÁ UM MILHÃO DE ANOS
- Homo rudolfensis (África)
- Homo ergaster (África)
HÁ 500 000 ANOS
- Homo antecessor (Espanha)
- Homo erectus (África, Ásia e Europa)
- Homo heidelbergensis (Alemanha)
ACTUALIDADE
- Homo neanderthalensis (Europa e Ásia Ocidental)
- Homo floresiensis 'O hobbit' (Indónesia)
- O crânio encontrado tem cerca de 36 mil anos. Os investigadores concluíram que este apresenta traços comuns ao homem moderno e ao de Neandertal Crânio de Oase (Roménia)
- Homo sapiens (em todo o Mundo)
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